DO CONTRA – a principal característica do porto-alegrense!

PARA LER E REFLETIR

O porto-alegrense – e, por extensão, o rio-grandense – tem um travo rançoso contra qualquer novidade. Ou, por outro lado, quando as pessoas se articulam para protestar estão dando provas de amadurecimento político?

Cultura discute o espírito de oposição que seria típico do Rio Grande do Sul

Autoboicote na cultura

Problema crônico ou maturidade democrática

Qual é o limite do debate

O ano que passou foi, em Porto Alegre, profícuo em exemplos de uma realidade política da cidade que fica cada vez mais evidente desde o processo de redemocratização. Talvez tenha sido o ano em que a mobilização popular e os debates das questões municipais tenham atingido o seu auge, revelando também uma resistência popular que pouca gente imaginou ter tanta força. Tudo isso, em tese, soaria como música ao ouvido de qualquer bom democrata. Até o momento em que um incômodo efeito colateral começa a ser sentido: a sensação de que as coisas não estão andando por causa justamente do eterno debate. Quem duvida pergunte ao maestro Isaac Karabtchevsky sobre a sensação de ver a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre ensaiando em um lugar emprestado, o Palácio Piratini, e se apresentando em espaços alugados, como o Teatro do Bourbon Country. Tudo porque a a construção de um teatro próprio para a Ospa não sai do papel desde 2002, com adiamentos motivados não pela falta de recursos – como seria normal no Brasil –, mas principalmente pela rejeição de grupos comunitários e movimentos ambientalistas.

– Nunca vi tamanho absurdo como o que acontece em Porto Alegre – desabafou Karabtchevsky, em entrevista a ZH em dezembro. – Vizinhos entram na Justiça tentando impedir a construção de um teatro alegando que “vai prejudicar a entrada de sol”, mutirões são feitos num parque porque um teatro supostamente “vai prejudicar a natureza”… Em todos os lugares do mundo, é frequente haver mutirões contrários, ou seja, para a construção de teatros, e não para impedir que eles sejam erguidos. Porto Alegre é o único lugar que conheci em que se briga para que a cultura não ganhe novos espaços e, assim, não possa avançar.

Embora a cultura do debate intenso não esteja restrita a esse nicho, as questões urbanísticas foram as que mais a evidenciaram nos últimos anos. A proposta para revitalizar a área do antigo Estaleiro Só foi rejeitada sem que se aprove uma substituta – a perspectiva é de que permaneça sendo um lamaçal inacessível à população por muitos anos. A discussão sobre o Plano Diretor mobilizou milhares em consultas populares que quase descambaram para agressões físicas e nas quais não se aprovou nem uma única linha de consenso – o Plano segue inalterado e insatisfatório. A revitalização do Cais do Porto é vítima, há anos, da alternância de partidos políticos no poder. O assunto não está mais nem em pauta, tamanha a quantidade de substituições de projetos que jamais são executados. Independentemente do mérito de cada um dos debates, de quem tem ou não razão, o resultado é sempre o mesmo e desolador: uma proposta alternativa à que é rejeitada não se apresenta rapidamente. E muitos anos se passam.

Afinal, existe uma “cultura do contra” em Porto Alegre, uma cultura que faz oposição sistemática mesmo que não tenha alternativas a oferecer?

Ruben Oliven, professor titular de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, autor do importante trabalho A Parte e o Todo, explica:

– O Rio Grande do Sul é um Estado muito politizado e sempre foi politizado de maneira polarizada. Num tempo era entre monarquistas e republicanos, depois foi entre republicanos e federalistas, depois PTB e anti-PTB, PT e anti-PT. Em sendo polarizado, é lógico que boa parte das coisas se politizam. Por um lado, isso não deixa de ser bom. As pessoas discutem, a mídia cobre, as pessoas se envolvem. Melhor do que ser feito de roldão. Mas claro que isso tem um custo.

As origens históricas dessa tendência remeteriam à fundação do Estado. Um conjunto de elementos complexos forjaram o comportamento político gaúcho. Entre ele, estão o bom nível da educação pública do passado e uma tradição de grande interesse das elites pelos espaços públicos – grandes juristas locais não são da esfera cível ou criminal, são constitucionalistas. A formação social, da constituição de pequenas propriedades, também contribuiu.

O período da ditadura militar e a subsequente redemocratização, no entanto, pareceram apontar para um novo rumo de novos movimentos de resistência.

– Porto Alegre é uma das cidades mais mobilizadas, talvez a mais mobilizada do Brasil, do ponto de vista comunitário – afirma o historiador Gunter Axt. – Isso é um dado histórico da cidade. Mesmo na ditadura houve movimentos de estudantes que subiram em árvores para que elas não fossem derrubadas, teve o movimento contra a Borregaard, tudo isso num período de compressão de liberdade civis.

