COLAPSO À VISTA: Ponte agoniza sobre o Guaíba

Ao se soltar da cinquentenária Ponte do Guaíba, uma chapa de aço do vão móvel evidenciou ontem a urgência de uma nova travessia entre a Região Metropolitana e a Metade Sul.

Devido a um estreitamento de pista que se prolongou por 10 horas, motoristas enfrentaram congestionamento de sete quilômetros no sentido Interior-Capital, um dos maiores na via.

O problema na estrutura, identificado às 22h30min de quarta-feira, obrigou a Concessionária da Rodovia Porto Alegre-Osório SA (Concepa) a bloquear uma das duas faixas que levam à Capital. Às 7h30min, o problema tomou proporções gigantescas. A liberação total só ocorreu às 8h30min.

– Já estamos acostumados. Ficamos parados na ponte sobre o Jacuí por causa desse problema. Mas pior que isso são as mortes nas ambulâncias e a preocupação com assaltos por causa dos içamentos – queixa-se o radialista Luiz Domingues, 58 anos.

Morador de Eldorado do Sul, ele foi uma das milhares de pessoas afetadas pela tranqueira enquanto levava a mulher ao trabalho. O deslocamento que deveria ser de apenas 12 minutos de casa até o Centro Administrativo do Estado, na Capital, estendeu-se por uma hora e 25 minutos, sete vezes o tempo normal.

Para o diretor-presidente da Concepa, Odenir Sanches, o problema é um “efeito colateral” dos danos sofridos pela ponte em 30 de abril de 2008, quando um navio bateu nela. Desde lá, segundo ele, os quatro pilares que sustentam o vão se movimentam com dificuldade, o que impede o encaixe perfeito da estrutura à parte fixa.

Duas vezes por mês, técnicos precisam aparafusar as chapas do vão móvel, que ficam frouxas com a passagem constante de veículos pesados. Ontem, pela primeira vez, uma delas se soltou. Para o presidente do Movimento Ponte do Guaíba – A Vida e o Progresso Vêm Primeiro, Sergio Costa, o defeito na estrutura indica que a ponte pode ter problemas mais graves a ponto de provocar um “apagão rodoviário” na região.

Balsa na rota alternativa

O engarrafamento que ontem tirou do sério centenas de motoristas prestes a cruzar a ponte do Guaíba reacendeu uma antiga preocupação. Enquanto a nova travessia não sai do papel e a antiga se deteriora, fazer o mesmo trajeto sem usar a ponte exige paciência e aventura.

Conforme o chefe do setor de comunicação da Polícia Rodoviária Federal no Estado, inspetor Alessandro Castro, o itinerário inclui estradas sem capacidade para comportar grandes fluxos, em más condições, e a necessidade de se tomar uma balsa para poder cruzar o Jacuí.

– É um caminho complicadíssimo, quase inviável. Só para pegar a balsa, o motorista já perderia a paciência na fila esperando – afirma.

Segundo o Movimento Ponte do Guaíba, passam na embarcação 30 veículos por vez. A embarcação fica em Triunfo, cujo acesso teria de ser feito a partir da BR-386, em Canoas, passando pela ERS-124 e ERS-224.

Outra via só no papel

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A ideia de erguer uma segunda ponte sobre o Guaíba ganhou impulso em dezembro de 2007, quando a Concepa apresentou à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) uma proposta com custo estimado inicialmente em R$ 350 milhões. Responsável pela administração da freeway, a empresa se comprometeria em construir a ponte em troca da prorrogação da concessão de pedágio por 20 anos.

– É uma decisão que cabe ao governo – afirma o diretor-presidente da concessionária, Odenir Sanches.

O valor previsto corresponde a uma ponte com três faixas em cada sentido. Para fazê-la com duas em cada mão, o custo poderia ser de R$ 250 milhões.

Posteriormente à proposta da Concepa, o governo federal decidiu fazer um estudo para definir como será executada a nova ponte. Por meio do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), lançou em janeiro passado licitação para selecionar a empresa que vai elaborar o estudo de viabilidade econômica e ambiental. Também serão avaliados o que poderá ser construído, o local mais adequado e a expectativa de custo.

O processo se arrasta porque empresas que perderam a disputa questionam na Justiça a vitoriosa, que receberia R$ 600 mil para elaborar o estudo em seis meses. Depois, o governo decidirá se vai executar a obra ou a entregará à iniciativa privada. O governo federal já tem reservado R$ 10 milhões para o projeto.

Novo polo industrial deve agravar situação

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Os problemas decorrentes da deterioração da Travessia Getúlio Vargas podem se tornar piores com a criação do distrito industrial de Guaíba, anunciado em março pela governadora Yeda Crusius. Pelo menos seis empreendimentos, somando investimentos de R$ 617,4 milhões, prometem movimentar as rodovias da região.

Conforme o secretário de governo de Guaíba, Paulo Alberto Scalco, mesmo antes da confirmação do projeto, a comunidade já estava engajada na luta pela nova ponte. Com a novidade, que significará cerca de 2 mil empregos até 2015, a briga pela agilização da obra se acirrou.

– Sem a nova ponte, corremos o risco de ver a cidade se tornar uma espécie de ilha. Com esses empreendimentos, certamente haverá um aumento considerável no fluxo de veículos – afirma Scalco.

Entre as empresas que planejam se instalar no local, a indefinição em torno do futuro da travessia preocupa. O temor é de prejuízos com o atraso no entrega de produtos e de acúmulo de perdas à medida em que uma solução demora para ser concretizada.

– Pode haver uma questão de dificuldade com a chegada de suprimentos e com a possibilidade de cargas retidas – afirma Gilvan Pereira, diretor de vendas, marketing e aftermarketing da Terex Roadbuilding Latin America.

A companhia planeja investir R$ 150 milhões em fábrica de máquinas para construção pesada. A unidade vai operar em 2011.

Pedram Zaman, diretor de marketing da International Pet, que vai aplicar R$ 4,8 milhões em uma nova indústria de rações, também está apreensivo, mas acredita que as novas fábricas podem contribuir para acelerar a viabilização de uma solução com perspectiva de ampliação no tráfego. Afinal, somente a International Pet deve aumentar em 12 caminhões por hora o fluxo de veículos na ponte.

– Baseamos nossa decisão na perspectiva de que teremos uma nova ponte e uma travessia fluvial de passageiros entre as cidades – relata Zaman.

ZH



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