PACOTE DA CONCEPA: Três propostas para desafogar a freeway

Limite de 120 km/h, inversão do fluxo e uso do acostamento são medidas contra engarrafamentos

Um pacote de mudanças proposto pela Concepa promete desafogar a principal via de ligação entre a Região Metropolitana e o Litoral Norte. Para amenizar o drama dos motoristas que sofrem com engarrafamentos na freeway, a concessionária pretende não apenas aumentar o limite de velocidade para 120 km/h, como também transformar o acostamento em faixa provisória e inverter o sentido de faixas em dias e horários de pico.

Há cerca de dois meses, a Concepa encaminhou à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) o pedido formal para ultrapassar o atual limite de 100 km/h com o argumento de que as condições técnicas da estrada são compatíveis com um ritmo maior. Segundo o diretor-presidente da empresa, Odenir Sanches, a medida também atenderia a pedidos frequentes dos condutores e ajudaria a reduzir os engarrafamentos em períodos de grande movimento.

– Em vez de um congestionamento começar às 16h, por exemplo, poderia começar às 17h. O tempo de trânsito complicado seria reduzido – acredita Sanches.

Enquanto a proposta é analisada pelos técnicos da agência, engenheiros e especialistas em trânsito avaliam o impacto. O professor de trânsito e transporte da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) João Hermes Junqueira acredita que a freeway tem dimensão, traçado e visibilidade até melhores do que algumas vias europeias onde o limite é de 120 km/h:

– A rodovia é adequada, e os automóveis têm tecnologia para isso .

A opinião é compartilhada pelo professor João Fortini Albano, do Laboratório de Sistemas de Transportes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e tem apelo popular. Somente no Carnaval, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), 7.066 motoristas foram multados por excesso de velocidade na freeway. Neste final de semana, entre a tarde de sexta-feira e a tarde de ontem, foram 3 mil infrações do tipo. A PRF não tinha informações sobre quantas multas foram aplicadas a condutores que dirigiam a até 120 km/h, mas certamente muitos foram flagrados pelos radares.

Outra possibilidade em estudo que pode contribuir para desafogar o trânsito e, assim, acalmar motoristas insatisfeitos, tem como foco o acostamento. A ideia, segundo Sanches, é transformar a área em uma espécie de faixa auxiliar em dias e horários de pico. Os condutores poderiam usar os refúgios em caso de necessidade, e veículos de emergência transitariam pelo acostamento interno.

Para garantir a segurança na via, a velocidade máxima permitida na faixa provisória seria de 80 km/h, e o trajeto ficaria aberto ao trânsito apenas durante quatro ou cinco horas – das 17h às 21h de uma sexta-feira, por exemplo. A medida, porém, depende do término da ampliação da rodovia para entrar em prática.

A terceira proposta em estudo seria inverter a mão de uma ou duas faixas da pista no sentido Porto Alegre-Litoral para facilitar o retorno à Capital nas voltas de feriados. Para tornar isso possível, Sanches afirma que seria necessário construir pelo menos mais uma faixa em cada pista – totalizando quatro faixas de cada lado. Assim, duas poderiam ser invertidas, sem prejuízo para o trânsito. A área invertida funcionaria como uma válvula de escape e contribuiria para aliviar o trânsito no sentido Litoral-Porto Alegre.

– Seria uma alternativa válida para quando todas as outras possibilidades estiverem esgotadas – explica Sanches.

Das três medidas, esta deve ser a mais demorada – pode levar de cinco a 10 anos para sair do papel. As outras duas tendem a se tornar realidade ainda este ano.

Não há consenso sobre aumento na velocidade

Embora as propostas apresentadas pela Concepa tenham por objetivo sanar um dos principais problemas da freeway, os congestionamentos, especialistas consultados por Zero Hora divergem sobre seus resultados – principalmente no que diz respeito ao aumento do limite de velocidade.

O comportamento dos condutores é um dos principais argumentos de quem entende que a elevação está na contramão da segurança viária. O professor do Laboratório de Sistemas de Transportes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Luis Antonio Lindau sustenta que o comportamento típico dos brasileiros – e dos gaúchos – é um fator de risco que não existe na Europa, por exemplo.

– A mudança de velocidade não pode ocorrer no padrão atual em que os motoristas dirigem empilhados uns nos outros e trocam de faixa – observa.

Segundo Lindau, na Europa, onde as velocidades elevadas são bem mais comuns do que no Brasil, os condutores tendem a manter distância dos demais carros e a evitar a troca constante de faixa – o que é fator de proteção contra acidentes.

O médico de tráfego Nelson Tombini diz que batidas ocorridas a uma velocidade de 120 km/h têm um potencial de gravidade bastante superior ao atual limite. Ele aponta que, até 80 km/h, o cinto de segurança é efetivo para proteger o ocupante do automóvel. Até 110 km/h, o cinto combinado ao airbag é eficaz. A partir dessa marca, porém, a sobrevivência se tornaria “questão de sorte ou azar”.

– Também temos de levar em conta que, se o limite for 120 km/h, vai ter gente andando a 130 km/h, 140 km/h.

Especialista alerta para a largura das faixas

O consultor e segurança de trânsito Mauri Panitz, porém, afirma que a definição da velocidade máxima admitida em uma via depende de fatores técnicos como a largura das faixas, e não da irresponsabilidade eventual dos usuários da via.

Panitz diz que os 3m75cm de faixa da freeway justificam o pleito da Concepa.

– As rodovias não são projetadas para motoristas imprudentes – diz.

Congestionamento de 10 quilômetros no retorno

Fluxo de veículos na freeway se intensificou à noite, com mais de 50 carros por minutos na rodovia

Para muitos gaúchos, o retorno do Litoral Norte ontem representou o final do veraneio. Os motoristas que deixaram para sair à noite enfrentaram congestionamentos de até 10 quilômetros no início da freeway (BR-290). Dos 50 mil veículos que deveriam voltar até a meia-noite, 40 mil haviam entrado na rodovia em Osório até as 23h.

Por volta das 23h30min, o trânsito estava lento entre os kms 1 e 19 da rodovia, onde a velocidade não ultrapassava os 40 km/h. O ponto mais crítico era o km 5, em Osório, próximo ao parque eólico, onde a rodovia recebia parte do fluxo de veículos da Estrada do Mar e da rodovia Gravataí-Tramandaí (ERS-030). Houve a formação de fila para acessar a rodovia. Outros pontos com engarrafamento foram registrados nas praças de pedágio de Santo Antônio da Patrulha e de Gravataí.

O fluxo de veículos começou a se intensificar às 14h. O pico foi registrado às 18h, quando chegou a 63 automóveis por minuto no pedágio. À noite se manteve sempre acima dos 50 carros por minuto.

Apesar de 50 mil veículos terem rumado para as praias gaúchas e catarinenses entre sexta-feira e sábado, a Concepa estima que 75 mil automóveis retornem pela rodovia até o meio-dia de hoje. Segundo a concessionária que administra a estrada, a diferença de 25 mil veículos se deve aos veranistas que prolongaram o feriadão de Carnaval no Litoral.

A Estrada do Mar (RS-389) apresentou trânsito lento no final da tarde. No acesso à rodovia Gravataí-Tramandaí (ERS-030), a velocidade não passou dos 30 km/h. Na rodovia Viamão-Balneário Pinhal (ERS-040), o trânsito fluiu sem engarrafamentos, mas com baixa velocidade.

 ZH



Categorias:Meios de Transporte / Trânsito

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