Aeroportos da Copa: 2012 pode marcar a estagnação dos terminais

Brasil ainda não fez nenhum grande investimento para modernizar os aeroportos considerados cruciais

Viagens aéreas cresceram no ritmo de 10% ao ano entre 2003 e 2008 - Mauro Vieira

Definido há três anos como país-sede da Copa do Mundo de 2014, o Brasil ainda não fez nenhum grande investimento para modernizar os aeroportos considerados cruciais pelo fato de o mundial ser realizado em um país de dimensão continental.

Com os terminais no rumo da saturação, as obras já anunciadas, mas ainda no papel, precisam ser feitas, e logo, para o Brasil não reviver o caos aéreo de anos passados, com tumultos em check-in, filas na inspeção de raio X e demoras além da conta para pegar a bagagem na esteira.

A urgência nas reformas e ampliações não está relacionada apenas com a Copa do Mundo, mas também à necessidade de dar conta do avanço do mercado de aviação. As viagens aéreas cresceram no ritmo de 10% ao ano entre 2003 e 2008. No início de 2010, chegou a 20%. Para atender à demanda crescente, as companhias aéreas lançam novas rotas – movimento que vem sendo freado exatamente pela falta de infraestrutura aeroportuária no país.

Se o que foi feito se resumir a maquiagens aqui e ali, especialistas já apontam 2012 como o ano da estagnação completa dos aeroportos – dois anos antes da chegada de torcedores, imprensa e das seleções. A realização da Copa do Mundo deve acrescentar 10,3% de passageiros no movimento projetado de 158 milhões de pessoas para 2014.

Além da circulação de aviões de carreira e de fretamentos para a Copa, é preciso lembrar o que ocorreu na África do Sul, com o espaço aéreo e terminais sendo invadidos por uma frota de jatos particulares durante a realização do recente mundial.

Se a Infraero e o governo federal já reservaram R$ 6,48 bilhões para investimentos, o problema agora chama-se prazo, já que as obras são complexas e demoradas. Para escanear o estágio de saturação dos aeroportos, repórteres de Zero Hora estiveram em três terminais. A sucursal em Brasília verificou as condições do aeroporto JK, na capital federal. A reportagem também teve parceria dos jornais A Crítica (Manaus), Diário de Natal (Natal), Folha do Estado (Cuiabá), Folha de Pernambuco (Recife), Gazeta do Povo (Curitiba) e O Povo (Fortaleza).

Usuários podem ter de se contentar com estrutura provisória no Salgado Filho

Puxadinho antes da obra

Caso o projeto de ampliação do terminal de passageiros do Salgado Filho não saia do papel a tempo para a Copa do Mundo, usuários terão de se contentar com estrutura provisória, que começa ser montada no fim do ano

Anote na agenda: um ano antes da Copa, o aeroporto Salgado Filho com o terminal de passageiros expandido, pista ampliada e novos equipamentos de auxílio às operações estará funcionando como um relógio, assegura o superintendente Jorge Herdina. Por essa mesma analogia, o funcionário da Infraero, há 11 meses no cargo em Porto Alegre, terá de correr contra o relógio.

Isso porque o que se viu até agora no aeroporto da capital gaúcha se resume a uma sequência de atrasos e protelações de todos os projetos apresentados. Modernizações que já deveriam de ter sido feitas para melhorar o atendimento dos passageiros e de empresas aéreas – que veem negados novos pedidos de voos devido à falta de posições nas pontes de desembarques nos horários solicitados – não saem do papel.

De todos os investimentos previstos, o mais aguardado – e há pelo menos 15 anos – pelos usuários do terminal é a instalação do ILS-2, que depende da ampliação da pista, por sua vez, dependente da remoção de famílias instaladas na área de expansão. O equipamento possibilitará operações em dias de nevoeiro fechado – reduzindo as horas perdidas enquanto se espera a nuvem se dissipar. Aviões poderão pousar com apenas 400m de visibilidade e 60m de teto – metade dos padrões atuais. Em maio, o Salgado Filho ficou 32 horas sem operações e, no mês passado, 5,5 horas.

Conforme o planejamento que Herdina tem sobre sua mesa (confira abaixo), o Salgado Filho – a caminho da saturação –, multiplicará a estrutura de atendimento antes da chegada de torcedores, da imprensa e das seleções previstas para jogar na Capital em 2014. A capacidade de receber passageiros por ano saltará de 4 milhões para 8 milhões. As posições de atendimento simultâneo de aviões nas pontes de embarque e desembarque passarão de 21 para 30. Da mesma forma os balcões de check-in devem ganhar novos espaços, aumentando de 32 para 65.

Mas, antes de o projeto de ampliação se tornar realidade, o terminal 1 do Salgado Filho – inaugurado em setembro de 2001 – terá a capacidade de atendimento ampliada de maneira provisória. Até o fim do ano, começam a ser montados os módulos operacionais provisórios (MOP), já apelidados de puxadinhos.

Como o nome informa, é uma estrutura para funcionar antes de se iniciarem as obras em definitivo. O fluxo de passageiros será redistribuído para a área leste do aeroporto, onde haverá novos balcões de check-in, áreas de inspeção de passageiros e bagagens e salas de embarque.

