Porto sem horizonte

Grandes e pequenas cidades brasileiras estão se agitando para a Copa do Mundo como as mocinhas de antigamente antes de um baile a rigor. Há um lufa-lufa de reformas, licitações, construções, discussões de projetos… A torcida, obviamente, já começou – e não apenas pelo sucesso da Seleção, mas para ver o país mostrar-se à altura das suas maiores ambições. Vai que é tua, Brasil.

Em um território abençoado por tantos quilômetros de litoral ensolarado, não é de se estranhar que alguns dos mais vistosos projetos de revitalização urbana estejam sendo instalados à beira d’água. Menos surpreendente ainda é o fato de que muitas prefeituras tenham previsto a instalação de teatros e museus como carros-chefes dessa repaginada geral da nação. A chamada “economia da cultura” – o negócio de ganhar dinheiro fazendo a inteligência, os olhos e o coração funcionarem mais aceleradamente – já movimenta cerca de 7% do PIB mundial. Nada mais natural do que juntar a fome com a oportunidade de banquete, usando os investimentos públicos e privados na preparação da Copa de 2014 para dar um empurrãozinho na economia cultural – que em todos os lugares do mundo gira melhor com uma mão do Estado e outra da iniciativa privada. O retorno vem mais rápido do que se imagina. Os exemplos de cidades que entraram no mapa (turístico, econômico e cultural) graças a um belo museu ou a um belo teatro são tantos, que nem vale a pena gastar linhas falando nisso.

No Rio, há dois belos projetos em andamento: na Praia de Copacabana, está sendo erguido o Museu da Imagem e do Som, projetado pela arquiteta americana Elizabeth Diller, e no Píer Mauá, na outrora abandonada área portuária, será instalado o ambicioso Museu do Amanhã, projeto do espanhol Santiago Calatrava. Em Vitória, no Espírito Santo, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, um dos mais premiados e reconhecidos do país, projetou o Museu de Arte Moderna da cidade, na Enseada do Suá.

Enquanto isso, em Porto Alegre, parece que enterraram um sapo na nossa praia. No projeto apresentado esta semana para a revitalização da orla do Guaíba, não aparece nem teatro, nem museu, nem cinema, nem sequer uma concha acústica mixuruca. Mas alguém ainda se surpreende com isso? A regra na nossa cidade, nos últimos (muitos) anos, tem sido a seguinte: onde quer que seja necessário um debate público para tirar um projeto cultural do papel, os entraves se multiplicam e as ideias param ou não vão adiante. O retrato desse empacamento endêmico são as continuamente adiadas obras do novo Teatro da Ospa – um monumento à nossa falta de empenho e ao nosso desinteresse pelos empreendimentos culturais da cidade. (Uma bem-vinda exceção: a parceria entre a administração municipal e a iniciativa privada para devolver à cidade o Auditório Araújo Vianna. Por que não tiveram essa ideia antes?)

O teatro que não sai do papel, o novo cais que não prevê teatro nem museu e a ausência de políticas culturais públicas de longo prazo no Estado são todos sintomas de um mesmo mal: encolhimento agudo de horizontes. Nesse ritmo, vamos chegar a 2014 ainda menores do que em 2010.
CLÁUDIA LAITANO

http://zerohora.clicrbs.com.br/zeroh…427&section=70



Categorias:Outros assuntos

Tags:, , , , ,

7 respostas

  1. Aliás o museu, conforme o projeto, já está definido para os Armazens A e B.

    Curtir

  2. Que eu saiba, o projeto do Cais prevê teatros e museus. O que vai ser definido pelo emprendedor privado é quantos, onde e como.

    Curtir

  3. “O novo cais que não prevê teatro nem museu e a ausência de políticas culturais públicas de longo prazo no Estado são todos sintomas de um mesmo mal: encolhimento agudo de horizontes”. Concordo, os empreendedores do setor imobiliário não têm esse tipo de preocupação, eles só pensam em espigões e shopping centers. Teatros, museus e políticas culturais são coisas de “radicais” …

    Curtir

  4. zero hora enfim ajudando nós e colocando fogo nos ecoshits
    prossiga rbs

    Curtir

  5. Darci, me desculpe, mas tem tudo a ver, a cidade não é uma coisa fragmentada, a beleza dela depende do planejamento como um todo, não pode se pensar uma coisa sem pensar em outras. E as postagens deste blog são exatamente sobre a cidade.

    Sabe porque que essas obras de museus, o teatro da OSPA e outras tantas não andam?
    Não da o mesmo lucro que construir prédios comerciais, residenciais e shoppings! Eu disse isso, não falei só nas avenidas.

    Trocar de ideias e mudar meu pensamento, só com argumentos muito bem embasados de especialistas, pois o “achismo” e a opinião das pessoas sem base técnica de argumentação, não só não ajuda, como atrapalha muito na formação das ideias de outros e na execução dos projetos na cidade.

    Curtir

  6. Olavo, mude o pense, argumente, pense, mude o disco e troque idéias. Todas tuas opinões são dignas de respeito e consideração. Porém essa matéria de nada fala em criar avenidas e mais avenidas ! ! !
    Ao contário, o assunto fala de lazer, BELEZA da cidade, além museus, espaços culturais, importância que a cidade dá a eles (como a rejeição à nova Ospa em vários bairros da cidade).

    Curtir

  7. O pessoal se interessa em construir grandes avenidas, viadutos, túneis, shopping center, e prédios comerciais.

    Curtir

%d blogueiros gostam disto: