ESPECIAL ZERO HORA: O ARROIO NA PRANCHETA – Ideias para o Dilúvio

No projeto de Maria Isabel Milanez, uma das ideias para o arroio: calçadas e praças para circulação de pedestres

Um riacho que passa por mais de 10 quilômetros entre bairros históricos e estratégicos de Porto Alegre, mas que hoje serve apenas para dividir a cidade em vez de integrá-la. Sem restrições orçamentárias para a imaginação, Zero Hora convidou arquitetos de diferentes perfis para bolar quatro projetos com o objetivo de reconciliar o Arroio Dilúvio à Capital.

De metrôs aéreos a amplas áreas de convívio para pedestres, há projetos ambiciosos e outros que desejam mostrar justamente o contrário: que, com criatividade, falta de verba não é desculpa para a prefeitura ignorar o problema. Entre as quatro propostas apenas um ponto de unanimidade: antes de deixar de ser apenas um obstáculo aos motoristas da Avenida Ipiranga e ser urbanizado, o arroio precisa ser despoluído.

Confira um breve perfil dos profissionais convidados – todos de currículos muito mais vistosos que as poucas linhas a apresentá-los – e, nas próximas duas páginas, os projetos que eles imaginaram para o arroio.

*Colaborou Caue Fonseca

humberto.trezzi@zerohora.com.br

Urbanização pelas bordas

O senso comum porto-alegrense considera Porto Alegre uma cidade com boa qualidade de vida, com história e cultura a preservar. A tendência é proteger o existente e se rebelar contra grandes mudanças que possam descaracterizar a imagem consolidada, como os projetos propostos para o Cais Mauá e o Estaleiro Só, analisa a arquiteta Maria Isabel Milanez, professora da Uniritter.

Tudo isso leva Maria Isabel a concluir que o projeto do Arroio Dilúvio tem de privilegiar o espaço público da cidade, oferecendo uma imagem alternativa ao que hoje está acontecendo com a obra de recuperação das bordas do canal. Seria economicamente viável, de fácil execução e culturalmente aceita pela população.

A arquiteta acredita que a urbanização do Dilúvio deve ser potencializada através da inclusão de novos programas voltados para o pedestre, aumentando a dinâmica urbana, reforçando a linearidade e criando “hotpoints” – pontos de convívio da cidade com a avenida. E demonstrar didaticamente ao poder municipal que os projetos integrados de urbanismo são fundamentais e passíveis de execução.

A população se apropriaria das bordas do arroio, em contraponto à dinâmica atual dos fluxos veiculares. A ideia é a inclusão de atrativos – faixa segregada para caminhadas (1), ciclovia, equipamentos aeróbicos, etc – e recantos e refúgios com equipamentos para descanso (2). O material respeitaria o padrão exigido para as calçadas de Porto Alegre (3), de pedra basalto serrado, e a vegetação teria como preponderância uma arborização urbana que reforce a linha e as bordas do arroio e da avenida – Maria Isabel indica espécies nativas como o ipê-roxo (4) e o salso-chorão.

Para atrair o pedestre porto-alegrense para o miolo da Avenida Ipiranga, praças sobre o leito do rio teriam um papel estratégico, em pontos definidos de acordo com o grau de importância e inserção no tecido da cidade. São exemplos destes pontos de referência as pontes das avenidas Edvaldo Pereira Paiva, da Borges de Medeiros, da Erico Verissimo, da João Pessoa, da Silva Só, entre outras.

– Há falta de um planejamento integrado. Obras bonitas e funcionais não são necessariamente caras. E nem sempre a prefeitura não dispõe de recursos – argumenta a arquiteta em defesa do projeto inclusivo e viável.

Plataformas para unir a Ipiranga

As arquitetas Taís Lagranha Machado, Cláudia Pauperio Titton e Mariana Soldan Hugo, da Urbana Arquitetura, acreditam que o Arroio Dilúvio pode ser muito mais do que um riacho canalizado. Ele, que hoje divide, pode servir justamente para integrar a vizinhança separada pela Avenida Ipiranga.

Plataformas seriam montadas sobre a superfície do Dilúvio, criando um espaço com valor agregado. A ideia é “colonizar” os novos espaços provocados pelas infraestruturas já existentes, como rótulas, viadutos, terminais de ônibus e passarelas. Esses locais seriam conectados por passeios públicos. O desafio seria conciliar os diferentes ritmos dos usuários, proporcionando usos para as diferentes faixas etárias. Os atrativos seriam diferentes, portanto, conforme a proximidade com um hospital como o Ernesto Dorneles ou shoppings, como o Bourbon Ipiranga e o Praia de Belas, por exemplo.