Reclamação constante dos viajantes, a falta de espaço para estacionar pode ser solucionada com a construção de um edifício-garagem, no formato retangular, para até 4 mil carros. Em fase de contratação do estudo de viabilidade econômica, o prédio será construído pelo investidor que vai explorar o serviço de estacionamento.

O orçamento total de R$ 1 bilhão até 2015 ainda prevê um novo complexo de logística, capaz de movimentar 100 mil toneladas de cargas por ano, mais do que o dobro da atual capacidade de 40 mil toneladas.

Veja as obras que serão feitas no Salgado Filho. Clique na imagem para ampliar:

Aeroportos da Copa: prazo apertado para as obras

Medidas urgentes precisam ser tomadas para passageiros não voltarem a conviver com transtornos que marcaram caos aéreoSem modal ferroviário e com rodovias esgotadas, o transporte aéreo ganhará importância na Copa do Mundo de 2014 no Brasil.

Campeonato mundial em país de dimensão continental só houve há 16 anos, nos Estados Unidos, quando jogadores e torcedores atravessaram o território americano para acompanhar jogos de seus países. Para 2014, a Fifa já anunciou que pretende concentrar os grupos de seleções em quatro regiões do Brasil para evitar voos acima de duas horas de duração.

Especialistas recomendam medidas urgentes nos aeroportos para o caos aéreo não voltar a transtornar a vida de passageiros. Apesar de a Infraero, estatal responsável pelos aeroportos localizados nas 12 cidades-sedes, prometer investir R$ 6,48 bilhões em modernizações, especialistas em transporte aéreo projetam dificuldades para a estrutura aeroportuária atender ao aumento de demanda do país, quanto mais um evento de escala mundial.

– A Infraero anunciou investimento na parte física, mas não prevê nada em tecnologia – alerta Respicio Espirito Santo Jr., professor de transporte aéreo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), referindo-se a softwares que controlam bagagem ou que definem em que ponte de desembarque cada avião deve estacionar.

O especialista critica a falta de planejamento da estatal ao somente dar a largada nos investimentos motivada por “dois eventos de escala planetária” – a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro:

– Falta preocupação com o nível de serviço, de conforto para o passageiro e de eficiência nos terminais.

Procurada, a Infraero informou que o único executivo credenciado para dar informações sobre os investimentos é o diretor de Engenharia e Meio Ambiente, Jaime Henrique Caldas Parreira, que estava em viagem ao Exterior.

O presidente do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias (Snea), José Márcio Mollo, diz que “não compartilha do otimismo das autoridades” em relação ao andamento de ampliações de terminais e melhorias nos sistemas de pista:

– Não dá tempo de reformar os aeroportos.

Conforme Mollo, a construção de um terminal consome pelo menos cinco anos. O terceiro terminal de passageiros de Guarulhos, em São Paulo, por exemplo, recém teve homologada a licitação para a elaboração dos projetos de engenharia. O principal aeroporto do país é o mais caótico. Filas costumam se formar nos check-in e nas esteiras de raio X. Nas manhãs de nevoeiro, os equipamentos de navegação, defasados, deixam a pista fechada. A Infraero promete melhorar a estrutura para possibilitar pousos e decolagens mesmo nos dias de denso nevoeiro.

É importante desafogar os aeroportos paulistas porque problemas na operação causam um efeito dominó no país. E não é apenas Guarulhos que está com o cronograma atrasado.

Uma das soluções apontadas pela Infraero para aliviar as operações em horários de pico seria a redistribuição de voos. Conforme a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Congonhas, Guarulhos e Santos Dumont (RJ) têm capacidade limitada para voos nos horários de pico, embora comportem novas operações nos demais períodos.

– Não adianta distribuir voos para horários menos movimentados, porque a maior parte das viagens são a negócio no país – diz Elton Fernandes, professor de produção e transporte da UFRJ.

Entre as cidades-sede da Copa de 2014, apenas Natal terá um novo aeroporto. O primeiro módulo do terminal de São Gonçalo do Amarante deverá ficar pronto em 2013.

Veja o quadro comparativo dos aeroportos pesquisados. Clique para ampliar:

Zero Hora



Categorias:aeroportos brasileiros, COPA 2014, Infraestrutura

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2 respostas

  1. Stéfano, Este tal Antônio Ricardo Froner de Souza é Engº Civil de mais de 30 anos de experiência e especialista em Aeroportos. Foi meu professor e é um grande amigo meu, fico feliz por sua colocação e concordo com sua opinião!

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  2. Se vão investir R$ 1 bilhão pra ampliar esse terminal, que fica no meio da cidade, pq não construir um novo aeroporto, moderno, grande e planejado para mais uns 30 anos??? Tem na internet o projeto de um tal Antonio Ricardo Froner de Souza, que prevê um novo aeroporto em Nova Santa Rita, com duas pistas… um grande terminal!!! A ligação com PoA seria pela Rodovia do Parque e através de uma linha de trem. Seria viável. Pega esse um bilhao da Infraero e o resto do dinheiro poderia vir da venda da área do atual Salgado Filho. Eu ñ concordo com o Aeroporto atual. Depois dessa reforma, ele continuará pequeno e – pior – sem a possibilidade de expansão.

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