Fim da linha para o Metrô da Copa

A estratégia de usar a Copa do Mundo de 2014 como trunfo para finalmente trazer o metrô a Porto Alegre fracassou.

Em uma reunião realizada ontem em Brasília, o governo federal comunicou ao prefeito da Capital, José Fogaça, que não haverá dinheiro para um dos projetos mais aguardados pelos gaúchos no pacotão de obras do Mundial.

Na tentativa de amealhar recursos para o metrô, uma promessa de duas décadas e sucessivos governos, a Trensurb chegou até a refazer o traçado da linha subterrânea, transferindo-a da saturada zona norte de Porto Alegre, por onde estava previsto que passasse desde os primeiros planos, para perto do Beira-Rio, estádio que receberá jogos da Copa. Associar a obra à Copa era visto como a forma de garantir o investimento. Depois viria a luta para estender os trilhos para as áreas mais populosas, solucionando problemas de trânsito.

O plano não funcionou. Em duas horas de reunião, os ministros das Cidades, Márcio Fortes, do Planejamento, Paulo Bernardo e dos Esportes, Orlando Silva, afirmaram que o cronograma de construção da linha da Copa era extenso e que a obra não ficaria pronta a tempo da realização dos jogos. Luis Antonio Lindau, professor do Centro de Transporte Sustentável do Brasil, concorda com o argumento da falta de tempo:

– Não tínhamos como implantar uma obra de bilhões em menos de quatro anos. Chegou a hora de cairmos na realidade.

A decisão dividiu especialistas. O engenheiro João Fortini Albano, professor de Transportes da UFRGS, observa que ao mudar o traçado, a Trensurb atropelou a lógica, transformando na primeira a que deveria ser a última etapa. Para a urbanista Maria Isabel Marocco Milanez, professora do Centro Universitário do Ritter dos Reis (Uniritter), pelo contrário, o importante seria garantir um metrô em Porto Alegre, que ela considera imprescindível para resolver os problemas de trânsito na Capital:

– Um metrô é feito por circuitos, parte por parte, nunca por inteiro, de uma vez só. É preciso começar por algum lado. Por mais que esse traçado do Mercado ao Beira-Rio não atenda quem mais precisa do metrô, ele dá início ao projeto. Seria uma forma de começar algo que precisa ser iniciado de uma vez. Perdemos mais uma oportunidade.

Governo criou um grupo para analisar linhas alternativas

O adiamento, como em ocasiões anteriores, veio acompanhado de promessas para o futuro. Agora, os ministros dizem que o projeto deverá ser incluído na segunda edição do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), previsto para ser lançado em abril de 2010. Além de justificar a decisão pela suposta falta de tempo para a conclusão da chamada Linha 2, Fortes considerou que o empreendimento beneficiaria poucas pessoas após o término da Copa – mostrando que a estratégia de aliar a Copa à linha tinha um mal de origem.

O governo criou um grupo de trabalho para avaliar alternativas que tornem viável a construção da Linha 2, com novos estudos sobre formas de financiamento e até mesmo o trajeto da expansão. O mais provável é que a linha se estenda em direção à Zona Norte, como previsto originalmente, percorrendo a Avenida Assis Brasil.

– Vamos discutir como fazer o metrô em Porto Alegre sem colocar isso como condição para fazer a Copa – disse Bernardo.

Durante a reunião em que fecharam o cofre para o metrô, obra de pelo menos R$ 2,5 bilhões, os ministros anunciaram verbas para o trânsito e para o novo sistema de ônibus, o Portais da Cidade. Pelo menos R$ 368 milhões serão destinados à construção de corredores, entre eles na Avenidas Tronco. A Beira-Rio será duplicada. O aeromóvel deve receber R$ 30 milhões, em uma linha entre o trensurb e o aeroporto Salgado Filho.

Pá de cal no metrô?

Em tese, a decisão de incluir o metrô em um novo PAC pode significar que a alternativa de transporte não saiu do rol de prioridades dos governos. Na prática, porém, a decisão joga mais uma pá de cal sobre o projeto, que se arrasta há quase duas décadas. No início dos anos 90, com a Avenida Assis Brasil dando sinais de saturação, o metrô era dado como certo. Em dezembro de 1992, Porto Alegre chegou a obter sinal verde do Bird para a implantação de um metrô na extensão da Assis Brasil para atender Cachoeirinha e Alvorada.

Mudança no traçado

Antecipando a negativa do governo federal, técnicos da Trensurb já começaram a avaliar uma nova mudança no traçado do metrô, que havia sido modificado para passar próximo ao Beira-Rio. A alternativa seria voltar ao percurso que passa pela Marcílio Dias, com 13 quilômetros, e não mais pela José de Alencar, que aumentaria em 2 quilômetros o trajeto.

O diretor-presidente da Trensurb, Marco Arildo Cunha, acredita que a cidade terá, enfim, a chance de avaliar uma forma de tornar o metrô viável.