As tradicionais politização e polarização do Estado e a redemocratização em nível nacional se associaram a um contexto internacional para formar uma mistura explosiva e fundadora das novas organizações sociais – menores, comunitárias e focadas em questões específicas. O professor de História da Unisinos Cláudio Pereira Elmir, autor do estudo Porto Alegre: a Perdida Cidade Una, explica qual é esse contexto:

– Há a fragmentação das lutas, como não se vê mais a perspectiva da profunda transformação social. As pessoas se envolvem em lutas específicas, aparentemente menores, embora não se possa dizer que são menores. Continua tendo uma questão ideológica e política envolvida, mas há um direcionamento da luta política para cantos mais restritos.

Elmir levanta um questionamento e uma hipótese, no caso da Capital:

– Não sei se isso é uma coisa específica de Porto Alegre. Mas o período de governo do Partido dos Trabalhadores, que foi um período longo e com muito investimento na participação mais direta, através do Orçamento Participativo, talvez tenha criado uma cultura no município.

Indícios de que se trata de um fenômeno recente existem, afirma o pesquisador:

– Durante a construção da Terceira Perimetral, houve muita intervenção e desapropriação, e não me lembro de ter havido tanta mobilização.

Há quem veja ares de um certo autoboicote proveniente da radicalização da cultura do “do contra”. Não tanto no jogo político, mas principalmente na esfera artística. Nos anos 80, ficou famosa no Estado a metáfora do balde de caranguejos: quando um tentava sair dele – o que na vida real correspondia a um artista fazer sucesso ou ganhar um reconhecimento além-província –, outro caranguejo logo o puxava para dentro novamente. Eram os colegas locais inconformados com o sucesso alheio.

– Acho que isso já foi pior. Mas não é um fenômeno gaúcho – arrisca o músico Arthur de Faria. – Em Pernambuco, eles contam exatamente a mesma história dos caranguejos. Existe a sensação, em relação à Bahia, de que os baianos se ajudam e por isso alcançam tanto sucesso na música. Acho que é uma fantasia nacional. Mesmo em Salvador a gente vê que isso é uma falácia.

O jornalista e crítico musical Juarez Fonseca vê na competição permanente e no autoboicote um problema grave para a cultura local, desde os tempos em que Elis Regina foi linchada moralmente por deixar o Estado e adotar o “carioquês”. O problema, diz ele, é o mínimo interesse na integração entre os artistas:

– Na Bahia, o Caetano até hoje fica puxando os novos artistas para o sucesso nacional. Promovem uns aos outros. Aqui, é muito difícil imaginar um Doces Bárbaros, por exemplo. Uma vez tentei fazer uma versão local do Crosby, Stills, Nash & Young, convidei Vitor Ramil, Nei Lisboa, Nelson Coelho de Castro e Bebeto Alves. A ideia era misturar repertório, mas o projeto morreu na mesma noite em que apresentei.

Diagnosticado o estado do paciente, surge então um consenso na avaliação do quadro médico. Para historiadores e cientistas sociais, a existência da disputa feroz e da oposição sistemática refletiria na verdade um amadurecimento político e um avanço democrático.

– Eu vejo como algo extremamente positivo quando uma sociedade é mobilizada em torno de grupos de interesse. Isso é um pilar de sustentação de uma sociedade democrática – afirma Gunter Axt. – Quando Roberto Da Matta escreveu Carnavais, Malandros e Heróis, isso era o que justamente ele dizia que não existia no Brasil. Ele comparava com a sociedade norte-americana, para mostrar como eles eram mobilizados e democráticos. A década de 80, que se chama de perdida na economia, foi de grande transformação institucional. Revelou que o Brasil se organizava em grupos com foco. Não era partido político, mas grupos de interesses organizados com foco. Aqui na França tem pelo menos uma manifestação por dia – exemplifica Gunter Axt, que vive temporariamente na Europa.

Usar o desenvolvimento como discurso para suprimir instâncias democráticas não é exatamente um prática nova. Ruben Oliven exemplifica:

– Não dá para fazer as coisas atropelando como um trator. Já tivemos isso no período ditatorial, com obras faraônicas que nem por isso eram boas.

Frequente na discussão sobre o desenvolvimento de cidades, a comparação de Porto Alegre com cidades como São Paulo, uma referência em dinamismo e empreendedorismo, em que túneis e metrôs são construídos do dia para a noite, pode, na verdade ser ilusória.

