O arquiteto espanhol Francesc Ventura i Teixidor diz que metrô deve ser esquecido em Porto Alegre

Francesc Ventura Teixidor

Mais de 20 profissionais brasileiros, portugueses, holandeses e brasileiros, além de vários estudantes, discutiram, por três dias, as obras que Porto Alegre pretende executar para o Mundial de 2014. Focado principalmente na mobilidade, o laboratório fez parte da programação do o 54º. Congresso Mundial de Arquitetura, promovido pela PUC-RS e pela Federação Internacional de Habitação e Planejamento, com sede na Holanda. Presidente da entidade e ex-presidente da órgão regulador de transportes de Barcelona, o arquiteto e economista espanhol Francesc Ventura i Teixidor deu entrevista exclusiva para o blog, adiantando algumas sugestões do grupo para que Porto Alegre esteja pronta, não só para o Mundial, mas para crescer cada vez mais. Entre elas, está a de esquecer o metrô. Também será sugerida a implantação de trens na Ipiranga, uma das avenidas mais importantes para a capital gaúcha.  

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

O que é necessário para o transporte funcionar bem numa cidade grande?

Dizemos que o transporte de Barcelona funciona bem por duas razões importantes: primeiro, há uma autoridade reguladora, para Barcelona e toda a região metropolitana. Todos os operadores, sejam públicos ou privados, dependem desta autoridade. E, realmente, há uma coordenação de serviços. Não estamos duplicando serviços, como ocorre aqui. Podemos organizar a oferta de transportes independentemente dos interesses do operador. Uma das nossas recomendações é que aproveitem agora para fortalecer o órgão regulador. Não só para a Copa, mas para depois.

Quer dizer que não adianta ampliar avenidas, ampliar corredores….?

Sim. As infraestruturas são ferramentas necessárias, mas o que faz uma rede de transporte ser eficiente é a gestão. Primeiro é preciso saber as linhas desejadas para deslocamento, aonde querem ir. Depois, onde estão as origens e os destinos. E desenhar o funcionamento da rede para atender estas linhas. O que ocorre é que os sistemas de transporte evoluem com o tempo. São como elefantes, custa muito movê-los. Há linhas de ônibus que vão de um lugar a outro há 30 anos. Mas há 30 anos a cidade e a região metropolitana tinham outro número de habitantes, outra forma e outro modelo de mobilidade. Falta alguém que estude de verdade como a cidade mudou e, sobretudo, como queremos que mude no futuro. Não que essa linha de ônibus tenha que desaparecer, mas se ia de A até B, agora terá que ir de A até C. E entre B a C, que haja outro ônibus para fazer este itinerário, criando um intercâmbio que vocês chamam de portais, fazendo mais eficiente o que já se tem. Aqui existem ruas reservadas para ônibus e frotas autorizadas. Provavelmente, o que falta é um pouco de organização.

Essa organização implica transbordos?

O mais importante é facilitar os transbordos tarifariamente. Quem acaba vendendo os direitos dos transportes não são os operadores, mas o regulador, a autoridade municipal.  E isso é bom para todos. Para a autoridade, porque lhe dá muito poder. Para os usuários, porque sabem a quem se dirigir quando as coisas não funcionam. E é bom para os operadores porque eles têm continuidade da vendas de bilhetes. Não há um que ganha pouco e outro que ganha muito. Para mim, é bom para uma economia estável.  Hoje, aqui em porto Alegre, todo mundo quer ir à rodoviária com ônibus. Se você passar meia hora ali verá que eles chegam e partem vazios, o que é lógico. Os ônibus foram carregados de passageiros no entorno de Porto Alegre e à medida que vão entrando na cidade, vão deixando gente. Nos últimos cinco ou seis quilômetros do caminho, que são os mais congestionados e que demoram mais tempo do que todo o resto do trajeto, o ônibus vai vazio, levando sete ou oito pessoas, não 50. E na saída acontece o mesmo. Mas como trocar de assento custa muito, ficam. Isso é caríssimo, gera um congestionamento brutal e faz com que cada deslocamento tenha um custo mais alto para o operador. Também é fatal para os usuários, que necessitam de mais tempo para chegar ao centro. Assim para com o resto dos cidadãos, porque os engarrafamentos da primeira perimetral, perto da rodoviária, não são feitos pelos carros, mas pelos ônibus. Uma recomendação que fazemos é que não ponham mais linhas perto da rodoviária. Ali tem que chegar poucos ônibus, que vão dando voltas.

Não seriam as redes BRTs (Bus Rapid Transport), que estão planejadas?

Pelo que entendemos, estas pistas tem que ter desenho especial, já que as plataformas para embarque e desembarque devem ficar no meio, com embarque pela esquerda. Mas as pessoas costumam subir e descer dos ônibus pela direita. No momento em que se põe os pontos de embarque no centro, quer dizer que só vão passar os ônibus de alguém, não sei quem, que tem portas a esquerda. Que interesse tem que em não deixar que o restante dos ônibus que vêm da região metropolitana passem por este corredor? Porque não os deixam passar por ali? Não ponham barreiras tecnológicas que impeçam a flexibilidade de ônibus. Um dos comentários é que cuidem na construções do BTRs, porque na melhor das hipóteses, haverá uma limitação que poderá piorar as condições do serviço de transporte.

Quando foi feito o planejamento de transporte em Barcelona, em 1995, vocês não enfrentaram o poder econômico das operadoras?