Taís explica o conceito proposto no desenho entre as ruas João Pessoa e Erico Verissimo. Isso porque o trecho apresenta pontos importantes da paisagem, como as duas pontes com valor histórico para a cidade, além de dividir o bairro Santana, uma zona residencial consolidada no tecido urbano da cidade.

Considerando a densidade do local, com população e movimento suficientes para ocupar um espaço público de qualidade, as arquitetas propõem ampliar a área em frente ao Hospital Ernesto Dornelles por meio de uma plataforma plana (1) sobre o arroio, unindo os dois lados da Avenida Ipiranga. A plataforma receberia diferentes usos: um grande passeio público para os moradores e usuários do bairro, praça com bancos, zonas livres para feiras semanais, e pequenos cubos comerciais (2) como lotéricas, bancas de revistas e farmácia.

A plataforma também serviria de base para transporte alternativo, como ciclovias, e para linhas de um metrô de superfície (3), com baixa velocidade, existentente em grandes cidades europeias, como Barcelona e Amsterdam.

– A plataforma seria recortada em alguns pontos mostrando o existente (arroio canalizado), os recortes (4) podem permitir usos quando o arroio estiver baixo, como um anfiteatro – explica Taís.

Tudo isso seria entremeado de bancos para os pedestres descansarem, linhas de vegetação localizadas de maneira estratégica e eficiente para prover sombra e, ao mesmo tempo, permitir visibilidade do espaço como um todo, propiciando também segurança.

Por qualidade de vida real

Nada de obras faraônicas. A proposta do arquiteto Edson Mahfuz, visa a suprir a carência de infraestrutura para melhorar o cotidiano do porto-alegrense. Sob esse título se encaixam uma série de atividades coletivas e públicas: bibliotecas, centros de convivência diversos (para jovens, para aposentados…), centros esportivos, centros de saúde de bairro, salões de uso múltiplo e praças.

A ideia é construir sobre o Arroio Dilúvio até 10 desses centros. Não haveria qualquer prejuízo para o curso d’água, que tem uma dimensão de mais de 10 quilômetros. As edificações propostas não abrangem sequer 10% do percurso do riacho, sem impacto ambiental negativo, assegura Mahfuz. O custo, na opinião do arquiteto, é cabível com o orçamento municipal.

– O que se está propondo é que a administração municipal cumpra a sua obrigação – declara o arquiteto, para quem a qualidade de vida em Porto Alegre é um “fenômeno virtual”.

A condição necessária e suficiente para a implantação seria a recuperação do arroio como curso d’água, pelo seu saneamento e controle futuro, para que não seja poluído novamente. De forma simultânea, toda a borda do arroio seria urbanizada, por meio de plantação de árvores (1) e implantação de mobiliário urbano.

Cada um desses centros de atividade seria composto por uma plataforma que cobriria o arroio. E por um edifício de três a quatro andares (2) elevado sobre um térreo vazado (3), o que evitaria que o edifício se tornasse uma barreira visual. Na plataforma (4) haveria sempre algum uso esportivo ou uma praça, e no edifício as atividades que necessitam de espaço interior.

Um dos centros teria pelo menos duas quadras poliesportivas na plataforma, apoiadas por atividades afins no edifício: vestiários, sala de ginástica/musculação, cafeteria, talvez uma clínica de fisioterapia e um salão para aulas e prática da dança. O outro centro contaria com uma praça ao lado de uma biblioteca, uma cafeteria e um centro de atividades para idosos. Segundo Mahfuz, tratam-se de estruturas fáceis de construir utilizando elementos pré-moldados metálicos e de concreto, tanto nas plataformas quanto nos edifícios.

Uma via aérea para o diploma

Incremento tecnológico, funcionalidade e aproveitamento de vocações históricas da Avenida Ipiranga formam o eixo de propostas da dupla de arquitetos Moacyr Moojen e Sérgio Marques para o resgate do Arroio Dilúvio. Pai e filho e responsáveis pelo escritório MooMAA, eles acreditam que a Ipiranga pode se transformar em uma Via Universitária, a exemplo do Barrio Universitário de Santiago, no Chile, e, a partir de então, integrar-se a outros pontos da cidade.

