Prédios antigos são problema histórico

Ao completarem 100 anos, alguns apresentam riscos de queda e incêndio

Edificações exibem má conservação, representando perigo aos pedestres Crédito: MAURO SCHAEFER

O desabamento de um mezanino na última semana de 2010, no Centro de Porto Alegre, trouxe à tona um problema antigo: as más condições dos prédios históricos da Capital, em especial na avenida Voluntários da Pátria e proximidades – entre as ruas Conceição e Pinto Bandeira. Construídas no início do século XX, muitas edificações em estado precário apresentam riscos de queda e incêndios a trabalhadores e pedestres. O acidente ocorrido na rua Pinto Bandeira, que deixou quatro pessoas feridas, foi provocado pelo excesso de peso, segundo a Secretaria Municipal de Obras e Viação (Smov).

O local onde funcionava uma loja de máquinas de costura foi interditado. A orientação da Smov é evitar sobrepesos e realizar obras somente com a presença de um responsável técnico. O risco de queda não é o único problema enfrentado pelos prédios antigos do Centro Histórico. Com estruturas antigas, em especial na parte elétrica, os incêndios são outra preocupação.

Segundo o Corpo de Bombeiros da Capital, dez ocorrências foram atendidas durante o ano de 2010 na avenida Voluntários da Pátria e proximidades. A fachada de uma loja situada entre as ruas Coronel Vicente e Pinto Bandeira, que pegou fogo devido a um curto-circuito, em março, ainda está chamuscada. “Foi bem complicado no início. Escorria água podre para a calçada”, recordou Angelita Zeferino, gerente de uma loja de joias localizada ao lado. Conforme a Smov, Porto Alegre tem uma das leis mais modernas de prevenção a sinistros, o Código de Proteção Contra Incêndio – que inclusive já serviu de exemplo a outras cidades e estados. O que falta, segundo o órgão, é o seu cumprimento. A orientação aos comerciantes é manter extintores carregados e dentro do prazo de validade. A Smov informou também que realiza ações frequentes de fiscalização do Plano de Prevenção e Proteção contra Incêndios no Centro da cidade.

Entre os comerciantes que atuam na região, muitos acreditam que falta investimento dos órgãos governamentais. Do alto do prédio em que trabalha, na avenida Voluntários da Pátria, o cabeleireiro Marcos Daniel Velinho tem uma visão privilegiada de um dos pontos mais movimentados da cidade. As edificações antigas formam uma paisagem de arquitetura única, mas com sinais avançados de deterioração.

Para o cabeleireiro, o Poder Público deveria investir na restauração de prédios que são considerados patrimônio histórico e que, ao mesmo tempo, trazem riscos a quem circula nas proximidades. “Falta uma política de preservação, até porque a Voluntários é uma das primeiras ruas de Porto Alegre”, disse Velinho. Segundo ele, os únicos que mantêm as edificações hoje são os próprios comerciantes. “Se não fosse por eles, os prédios já teriam sido derrubados”, afirmou.

 

Arquiteta anuncia criação de fundo

A criação de fundo destinado à restauração de prédios históricos poderá ser a alternativa para preservar os imóveis antigos da Capital. Segundo a coordenadora do programa Monumenta em Porto Alegre, arquiteta Briane Bicca, a iniciativa deve ser implementada no fim de 2011. “A vantagem é que o recurso estará dentro do município. O trâmite será simplificado.” Hoje, de acordo com ela, pedidos de recursos para as obras são feitos a Brasília, uma vez que o Monumenta é vinculado ao Ministério da Cultura.

Briane Bicca Crédito: MATEUS BRUXEL / CP MEMÓRIA

O sistema funcionará como um financiamento com prazo determinado – ainda não definido – para que o proprietário faça a quitação. Com a criação do fundo, a área de atuação do Monumenta, hoje restrita a 55 hectares, será ampliada, passando a contemplar todo o Centro Histórico, inclusive a avenida Voluntários da Pátria. “Poderão recorrer aos recursos os proprietários de imóveis listados como bens de valor cultural.”

Para a arquiteta, mudanças na estrutura de imóveis da Voluntários da Pátria e proximidades, transformados em locais de comércio, podem ter favorecido a degradação. No entanto, segundo ela, muitos proprietários já procuraram o Monumenta com interesse de recuperar o patrimônio. “O fato de o proprietário estar interessado em restaurar um prédio antigo para todos os porto-alegrenses é um gesto importante, pois mostra que ele tem consciência do valor histórico.” Em muitos casos, diz, os imóveis voltam a ter valor de mercado.

 

Pedestres foram para o meio da rua

A interdição de um prédio histórico situado na esquina das ruas Riachuelo e Marechal Floriano, no Centro Histórico, tem causado transtorno a quem transita pelo trecho, desde janeiro de 2010. Tapumes foram colocados sobre a calçada, o que obriga os pedestres a dividir espaço com automóveis e lotações. O prédio, construído em 1917, corre o risco de desabar, segundo a Smov, mas não pode ser demolido por estar registrado como área de interesse cultural pela Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural de Porto Alegre (Epahc).

Tapumes ocuparam a calçada de prédio cuja situação está indefinida Crédito: MAURO SCHAEFER

“É muito complicado. Os carros não respeitam”, disse a professora aposentada Elisabeth Crocco, que tentava passar pelo local com a mãe, Marina Olmedo. Ao transitar da rua Riachuelo em direção à avenida Salgado Filho, ela teve de atravessar a rua para, em seguida, retornar ao mesmo lado. A funcionária pública Conceição Severo Rodrigues, que passa todos os dias pelo trecho com o neto Cristofer, 5 anos, reclama da falta de providências. “Tem de ter cuidado com os carros, senão eles passam por cima”, afirmou. A situação é a mesma desde janeiro do ano passado, quando ocorreu a interdição.

A Smov informou que a passagem só será liberada caso o proprietário apresente um laudo técnico de estabilidade estrutural, devido ao perigo que a construção representa para os pedestres. A Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) comunicou que um túnel de passagem será construído no local, mas sem previsão de data.

O proprietário do imóvel, Edgar Granata, alega que um relatório de vistoria do Ministério Público concluiu, no ano de 2008, que não havia risco de desabamento, e que, portanto, a atual interdição não seria necessária.

Correio do Povo

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Categorias:Patrimônio Histórico

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1 resposta

  1. Este prédio da Riachuelo com Mal. Floriano está por desabar a qualquer momento. No caso, o desabamento invadiria a pista e atingiria até a outra calçada. Uma tragédia está para acontecer a qualquer momento, e ninguém, absolutamente ninguém, faz nada.

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