Ao contrário. As empresas privadas querem ganhar dinheiro e garantiram que não teriam menos. E aqui ainda é melhor. Quando começamos a fazer o sistema de transporte, os operadores de Barcelona levavam de 600 a 700 milhões de passageiros por ano. Agora já estão entre 1 bilhão. Cresceu 30% em dez anos, apesar da crise econômica. Em Porto Alegre, esta porcentagem será maior. Está acontecendo aqui o que aconteceu em Barcelona: a população da capital se mantém ou muda muito pouco, com incremento da atividade terciária e de escritório, mandando para além de suas fronteiras residentes , indústria e logística. Vocês estão gerando um modelo de cidade que vai requerer muito mais deslocamentos. É preciso apostar no transporte publico, já que uma parte da população que não pode ter um carro para tudo. 

Ou seja, o transporte trava ou estimula o desenvolvimento…

O transporte é uma dos fatores mais importantes para o desenvolvimento. Não só do ponto de vista econômico, mas para ter educação e saúde. Nos levaram aqui para ver um hospital e não podíamos, por causa do congestionamento. Creio que Porto Alegre está em um momento maravilhoso para organizar o sistema de transportes, porque estão crescendo o número e a distância dos deslocamentos.  A cidade está se expandindo e há mais negócios.

É possível fazer tudo isso sem metrô?

Vou ser muito direto: se com um acontecimento da importância da Copa e com a imagem que ela trará vocês chegaram a conclusão de que, agora, não podem fazer o metrô, que é um projeto emblemático, de imagem, quer dizer que ele não é muito necessário. E, na minha opinião, não é mesmo. O metrô presta um serviço muito bom nos 500 metros ao redor. No resto do território, nada. Vocês não têm um território muito denso, exceto na zona central. Fazer um metrô para sair da cidade e começar a construir agora na zona mais congestionada é caríssimo. Mas o mais importante: se decidiram que agora não vão fazer o metrô, a segunda decisão que tem que tomar é não voltar a falar de metro nos próximos 30 anos. Porque se seguirem falando do metrô, não se faz nesta área, porque estão esperando. Podem passar 30 anos com o sistema de transporte se degradando.

Esta é a principal proposta do laboratório?

Esta é uma parte. Na calçada da avenida Ipiranga, entre os carros e o arroio, colocaríamos um sistema guiado, que é muito mais fácil do que fazer túneis. Se querem, podem implantar um trem facilmente, desde o Gasômetro, passando pela universidade federal, pela câmera de vereadores, perto do Centro. Isso é útil e vale uma décima parte do que custa o metrô. Em quatro anos, isso pode ser feito e dá imagem ao mundo.

Fonte: De Olho em 2014

 

Share



Categorias:COPA 2014, Metro Linha 2, portais da cidade

Tags:,

5 respostas

  1. Para mim, essa decisão de investir numa rede de linhas de metrô em Porto Alegre e nas grandes capitais brasileiras deve ser tomada agora, independente da Copa, pois o país está crescendo e tem perspectiva de se desenvolver ainda mais nas próximas décadas.

    Aliás, se tivessemos, isso sim, poderes públicos locais e regionais organizados, um plano de transporte metropolitano, composto de linhas de metrôs e trens interurbano, capilarizados por linhas de VLTs, trolebus e ônibus, já estaria pronto há anos, só esperando a melhor oportunidade para arrumar os recursos ou finaciamentos para sua execução.

    Agora, só a preparação para a construção de UMA linha de metrô, mais as obras em si, levarão quase uma década; então é melhor começar logo e não esquecer o assunto por mais 30 anos.

    Imaginem em 30 anos quantos cidadãos mais irão preferir comprar seu carrinho para ir trabalhar ou viajar e quanto dinheiro público será necessário para abrir ou alargar novas vias em Porto Alegre e no RS para essas centenas de milhares de carros a mais que aparecerão.

    A menos que essa seja a ideia: vender mais carros…

    Curtir

  2. A visão dele sobre o metrô e de alguém de fora que não conhece a política a e organização do Estado brasileiro. Não sabe que 70% dos nossos tributos são concentrados nas mãos da União (Na Espanha, pelo contrário, 70% dos impostos ficam com o Poder público local e regional e são as comunidades que decidem quais investimentos relevantes devem ser priorizados) e que, no Brasil, essas grandes obras públicas, mesmo numa grande metrópole (exceto São Paulo) devem ser tomadas em Brasília.

    Por isso ele acha racional que “se com um acontecimento da importância da Copa… DECIDIRAM que agora não vão fazer o metrô, a segunda decisão que tem que tomar é não voltar a falar de metro nos próximos 30 anos”, supondo que foi uma opção local tomada de acordo com as limitações orçamentárias locais que não mudará nas próximas décadas.

    Curtir

  3. Eu só acho um pouco estranha a opinião dele sobre o metrô. Mas de repente possa ser usada alguma outra alternativa, até mesmo o aeromóvel em alguns trechos mais curtos para se integrar com o Trensurb.

    Curtir

  4. Minha irmã mora na Austrália e disse que além de ter diversos postos de compra dos tickets deles, eles ganham desconto maior conforme o número maior de passes que eles compram. Isso sim é estímulo.

    Curtir

  5. Outra coisa que poderiam fazer é ajudar quem quer deixar o carro em casa e pegar ônibus. Eu faço isso, mas a EPTC resolveu implantar o sistema de cartão (em substituição às fichas) que só dificulta a minha vida.

    Por que digo isso? Como não sou estudante não posso usar, por exemplo, o posto de vendas da Tristeza. Sou obrigado a ir no centro para carregar meu cartão. Vê se posso!

    Curtir

%d blogueiros gostam disto: