Porto Alegre, cidade turística ?

Depois de reforma, Ilha da Pólvora está abandonada na Capital

Zelador cuida de prédios que foram melhorados, mas aguardam projetos para atrair visitantes

ilha_polvoraNem todo homem é uma ilha como Luiz Carlos Garcia da Silva, 58 anos: por escolha própria e por descuido dos outros. Em 2001, foi recrutado por uma empresa de recursos humanos terceirizada pelo Estado para ser zelador da Ilha da Pólvora, em Porto Alegre, local onde mora há mais de 20 anos. O tempo foi levado pela correnteza, a carteira de trabalho do zelador mudou duas vezes de terceirizada e, oito anos mais tarde, ele se vê tão abandonado no meio do Guaíba quanto o local pelo qual zela.

São 244 hectares distantes 1.082 metros do cais do porto de Porto Alegre e 1.321 metros da Usina do Gasômetro. Compõem sua estrutura três prédios, o Paiol da Pólvora, a Casa da Guarda e a Casa da Chácara, todos datados do século 19. Transformados em escombros ao longo do tempo, foram reformados entre 1998 e 2001, ao custo de R$ 1,756 milhão — montante que chegou a R$ 2,607 milhões com as melhorias aplicadas na ilha e a compra de equipamentos.

O valor foi financiado pelo Pró-Guaíba para utilização do local no turismo, em eventos culturais e para acomodar um museu. O projeto não seguiu em frente, e a ilha voltou a ficar abandonada depois das obras.

Hoje, Garcia usa um pequeno barco para ir até a casa da filha Maria Rejane, 37 anos, na Ilha da Pintada, onde pode recarregar o celular. É que em setembro de 2005 acabou a energia elétrica na Ilha da Pólvora. O barco que levava óleo para fazer o gerador funcionar não apareceu mais. A casa de madeira em que o zelador vivia foi abandonada depois de sofrer uma invasão de meio metro do Guaíba, e agora ele mora em um espaço na Casa da Chácara.

Tendo como iluminação só a luz de velas, as peças de teatro que usaram a ilha como palco a partir do término das obras não passaram mais por lá. Crianças nunca chegaram para conhecer o museu, que parou de ser montado quando os aquários estavam com água pela metade.

A vida parou no meio do Guaíba. Aos poucos, foi ficando difícil para Garcia, que recebe um salário mínimo como auxiliar de serviços gerais da Fundação Zoobotânica (FZB), evitar virar uma ilha.

— Faz um ano que não aparece ninguém — lamenta.

Como se assumisse sua condição de isolamento, Garcia conta que poucas vezes cruza o Guaíba. As exceções a que se permite são a recarga do celular e as visitas a um irmão doente no centro da Capital e aos seis filhos espalhados por ilhas e uma vila da cidade. Mais do que isso, ele evita, pois é pago para ficar.

— Tenho saído mais no fim de semana — diz.

O abandono é visível. Um olhar mais atento, todavia, percebe que as lâmpadas, mesmo sem alimentação, estão praticamente todas inteiras, prontas para serem ligadas. As escadas da torre da Casa da Guarda permanecem novas.

O gerador parece nunca ter sido usado. A porta de vidro do que deveria ser o museu se quebrou com uma ventania em agosto de 2008, mas Garcia construiu uma engenhoca para impedir entradas sem permissão. Apesar do abandono, não se vê depredação na ilha.

— Aqui eu não faço nada. Só tomo conta — relata o zelador, como se fosse pouco.

Futuro imprevisto

Conforme a Secretaria Estadual no Meio Ambiente (Sema), não há previsão para a implementação de um projeto de revitalização da Ilha da Pólvora. O assunto entra na pauta de reuniões de técnicos do órgão, mas sem resultados práticos até agora.

A secretaria garante, porém, que recursos existem. No momento em que houver alguma definição sobre a ilha, seria possível liberar um aporte de R$ 5 milhões. O recurso viria de compensatórios ambientais – 0,5% dos investimentos feitos por empresas que obtêm licença ambiental para seus projetos.

Histórico

A Ilha da Pólvora está dentro do Parque Estadual Delta do Jacuí, criado em 1976 e administrado pela Fundação Zoobotânica até 2001, quando passou para a Sema por meio de decreto assinado pelo governador Olívio Dutra e publicado no Diário Oficial de 7 de junho daquele ano. O que deveria impulsionar o desenvolvimento de atividades nas edificações reformadas, porém, se perdeu em meio à falta de recursos e à burocracia.

O dinheiro previsto para o Pró-Guaíba, fonte que possibilitou a reforma dos prédios da Ilha da Pólvora, minguou ano a ano desde sua criação, em 1995. Atingiu o pico de US$ 81,2 milhões em 1998 e foi caindo, para US$ 27,5 mi em 1999, US$ 20,4 mi em 2000, US$ 12,7 mi em 2001, US$ 6,7 mi em 2002, US$ 4,7 mi em 2003 e US$ 1,4 mi em 2004. O total aplicado em 10 anos foi de US$ 220 milhões, 60% financiados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Em 6 de janeiro de 2005, o site do Pró-Guaíba parou de ser atualizado. Reflexo do término da primeira fase do programa e da passagem de mais de quatro anos de espera por investimentos que ativem sua continuidade. Atualmente, o programa opera com recursos de orçamento, sem aportes do BID. Quem informa é a secretária-executiva do Pró-Guaíba, Ana Carara, no cargo desde 2006.

Recém-empossado, o secretário do Meio Ambiente, Berfran Rosado, ainda tomará conhecimento do assunto. Ele tem participado de reuniões para saber dos projetos da pasta.

Zero Hora, 11/03/2009



Categorias:TURISMO

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1 resposta

  1. Resposta: Não, Porto Alegre NÃO é cidade turística.
    Cidades retrógragadas, que amam o REBELDISMO, não se prestam a atrair pessoas de fora.

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