A aposta no ônibus

A reunião de ontem à tarde em Brasília foi uma vitória para o projeto Portais da Cidade, da prefeitura. A proposta do município é criar três grandes estações de transbordo no entorno do Centro, onde parariam os veículos que vêm dos bairros e de outros municípios.

Nessas estações, ocorreria a mudança, sem nova tarifa, para outro ônibus, que entraria na área central, reduzindo o número de veículos na área central. Os Portais são possíveis porque hoje os ônibus circulam com ociosidade no Centro.

Investimento no trânsito

Os R$ 368 milhões do governo federal prometidos para a Copa em Porto Alegre devem mudar a face do trânsito da cidade, pelo menos na região próxima ao Beira-Rio. O professor de Transportes da UFRGS João Fortini Albano afirma que os projetos, se implantados conforme a previsão da prefeitura, devem aliviar os engarrafamentos nas imediações do estádio.

Luis Antonio Lindau, professor do Centro de Transporte Sustentável do Brasil, diz que é necessário pensar em alternativas que não seja apenas metrô ou ônibus.

_______________________________________

Muito se perde

Maria Isabel Marocco Milanez Urbanista e professora do Centro Universitário Ritter dos Reis (Uniritter)

Chance perdida

“Essa decisão atrasará um projeto que já tinha de ter saído do papel há décadas. Um metrô é feito por circuitos, parte por parte, nunca por inteiro, de uma vez só. É preciso começar por algum lado. Por mais que esse traçado do Mercado ao Beira-Rio não atenda quem mais precisa do metrô, ele dá início ao projeto. O Rio de Janeiro fez isso. Só agora que o trem está chegando a Copacabana.”

Faltam alternativas

“O metrô não é a única solução, é uma das soluções que, integradas a um projeto intermodal, amenizaria os problemas de trânsito na Capital. Nós precisamos ter uma relação de diversas opções de transporte público integradas e hoje não temos um dos principais – o metrô. A infraestrutura viária de Porto Alegre está esgotada e cada vez mais há novas construções na cidade. ”

Ônibus é passado

“Essa discussão do metrô é muito antiga e sempre polarizada. Testemunhei as tratativas de levar o metrô a Alvorada que, como desta vez, não foram adiante. Na época, o metrô de Alvorada não saiu e o que temos no lugar hoje é um corredor de ônibus na Assis Brasil que tem uma das maiores hora/pico do Brasil. O sistema de ônibus integrado que está sendo proposto não resolve isoladamente, claro. Mas perdemos uma grande chance.”

______________________________________

Pouco se perde

João Fortini Albano Engenheiro e professor de Transportes da Escola de Engenharia da UFRGS

Traçado incoerente

“Pela lógica, o trecho do metrô do mercado até o Beira-Rio deveria ser a última etapa e não a primeira, se levarmos em consideração que a demanda para o transporte de massa se concentra nas zonas norte e leste da Capital. Além de começar pelo fim, a obra enfrentaria problemas que poderiam elevar seu custo e estenderiam seu prazo nas proximidades do Mercado Público e na Duque de Caxias. ”

Custo elevado

“Cálculos mostram que um quilômetro do metrô custam R$ 167 milhões. E as obras avançam, em média, dois quilômetros por ano, se tudo correr bem. O metrô de Salvador levou 10 anos para ser concluído. Por isso é correto dizer que seria praticamente impossível viabilizar o metrô até a Copa 2014.”

Portais da Cidade

“A decisão do governo federal de avaliar que, depois da Copa, o metrô não teria demanda suficiente é sensata. Para atender os jogos do Mundial no Beira-Rio, o projeto dos Portais da Cidade, se bem implementados, daria conta do recado com um custo 30 vezes menor. Esse projeto da prefeitura de colocar câmeras para monitorar o fluxo de veículos nas proximidades do estádio é muito útil. Se houver engarrafamento, a EPTC pode mudar o tempo das sinaleiras e amenizar o problema. Essas obras são mais úteis para a Copa.”

ZH



Categorias:COPA 2014, Metro Linha 2

Tags:

2 respostas

  1. Olha só a politicagem: aposto que se o governo do RS fosse Petista, rápidinho o governo federal arranjaria verba. Porto Alegre é mesmo do contra: passou 16 anos na mão do PT se fudendo com o governo federal, e hoje que o PT está no poder Porto Alegre é contra. Só nos resta comprar carros e abarrotar ainda mais o já caótico transito da cidade, pois onibus aqui em Porto mesmo sendo dos melhores do Brasil, ainda sim é sinonimo de lixo.

    Curtir

  2. To puto da cara com esses governantes,espero,cinceramente que as pessoas nao votem mais nessa cambada de corno.Eles que vao pedir voto em SP e RJ ,afinal,pra eles,so la que e Brasil,to com vergonha de ser brasileiro…

    Curtir

Faça seu comentário aqui:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: