Porque Porto Alegre ignora sua orla ?

Que a população da capital gaúcha vive de costas para sua orla não é novidade.

As mais concorridas opções de lazer nunca são na orla. Os mais procurados imóveis também não. Hotéis, então, quanto melhor forem, mais longe do Guaiba devem ser: hotel bom bom tem que se situar quilômetros para dentro da cidade.

Mas esta matéria não é para ficar criticando os portoalegrenses. É para tentar descobrir porque isso aconteceu com nossa cultura. Criticar é fácil, mas sempre estive pensando quais as causas desse fonômeno praticamente único no planeta.

Hipóteses:

– Grande Enchente de 41

Levou os governos a construir sistemas de defesa, como diques e o muro que separou uma importante parte da cidade do seu lago. Nos anos 70 o Centro, então ainda um local prestigiado da cidade, se divorciou do Guaiba.

– A existência de inverno

O clima hostil e frio de boa parte do ano não incentivaria empreendimentos de “calor”.  Embora a desculpa do frio não seja, em minha opinião, uma boa desculpa, porque por outro lado, praticamente de outubro a abril tenhamos calor, e calor fortíssimo. Também devemos lembrar que cidades como Santos (SP), Montevideo, Cidade do Cabo, Sidey, Chicago, também tenham frio no inverno, mas suas orlas são valorizadas e bonitas.

Também podemos lembrar que até os anos 60 Porto Alegre tinha vários empreendimentos na orla da zona sul, como paradouros, bares, até hotel. Eram usados como “veraneio”.  Ou seja, havia a sazonalidade do verão, que restingia o uso da orla somente a alguns meses do ano, mas mesmo assim empresários achavam que valia a pena investir.

– Crescimento acelerado da poluição do Guaiba a patir dos anos 70, junto com o surgimento da Free-Way

Tenho mil fotos da família tomando banho em Ipanema no início dos anos 70.  Relatos também não faltam comprovando que até o início daquela década as pessoas ainda tomavam banho em Ipanema.

Juntamente com a poluição que se acelerou naquela década, mais a comoção da poluição da Borregard, e a inauguração da Free-Way em 1973 provocaram uma mudança cultural nas pessoas que passaram a preferir o mar , agora com fácil acesso.  Sendo bem sincero, a cultura da cidade decretou que bom agora é o mar:  Guaiba é coisa de pobre.

– Surgimento do pensamento ecológico; transformação da cidade em Bastião da Esquerda; desfiguração da ecologia para ecologismo ideológico

Primeiro foi o surgimento da ecologia, fenômento em que POA foi precursora nos anos 70.

Houve o caso da Borregard, que lançou fumaça com odor terrível por toda a cidade, e também catapultou a liderança do ecologista (de verdade) José Lutzemberger. Em 1975 houve o caso famoso do universitário que ousou desafiar o autoritarismo e o capital subindo numa árvore para impedir que ela fosse derrubada.

Em 1979 os novos valores já tinham força até para dominar o Plano Diretor que, naquele ano, promoveu a mais radical proibição de altura de prédios vista neste país. A cidade ganhou aparência de uma extensa Marau a partir daí.

Nos anos 80, aconteceram “abraços” ao Guaiba para impedir a construção da avenida Beira-Rio. Também aconteceram abraços e gente se deitando no chão para impedir um plano de urbanização para o Parque Marinha, que iria dotar o parque de infraestura, atrações e lazer.

No fim dos anos 80 até 2004 a cidade foi dominada pelo governo PT, que instiuiu em várias esferas da sociedade, da máquina pública, dos trabalhadores, professores, movimentos ecológicos, nas entidades de bairros, o pensamento de esquerda, o pensamento do contra, o pensamento contra-burguês, trouxe para cá radicais ilustres de todo o planeta, etc.

Além de os setores do contra serem mais anabolizados em Porto Alegre, isso contaminou também os movimentos que eram ecológicos, que hoje demonstram facilmente sua motivação ideológica e a falta de argumentos racionais, além de fecharem os olhos para vários problemas graves da cidade, focando só assuntos onde há a ameaça do lucro.

Em consequência, há vinte anos vemos várias iniciativas de aproveitamento da orla serem combatidas por essas entidades. E também pela população. Sim, sempre que há manifestos e abaixo-assinados dos contra-tudo, a polulação, como a que frequenta parques, gasômetros, com seu chimarrão, assinam esses manifestos, e saem orgulhosos. A mesma população vota (em eleições, algo que tem representatividade, não em consultas populares não obrigatórias, que não tem representatividade nenuma) em massa em partidos que tem histórico de ser contra-tudo.

E você, qual hipótese tem para que Porto Alegre seja uma cidade sem orla? Uma cidade  igual a  Cuiabá, Curitiba, Goiânia…

RicardoH

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14 respostas

  1. Eu mudei para a orla há muitos anos e acho que foi a coisa mais certa que fiz na minha vida. Venham pra cá e sejam felizes!

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  2. Complementando meu comentário, já dizia Martin Luther King:

    “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”

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  3. Concordo plenamente com o comentário da Cassiana Schuhl.
    Devemos criar movimentos em prol das causas pró-Porto Alegre e parar de ficar apenas de conversa fiada nos comentários do blog. Tá certo que o blog possui uma visibilidade considerável, mas grande parte da população está alheia a isso, e é ai que o pessoal do contra se aproveita.

    Se ouve um movimento contra o cais, por que não ouve um movimento a favor do projeto, ou visitas a camara de vereadores e assembléia apoiando a revitalização?

    Movimentos são importantes para a conscientização da população, por que do jeito que está apenas uma das partes está sendo ouvida.

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