CONFLITO VERDE: A praça atrás dos tapumes

Por cima da cerca que esconde a Alfândega, pode-se ver um cenário devastado ou a salvação para uma área sombria e caótica

O Avatar do filme de James Cameron levaria um susto se espiasse a Praça da Alfândega dependurado nos tapumes que a escondem da cidade. O primeiro olhar, sem nenhum filtro, captaria a terra de Pandora arrasada pelos mercenários. Mais uma olhada, em cada canto da praça, revelaria aos poucos uma Alfândega menos sombria, mais arejada, mesmo nesses dias nublados.

Zero Hora foi espiar a praça do centro de Porto Alegre por sobre os tapumes. Não há como não focar, na primeira abordagem, as motosserras fatiando árvores. Homens carregam caminhões com o que sobrou de troncos e galhos. Na parte leste, para o lado da prefeitura, pelo menos 10 tocos ficaram expostos. Os bancos da parte central foram retirados. Os postes de iluminação estão no chão. Há palmeiras escoradas por estacas.

Um plástico preto cobre a estátua equestre do General Osório. As figuras em bronze de Mario Quintana e Drummond também viraram fantasmas ensacados. A lona preta esconde a Carta Testamento de Getúlio, esculturas, todos os monumentos. Pandora está sendo devastada?

Só quem espia pelas frestas se livra de parte do mistério criado pelo tapume. A praça está em reforma, é o que diz a equipe do Projeto Monumenta, que promete restaurá-la para que fique parecida com o que era no início do século 20.

– Isso aí tá dando um rolo – é o que diz uma mulher que passa por ali.

Uma restauração, um rolo, uma devastação. Depende de como se vê. A praça sombria, melancólica, tomada pelo mato, já não era praça. Deixa-se como está ou se interfere na desordem ambiental? A prefeitura decidiu interferir. Trinta e oito árvores e arbustos foram derrubados. São ligustros e ficus que oprimiam os jacarandás. Algumas das eliminadas serão substituídas por ipês.

O engraxate Carlos Pedro Marques, o Pedrinho, 72 anos, 50 de Alfândega, trabalha ao lado do tapume. Nunca espiou para dentro da praça desde que as motosserras começaram a roncar, no último dia 10. ZH o convidou a subir numa escada e olhar por sobre o tapume. Pedrinho agradeceu:

– Minha curiosidade vai acabar quando derrubarem isso aqui.

O engraxate está certo de que verá coisa bonita. O vendedor Ivori Antônio Dias da Costa, 61 anos, autor do livro Incríveis Variantes Obtidas Revendo Ideias, sobre jogo de damas, também foi instigado a subir na escada e contar o que viu. Preferiu continuar jogando damas. Quer ver tudo pronto.

O alto muro de zinco afugentou os aposentados

Numa sala do segundo andar do Clube do Comércio, de onde se vê a praça, ZH encontrou o economista Pedro Sérgio Mello Miranda, 71 anos. Miranda vai todos os dias ao clube conversar com amigos. Foi presidente da entidade. Frequenta a Alfândega desde 1958. Mas até quarta-feira não tinha visto, do alto, o que se passava lá embaixo. Convidado por ZH, foi até a sacada:

– Só pode melhorar. Há árvores que ameaçam cair. A praça virou um antro de prostitutas e trombadinhas.

Miranda sabe que a Alfândega é uma mata densa desde os anos 60. Antes, o lugar passou por mudanças que algumas vezes também envolveram a derrubada de árvores. O historiador Sérgio da Costa Franco, que sabe tudo da Capital, conta o surgimento da praça no livro Porto Alegre – Guia Histórico. A Alfândega nasceu como Praça da Quitanda, “na lonjura do setecentos’’, na área do primeiro embarcadouro da cidade.

As águas do Guaíba vinham até o meio da praça atual. A Quitanda era, claro, o espaço dos quitandeiros, depois retirados dali. Em 1866, inicia-se o plantio de árvores. Instalam-se assentos e um quiosque. O que acontece agora aconteceu em 1920, quando o intendente José Montaury mandou derrubar uma linha de paineiras que “prejudicavam o crescimento das plantações adjacentes’’. Cortaram as paineiras, mas outras árvores exóticas se esparramaram.

São as visadas agora pela reforma. Os tapumes afugentaram os aposentados que ficavam no contorno da praça fazendo e desfazendo inventários. Algumas prostitutas ainda circulam em volta do muro. Mas por onde andará dona Neumara, que continuava até bem pouco na batalha, aos 62 anos, com um bom argumento:

– Tenho clientes fixos. E não são só velhos. Tenho moços. Eles preferem sexo com experiência.

Espera-se a reabertura da praça porque aquele é um reduto de grandes decisões. Ali, nos intervalos do meio-dia, se consertam e se desfazem namoros, rolos e casamentos. Consertam-se e se desfazem amizades e negócios miúdos.

A velha alfândega é, na essência, a praça onde os aposentados protegem memórias e seguram o tempo do jeito que dá. A nova Alfândega, que deve ficar pronta até o final do ano, também será deles. Mas não terá mais os biombos escuros e úmidos.

Será luminosa como a Alfândega do início do século 20, assegura a arquiteta Renata Rizzotto, da equipe de restauração. Será mais harmoniosa. Terá mais luz. Terá jardins. Os jacarandás irão imperar. A praça será redesenhada. Ela garante:

– O que vai se ver será uma grande surpresa.

Espera-se. E o que será feito das gurias de mini-saia e seus gigolôs? E do pregador religioso que prometia milagres e começava seus sermões sempre com o mesmo bordão?

– Para que você tenha uma ideia… e então se salve.

Nem tudo e nem todos serão salvos na nova Alfândega. Como nem tudo na Pandora salva pelo herói Avatar ficou em pé.

Zero Hora



Categorias:Meio Ambiente, Parques da Cidade

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