– São Paulo carece de uma sociedade civil mais organizada e de um debate público mais consistente. É uma cidade enorme, de grande dinamismo urbano. Mas não teria sido melhor, em determinados momentos, repensar a exploração imobiliária da cidade? A cidade precisava há muito tempo de metrô e hoje tem apenas três linhas para 20 milhões de pessoas – pondera Axt.

Charles Monteiro, professor-adjunto de História da PUCRS, autor de Porto Alegre e suas Escritas, também relativiza a comparação.

– Parece que o Rio Grande do Sul está sempre na contramão da história. Na verdade, não está – sublinha. – Às vezes, em algumas áreas e lugares onde a capacidade de investimento não é igual, como São Paulo e Rio, a coisa fica mais evidente. Em São Paulo há uma capacidade enorme da iniciativa privada de fazer as coisas funcionarem. E daí ela banca.

Poucas atitudes de um governante deram tanta margem para debate quanto a que o prefeito José Fogaça tomou ao vetar o projeto do Pontal do Estaleiro, aprovado anteriormente pela Câmara Municipal de Porto Alegre. Principalmente pela explicação: o prefeito acreditava que talvez um plebiscito fosse a melhor maneira de resolver uma questão que tanta polêmica estava levantando. Qual é, afinal, o limite do debate popular, em que começa a responsabilidade técnica do governante?

Não se pode fazer plebiscito a cada vez que se troca um cano – afirma Ruben Oliven. – É preciso considerar várias possibilidades e depois tomar uma decisão. Vai ter grupo contrariado, mas ele precisa ser ouvido para saber se é algo grave. Não vejo como incompatível, “ou faz autoritariamente ou não faz”. Já passamos esse período.

O limite, frequentemente ignorado em Porto Alegre, para Gunter Axt, é claro:

O que não pode acontecer é um governo se transformar em refém de qualquer minoria organizada que grite mais alto. Se um determinado projeto pode estar ofendendo uma minoria, pode também estar beneficiando um número muito grande. No caso da Ospa, é perfeitamente legítimo que uma associação de moradores não queira ter um teatro do seu lado. Porém, é lamentável que não existam instrumentos na sociedade para mostrar o profundo equívoco dessa associação de moradores.

Quando o debate ganha contornos ideológicos, não mais práticos e específicos, com partidos insuflando pessoas por motivos políticos em questões triviais da cidade, resta ao governante preservar a democracia por outro viés.

– Se as pessoas não estão dispostas a entrar num debate racional, cabe ao governo a posição que seja em benefício da cidade e não ficar paralisado diante da pressão. É antidemocrático o governo se tornar refém de uma minoria gritalhona – afirma Axt.

A ideologização, no entanto, seria um problema cada vez menos comum no novo contexto de fim das grandes causas políticas. Para o historiador Cláudio Elmir, não há mais posição política por trás das ações.

– A gente vê uma acomodação da luta política. Os partidos políticos não são ideologicamente muito marcados. As coisas se fazem mais de maneira pragmática. Se existem essas dualidades, não diria que elas estão marcadas ideologicamente. Hoje está no governo de Porto Alegre uma coalizão que poderíamos chamar de centro-direita. Pensando na hipótese de o PT ainda estar no governo municipal, iria tentar barrar o Pontal do Estaleiro? Não sei. Depende da posição circunstancial que os partidos estão ocupando. As ideologias e concepções dos partidos são utilizadas de acordo com as circunstâncias.

Zero Hora, 24/01/2009

gabriel.brust@zerohora.com.br
GABRIEL BRUST

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Esse é um dos mais lúcidos textos que já vi na imprensa local sobre Porto Alegre. Que bom que isso começasse a se discutido. A cidade ta parada por causa desses grupos que se mobilizam por motivos pessoais e não mais pela cidade. Isso é horrível ! Porto Alegre precisa respirar, antes que sucumba, soterrada em suas ruínas culturais e arquitetônicas!

Gilberto Simon



Categorias:Opinião

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2 respostas

  1. Realmente o texto é muito bom, reflete o que penso a muito tempo…

    Felizmente o jornal Zero Hora tem dado importantes contribuições para mudar o pensamento provinciano da cidade, e claro, o Blog Porto Imagem sempre contribuindo nesta luta também… Parabéns

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  2. Essa maneira DOENTIA de as coisas (não) acontecerem aqui NÃO é ser politizado. sinto muito. É ser atrasado.

    Perder a Ford, perder o Porto dos Casais, impedir o Pntal do Estaleiro, ser contra tudo, ver sua cidade perder em urbanismo para todas as capitais, brigar com os governos diferentes dos seus, espantar e mandar embora quem quer investir… ser “politizado” assim eu dispenso.

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