EDITORIAL ZERO HORA: ATÉ QUANDO ?

Ramiro Barcelos, segunda, 18:00

No início da noite de segunda-feira, os porto-alegrenses experimentaram a incômoda sensação de viver numa cidade caótica, inviável para a circulação de veículos, vitimada pela incúria de sucessivas administrações. Devido a um acidente entre dois ônibus e dois automóveis na Avenida Castelo Branco, o trânsito simplesmente parou. Numa sucessão de bloqueios motivados pelo excesso de veículos e pela insuficiência de vias de escoamento, as ruas centrais ficaram entupidas de carros, os ônibus não conseguiram andar e as pessoas levaram horas para se deslocar por poucos quilômetros, atrasando-se para seus compromissos. Até mesmo atendimentos médicos foram dificultados, como no caso da ambulância que levou 45 minutos para prestar socorro à passageira de ônibus que desmaiou na Avenida Protásio Alves. A angústia da mulher refletia os sentimentos dos milhares imobilizados pelo trânsito mal planejado: desamparo, impotência e revolta contra as autoridades.

Não é a primeira vez que os gaúchos veem a sua principal cidade parar. O trânsito de Porto Alegre já se tornou um tormento rotineiro, que obriga muita gente a sair mais cedo de casa, a evitar os horários de maior movimento e até mesmo a cancelar compromissos. Esta situação decorre, obviamente, do aumento geométrico da frota de veículos em circulação. De acordo com o Departamento Estadual de Trânsito, de março de 2009 a março deste ano foram despejados nas ruas e estradas do Estado quase 280 mil novos veículos, elevando a frota para um total de 4,4 milhões. Mas esta não é a única causa do problema, nem a principal. Antes dela está a incompetência dos administradores públicos para buscar soluções.

Desde a construção da Terceira Perimetral, iniciada em 1999 e concluída em 2006, nenhuma outra grande obra viária foi feita na Capital para desafogar o tráfego. Para uma cidade que já sofre a carência de um sistema de transporte público eficiente, que não tem metrô nem alternativas coletivas, as saídas seriam investimentos em viadutos, rótulas, desvios, proibição de estacionamento em artérias movimentadas e fiscalização adequada. Mas não se vê nada disso. Como uma cidade dessas poderá receber uma Copa do Mundo dentro de quatro anos?

Essa, porém, é uma preocupação para o futuro. O que incomoda mesmo é o agora, é o que se viu na última segunda-feira, é o que pode acontecer ainda hoje na hora de os trabalhadores se deslocarem para suas casas e os estudantes noturnos irem para suas escolas. Da mesma forma como é perturbador o morticínio nas estradas, causado prioritariamente pela imprudência dos motoristas, também são asfixiantes os engarrafamentos que transtornam a vida das grandes cidades – estes gerados principalmente pela incapacidade dos responsáveis pela administração do trânsito.

Chega de leniência. Até quando os cidadãos terão que passar por isso? Porto Alegre quer se movimentar, como uma cidade civilizada, organizada, digna de sua população. O mínimo que se espera é que a prefeitura se manifeste, dizendo quais providências de curto e médio prazos irá tomar para que a situação da última segunda-feira não se repita.



Categorias:Meios de Transporte / Trânsito

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