A Ipiranga seria a maior parte do trajeto de um metrô aéreo (1) que ligaria o Centro – via terminal do Mercado, do Trensurb – até o Campus do Vale da UFRGS, em Viamão. Só entre instituições ligadas ao ensino universitário, se beneficiariam os estudantes do Campus Médico, Campus Olímpico e do Vale da UFRGS e o Campus da PUCRS. Somados estudantes da PUCRS e do Campus do Vale, circulam nada menos que 110 mil pessoas por dia.

Junto às estações do metrô, a exemplo do que ocorre em Barcelona ou Montreal, seria disponibilizado espaços para serviços de conveniência (2) como livrarias, cafés, farmácias e lanchonetes. As estações seriam intercaladas com refúgios para descanso, lazer e estudos ao ar livre, equipados com mobiliário urbano adequado ao público universitário. O percurso ainda contaria com internet wireless, a exemplo do Barrio Universitário de Santiago. Junto as margens do arroio, na cota de nível do dique, ciclovia e passeio para corridas (3) e caminhadas, além das praças suspensas.

Com a construção de barragens (com água bombeada do Guaíba), surgiriam algumas lâminas d’água (4) apropriadas para esportes, nautimodelismo, pesca e contemplação, associadas às áreas de estar e lazer. A ideia é eliminar toda a fiação de alta e baixa tensão para canalização aérea junto à via do metrô, além de iluminação pública suspensa.

– É claro que não somos a capital do país, mas Santiago colocou em prática um projeto ainda mais ambicioso que esse por iniciativa das próprias universidades, que se uniram e procuraram a prefeitura para viabilizá-lo – conta Sérgio, que se disse encantado pelo bairro chileno.

Sérgio não rejeita a verticalização. Segundo ele, pela largura, a Ipiranga é uma das raras vias de Porto Alegre que suportaria bem habitações coletivas, de até 60 metros de altura, com unidades para estudantes e infra estrutura de uso comum. Praticamente, extensões dos campi.

Zero Hora – 19/12/2010
 

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Categorias:Arquitetura | Urbanismo, Meios de Transporte / Trânsito, TURISMO

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18 respostas

  1. essa obra ja devia estar iniciada a muito tempo, nao sei o q o governo esta esperando, Porto Alegre nao tem muito mais solução em transito

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  2. Guilherme,

    Revendo agora, o texto da ZH é um pouco ambíguo, dando impressão que é opinião dela também. Retiro minha crítica à arquiteta, e mantenho à população


    para adicionar um pouco à discussão: http://www.cidadederibeiraopreto.com.br/noticia777-a-revitalizacao-de-um-rio-de-seul-na-coreia-do-sul-mudou-a-paisagem-a-tal-ponto-que-as-imagens-de-antes-e-depois-parecem-falsas.html

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  3. Felipe Mobus, sou estudante da Uniritter e acompanhei todo um workshop do cais Mauá lá, o qual teve entre os coordenadores a arquiteta Maria Isabel Milanez, professora da Uniritter. Ela, assim como boa parte dos profissionais da área, defende o uso misto dos espaços, pois assim a vida acontece no local o tempo todo. Resumindo, defendia as residências no pontal e flats no cais. O comentário dela se refere ao fato de não ter esse tipo de confronto nessa situação. É uma denúncia da mentalidade local, e não opinião própria.

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  4. A ideia é “colonizar” os novos espaços provocados pelas infraestruturas já existentes, como rótulas, viadutos, terminais de ônibus e passarelas.

    Isso os nóias de crack ja fazem a bastante tempo…

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  5. Porto Alegre é a cidade do photoshop e do AutoCad. O que tem de simulação digital é incrível.
    É a verdedeira SimCity….onde todos os devaneios virtuais têm vez.

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  6. Para essas obras: o cais, estaleiro so’, ponte do guaiba, metro e outras sairem do papel, so’, repito somente, com um tipo de revolucao armada. Se algun grupo tomar o poder atravez das armas para sairem do papel, fora isso, esquecam. Sao interesses de mais, e nenhum e’ interesse publico, tudo de grupos particulares e interesses politicos. Tera que ser abaixo da baioneta para construirem….rsrsrsrsrsrsrs Ou esperarem geracoes ate’ que essa influencia esquerdista desapareca. De qualquer forma…remota a possibilidade.

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  7. Realmente, o primeiro projeto é bastante bom. Daria uma boa “reativada” na Ipiranga. Poderiam ser inclusos na proposta alguns bares/restaurantes à beira do riacho, talvez ficasse legal.

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  8. Projetos, especulações, lucubrações, estudos, conjecturas, hipóteses…

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