REFÉNS DE UMA PONTE – Um drama que paralisa o Estado

Às 10h50min de ontem, depois de ser erguido, o vão móvel da ponte do Guaíba não conseguiu descer. A falha provocou consequências desproporcionais: congestionamentos quilométricos, atrasos em cascata, dramas pessoais e o colapso do trânsito entre a Capital e a parte sul do Estado. Durante duas horas e 25 minutos, os gaúchos tiveram mais uma vez uma demonstração de que o Rio Grande do Sul precisa de uma nova travessia sobre o Guaíba

Um problema mecânico cindiu o Rio Grande do Sul na manhã de ontem em duas metades que não conseguiam se comunicar, multiplicou dramas durante duas horas e 25 minutos, espalhou prejuízos, pôs em colapso o trânsito da Região Metropolitana e demonstrou um fato que as autoridades tardam em assimilar: a de que a obsoleta ponte sobre o Guaíba precisa de uma alternativa.

O problema mecânico, supostamente um parafuso quebrado, deu-se em ponto estratégico para a economia e a vida dos gaúchos: o sistema de içamento do vão móvel da travessia. O mecanismo falhou às 10h50min.

O vão subiu, mas não conseguiu descer, bloqueando a única passagem de uma margem para a outra. Era como se um abismo tivesse se aberto na BR-290, a principal ligação entre a Capital e o sul do Estado. Sem outro caminho para vencer a fenda fluvial que passou a rasgar o Estado, automóveis, ônibus e caminhões logo formaram uma fila de 15 quilômetros de congestionamento, enquanto funcionários da Concepa, a concessionária da rodovia, faziam tentativas frustradas de colocar a ponte no lugar. Milhares perderam compromissos e a paciência.

Em meio aos dramas, sete pacientes precisaram ser transportados de um lado para o outro no helicóptero da Polícia Rodoviária Federal, a fim de seguir para hospitais de Porto Alegre.

O caso mais dramático foi o de Vitória Silva Barbosa, que antes mesmo de nascer já precisou enfrentar o tormento de encontrar uma ponte trancada, trocar o táxi pelo helicóptero, embarcar em uma ambulância e completar por terra o trajeto até o Hospital Presidente Vargas. Vitória nasceu às 21h25min, pesando 2,715 quilos, para a alegria da mãe, Angélica Rebelo Silva Barbosa, estreante em parto de apenas 19 anos.

Em trabalho de parto, no engarrafamento

Até as 10h30min, tudo corria normalmente no bairro Colina, de Guaíba. O que constava no roteiro original de dona Adair, mãe de Angélica, era chegar ao hospital no táxi do irmão. Era exatamente o que estava acontecendo, até que o táxi entrou na fila que se formava perto da ponte. Bateu o nervosismo.

O carro tentava avançar. A resposta chegou rápida, na forma de uma viatura da Brigada Militar, através da qual foi feito o contato com a PRF. No alto, os três tripulantes do Patrulha 10 ouviram pouco depois do meio-dia a informação: uma mulher em trabalho de parto estava presa no engarrafamento.

– Não levou mais do que um minuto. Nem falamos porque estávamos ocupados com a operação. Mas Motta, nosso operador, percebeu que a gestante parecia tranquila – contou o comandante Eleomar Liscano.

Às 14h, o médico Norberto De Rossi constatou que a dilatação era de dois dedos. O parto se encerrou à noite.

Voo para a Europa foi perdido com o atraso

Dos outros seis resgates feitos pelo comandante Eleomar, três eram de pacientes que fariam sessões de hemodiálise na Capital. Duas pessoas haviam sofrido acidentes e se dirigiam a hospitais com traumatismo craniano – uma idosa e uma criança. O outro transportado por via aérea foi Rafael Enger, 25 anos. Ele saiu de Lajeado com o pai, André Enger, 55 anos, para fazer uma cirurgia de maxilar no Hospital Mãe de Deus, às 13h. Às 12h30min, estava parado diante do vão içado. Conseguiu chegar para o procedimento por via aérea. O pai ficou para trás, preso ao carro.

No posto da PRF no km 98 da rodovia, o policial rodoviário Humberto Gehlen recolhia histórias de cidadãos desolados, que relatavam a perda de compromissos importantes, como consultas médicas marcadas com grande antecedência, e buscavam com avidez informações sobre a normalização do tráfego:

– Três pessoas me contaram que tinham perdido voos. Um era para Goiás e outro para o Uruguai. Mas o mais chateado era um que perdeu o avião para a Europa.

Mãe e filho separados pela travessia

Um pouco antes das 11h, o estudante Everton de Borba Oliveira, 14 anos, ficou frente a frente com a mãe, a auxiliar de limpeza Sandra de Borba Orguin, 39 anos. Naquele momento, eles viraram uma espécie de símbolo involuntário do drama vivido por outros milhares de gaúchos. Apartados um do outro por apenas 50 metros, o filho queria estar no lugar da mãe, a mãe ansiava por estar no lugar do filho. Cada um descobria-se preso em um ônibus, no lado errado do que era para ser uma ponte sobre o Guaíba, mas se transformara em uma travessia para o nada. Everton não conseguia voltar para casa, em Eldorado do Sul, depois de uma consulta em Porto Alegre. Sandra estava impedida de alcançar o trabalho, na Capital.

O adolescente havia saído de casa às 8h30min para comparecer ao consultório de um dentista no Centro. O vão móvel emperrou poucos minutos antes de ele chegar à ponte, no caminho de volta para casa. Perdeu uma hora na fila de carros, até que o motorista do coletivo deu meia-volta e desembarcou os passageiros de novo no fim da linha, em Porto Alegre. Com fome e sem dinheiro, pegou condução até o emprego da mãe, na Avenida 24 de Outubro, em busca de abrigo e de um lanche.

– Falavam que o conserto podia levar seis horas. Resolvi ir ao trabalho da minha mãe e esperar – contou o jovem.

Enquanto isso, Sandra não encontrava jeito de chegar ao emprego. Ela ficou quase três horas parada na travessia.

– Fiquei esse tempo todo lá, com fome, com sede, com raiva – contou a mulher.

Sandra chegou ao trabalho só às 14h, onde reencontrou o filho. Everton conseguiu voltar à residência às 16h.

Perto das 11h, quando mãe e filho aguardavam um de cada lado do Guaíba, à espera, falaram-se ao celular. Descobriram que estavam a pouca distância um do outro. Foram até a beirada da travessia, junto aos pontos de encaixe do vão móvel.

– Sai daí, Everton! Tu vais cair – gritava a mãe.

– Perigoso é ainda onde tu estás, nessa beirada. Sai desse lugar! – respondia o filho.

Quem mergulhava no abismo naquele momento, no entanto, era o sistema viário gaúcho, asfixiado por um mecanismo enguiçado.

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Categorias:Meios de Transporte / Trânsito, Nova ponte Guaíba

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