Especialista que viajou o mundo avalia a situação da cidade para 2014 e decreta: “falta um Felipão”

Desde os 13 anos, Henrique Raizler viaja pelo mundo. Carimbado em mais de 50 nações, nos cinco continentes, seu passaporte lhe deu autoridade para comandar, numa das principais rádios do Rio Grande do Sul, o programa “Mapa Mundi”, que traz representantes de vários setores para discutir o futuro das cidades. Direto da tranquila  praia de Macacu, em Santa Catarina, ele conversou com o blog sobre Porto Alegre e o Mundial de 2014. Segundo o especialista em estratégias turísticas, a capital gaúcha, como tantas outras no Brasil, está crescendo sem planejamento. “E se fôssemos um time, estaríamos sem técnico: “falta um Felipão”.

Como especialista em estratégias para o turismo e comunicador, você tem discutido com diversos setores da sociedade a preparação de porto alegre para 2014. Em um dos programas, afirmou que a cidade precisa se reinventar para o Mundial. Em que pontos, principalmente?
No Brasil, são raras as cidades que trabalham o posicionamento estratégico. Se quero receber investimentos em turismo, tenho que pensar no todo. Não adianta abrir uma avenida. Exige estratégia, ousadia. O que queremos passar para o mundo? Queremos ser uma cidade verde? Uma cidade do Mercosul? Como a cidade se apresenta? Em Porto Alegre, como na maioria das cidades brasileiras, temos ações dissociadas. Não sabemos para onde ir e os projetos são aprovados isoladamente.  Falamos do Centro Histórico, de Ipanema [bairro à beira do lago Guaíba], mas que tipo de turista quero receber nestes bairros? Isso independe de qual seleção vai jogar em Porto Alegre. As cidades, em geral, estão com uma visão falha, política. Assim como está, é um processo de transformação por obras, não de pensamento.

Falta discutir as transformações?

Não vejo um debate sobre conceito. As pessoas concordam que ele é necessário, mas, na prática, não vejo nada. Estou levantando a história do morro Apamecor, onde estão acontecendo assaltos em série. Discuto o assunto com a prefeitura, a Brigada Militar, os proprietários. Mas falta uma visão estratégica sobre os morros de Porto Alegre, para que as pessoas possam visitá-los com tranquilidade. Por que não podemos colocar um café bacana no morro Santa Tereza? O [prefeito] Fortunatti, que eu respeito muito, diz que vai duplicar a avenida Tronco (obra incluída nos investimentos para o Mundial), mas para que eu possa vendê-la turisticamente, tem projeto paisagístico, tem conceito?  A visão é meramente econômica, como em qualquer outra cidade. E nesse momento de competição internacional, eu preciso ser diferente. As cidades estão com um pensamento meramente capitalista, sem inovação. Com a Copa, vem a mídia internacional, e precisamos decidir qual tipo de inovação queremos: a do cimento ou a da inteligência criativa. A inovação criativa existe, mas está sem direção. E sem direção, vamos ter legado, mas vai ficar por aí.

Porto Alegre ainda é vista como uma cidade pouco turística – pelo menos no que diz respeito ao turismo de lazer. O Mundial vai mudar isso?
Se Porto Alegre começar a se desvendar e se apresentar, pode ser. Temos aqui os Caminhos Rurais, mas não há um quiosque com um casal de estagiários que fale inglês. Se for sozinha até lá, a pessoa vai se perder, porque a sinalização está mal feita. E o projeto, que é interessante, perde credibilidade. Por isso criei o termo “basicologia”: não saímos do básico. A cidade vai ser boa para o turista se for boa para quem mora nela. O Brasil tem grandes vantagens competitivas e é de brasileiros. Nós temos um grande potencial de atração do turismo nacional, mas trabalhamos no negativo.

Qual conceito Porto Alegre poderia vender?

É difícil dizer, mas poderíamos, por exemplo, ser a “cidade inteligente”. Em cima disso, começa a gerar inovação nos empreendimentos, na iluminação publica. Poderíamos ser uma cidade que “pensa”, inteligente em história, inteligente em política, em transporte público. Precisamos discutir sustentabilidade, turismo, inovação, tecnologia e qualidade de vida. Mas nada mudou nos últimos 20 ou 30 anos. Fizemos a terceira perimetral, que foi projetada em 70 e não funciona em 2011.

O que realmente vai mudar com o Mundial de 2014?

O Cais Mauá. E isso vai obrigar outras ações. Mas eu gostaria de discutir toda a orla do Guaíba, trabalhar a comunidade carente que há em volta. Só vai haver desenvolvimento econômico se tiver desenvolvimento social. Só o que estão fazendo, não dá. O que é o Gasômetro [principal ponto de embarque de barcos turísticos da cidade] hoje? Tem um bar flutuante péssimo! Fizeram uma ciclovia em frente ao Barra Shopping, mas já estão quebrando, os ciclistas não aprovaram e ninguém sabe onde ela começa e termina.

Os moradores podem colaborar com a mudança?

Quem dá a direção de um time é o técnico. Preciso demonstrar que estou trabalhando. Está faltando um Felipão. E é preciso ter coragem. Nós descremos nas ações do poder publico, mas vendo resultados, as pessoas vão ajudar. Se não é aquilo: quer saber, vou continuar jogando lixo na rua.

O novo Secretário dos Esportes gaúcho, Kalil Sehbe, disse que as cidades do interior também vão ganhar com o Mundial de 2014. Você acredita em legado para municípios que não sejam centros de treinamento ou não estejam, como Gramado está, no mapa oficial do turismo?
Definitivamente não. Mas não por não terem potencial. Comecei a listar pontos gaúchos de interesse turístico que sejam verdadeiramente internacionais e cheguei a 6 ou 7 . Mas eles não se comunicam.  Não conheço o secretário, mas já que ele é especialista em marketing, quantos projetos nesta área ele já fez? Vamos parar de brincar.

 

http://deolhoem2014.terra.com.br/blog/poa



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1 resposta

  1. O que falta é dinheiro e o que sobra é burocracia.

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