Depois do referendo, o que fica?

O que aconteceu no referendo já era imaginável. O “NÃO” venceu, não por força dos ecoxiítas, mas por omissão de mais de 98% da população da cidade, que não compareceu. Porque sabemos que 80%, ou mais,  dos portoalegrenses, caso conhecessem o projeto,  seriam favoráveis. Somente uma minoria de pessoas com certos problemas cognitivos,  imunes a qualquer argumentação  ( e falo aqui de POA Vive,  Poa Resiste, Agapan)  conseguiram induzir pessoas de bom-sendo à desinformação, com argumentos mentirosos (sim, todos os argumentos contra o Pontal são mentirosos; não se tratam de argumentos fracos e falcilmente rebatíveis, que é uma coisa, são mentiras, mesmo , e não vou ficar usando eufemismos por aqui ) votaram contra o projeto sem saber do que se tratava.

Vamos recapitular aqui os principais argumentos, o que ja foi feito inúmeras vezes:

– O pontal vai privatizar a orla.  Mentira. Sabemos que a orla deve ser de acesso público, por lei. Além disso, sabemos também que haverá acesso público, o que nao havia antes. Nao há como tirar acesso do que não há acesso.  Mesmo assim, muitas pessoas acreditaram nessa falácia e votaram não, por desinformação.

– O pontal vai abrir precedente pra POA virar uma Balneário Camboriú. Mentira.  Eis a pergunta do referendo : “Além da atividade comercial já autorizada pela Lei Complementar nº 470, de 02/01/2002, devem também ser permitidas edificações destinadas à atividade residencial na área da Orla do Guaíba onde se localiza o antigo Estaleiro Só?”

Está lá bem claro que se trata da área do Estaleiro só, assim como o resto da Orla não é regido por esta Lei, e sim pelo conjunto do Plano Diretor.

– O pontal vai poluir o Guaíba. Mentira. Haverá um sistema de tratamento de esgotos de primeiro mundo nos prédios do Pontal.

– O pontal vai atrapalhar a circulação de ventos. Mentira. Se isso fosse verdade,  como ficam os habitantes de Recife, Buenos Aires, Barcelona , Chicago e todas as cidades com prédios verdadeiramente altos ( nao os nanicos do Pontal, que tem quem consiga achar alto) perto da orla?

– Vai desmatar vegetação nativa. Mentira. Como falar em vegetação nativa, se a área não é natural, e sim um aterro?

E assim vai, um por um. Não sobra nenhum argumento contrário. Quem sabe pensar criticamente, ter ponderação, razão e analisar bem os dois lados antes de tomar um decisao, não votaria contra o Pontal. Quem vota NÃO, ou o faz por desinformação, ou por pertencer a esses grupos radicais. Com eles, não adianta argumentar, pois quem não aprendeu a pensar logicamente é imune a qualquer argumentação.

Mas, eles perderam de qualquer jeito. Os comerciais virão.  E com eles, a cidade ganha. Menos que teria ganho com o uso misto.  Não teremos marina ou esplanada; além disso, o lugar ficará morto nos domingos, feriados e à noite. Não teremos segurança para irmos tomar cerveja com os amigos num bar de noite naquela região.  É uma pena. Os bares da Cidade Baixa, Goethe e de Ipanema são movimentados justamente por terem residências em volta. As residências nos garantiriam movimento, segurança e uma infra-estrutura muito maior. Tomara que construam prédios residenciais ali perto. Quem sabe compense um pouco a falta de uso misto na área do Pontal.

Mas,  o resultado desse referendo não é a vontade da população de Porto Alegre. A empresa interessada, dona do terreno, poderia até tentar anulá-lo via judicial, já que menos de 2% de votos seria uma piada em qualquer parte do mundo. Isso traz, contudo, uma boa notícia: mais de 98% da população de Porto Alegre não está contra o Pontal. Não se mobilizou para votar a favor, mas também não foi contra.  Agora, é claro que nenhum dos radicais deixaria de ir lá votar contra. Isso significa que agora sabemos que o número de radicais ecoxiitas em Porto Alegre não chega a 19 mil pessoas.

O que deve ser feito agora é tirar os outros mais de 98% da omissao.  Tentar espalhar uma nova consciência na população da cidade, uma consciência de se preocupar com a cidade, com seus problemas, de fazer sua parte pelo seu desenvolvimento.  Cada cidadão também é parte da cidade, o que é bom para a cidade, é bom para o cidadão e não o contrário. Mudar o pensamento individualista e passar a pensar no coletivo. Porto Alegre já foi, no passado, a terceira cidade mais importante do Brasil.  Ano passado estava lendo um livro da década de 40, e teve uma citação interessante: ” das grandes cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre”. Hoje, não entraríamos mais nesse grupo. Viramos uma província que nao está nem entre as 10 cidades com maior PIB, nem maior população.

Mas, com certeza, o portolaegrense ama a sua cidade e quer o bem dela. Se não fosse verdade, teria ido embora sem planos para voltar, e a esqueceria. Se temos uma ligação com a cidade, fazemos parte dela e devemos também ocupar um pouco de nosso tempo pensando em seu desolvimento, na qualificação do espaço urbano, no aproveitamento da orla. Se cada habitante dedicasse um pouco mais de seu tempo para conhecer a cidade, ver o que está acontencendo nela e os projetos que ela deverá receber, não teria sido influenciado por uma campanha cheia de factóides, movida por motivos, repitos, ideológicos, dogmáticos e irracionais, com argumentos completamente falsos e dignos de processos judicias por parte do empreendedor. E teria ido votar e dizer SIM ao uso misto.

A cidade não vai perder. Vai ganhar menos do que teria ganho vitória do “sim”, mas ganharemos os comerciais e com elas já teremos algo muito mais interessante do que existe agora. Que essa consulta, pelo menos,  mexa um pouco com idéias indivualistas e faça o portoalegrense pensar e se preocupar mais com a cidade. Será um primeiro passo para que grande mudanças ocorram. E que uma minoria não possa mais governá-la.



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4 respostas

  1. Fazia algum tempo que não lia um texto tão objetivo e lúcido – obrigado Felipe. Agora, é torcer para que os Pretorianos do “não” – a propósito: quem teria pago as adesivos, as camisetas, os cartazes tão orgulhosamente exibidos nos últimos dias? Alguma pista? – mudem seu alvo para que se iniciem as obras do Pontal, finalmente. E até já antecipo seu próximo objetivo, que será seguido com o costumeiro fanatismo: dinamitar o projeto do cercamento do Parque da Redenção – vale um chope?

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  2. Parabens Filipe pelo belissimo texto!!!

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  3. O Não ganhou por um único motivo: foi direcionado para isso. Quem era a favor do SIM pensou: Aquela área que hoje é um lixão já vai virar algo que preste com a aprovação da lei, então tanto faz ter prédio residencial ou não. As pessoas não estão nem aí se haverá moradores ou não. O que elas queriam já foi alcançado antes do referendo. Assim, os 2% de ecologistas da capital foram em peso, num gesto de total desespero contra o progresso sustentável. Espero que o resultado não seja politicamente usado para reverter uma lei já aprovada e amplamente apoiada pelos moradores de Porto Alegre.

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  4. Uma pena esta menoria ainda governar a cidade.

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