Casa de Cultura Mario Quintana: fôlego para sair do sufoco

Marcos Barreto promete reerguer o espaço artístico do Centro de Porto Alegre. Foto: Fredy Vieira/JC

Enquanto descia as escadas para uma sessão de fotos, Marcos Barreto bradava com uma imponente voz: “Olha essa casa, aqui nesse canto poderia ter alguém tocando um instrumento ou lendo um livro”. Em um dia quente, o novo diretor da Casa de Cultura Mario Quintana falava sem parar sobre o casarão da Rua dos Andradas. “Tem que tirar essas placas de convênio de ambulância, isso nem tem mais” – se referindo a duas impressões metálicas que asseguravam que a travessa era área protegida. “As pessoas vinham aqui para passar mal”, afirma, com um quê de inacreditável certeza. Movimentar o espaço para, a partir daí, ter condições de realizar novos projetos, é assim que a Casa de Cultura Mario Quintana dará os primeiros passos para chegar à modernidade.

JC – Panorama – O secretário Luiz Antonio de Assis Brasil disse que se estivesse no seu lugar estaria nervoso e preocupado. Como você se sente agora?

Barreto – No primeiro mês eu fiquei exatamente como ele disse. Agora eu estou menos nervoso, mas mais preocupado. O nervosismo sumiu porque deu para começar a tomar conta do que é essa casa, onde tem que ter arte, cultura, carinho e delicadeza em tudo quanto é cantinho. Estou preocupado pela situação: não ter verba nenhuma para poder fazer atividade cultural aqui dentro.

JC – Panorama – Qual é a real situação da casa?

Barreto – Quebrada. A única verba que vem é da associação de amigos. De tudo que a casa arrecada dos bares, cafés, cinemas, teatro e locação dos espaços, 70% vão direto para conserto de elevador, para escorar uma viga que está caindo no sétimo andar, enfim, para poder chegar a uma certa excelência de prestação de serviço.

JC – Panorama – E como reverter essa situação?

Barreto – Se não tiver um aporte bom de dinheiro, vai ser muito difícil chegar aonde a gente quer chegar. Por enquanto estamos bolando projetos pequenos, no sentido de pouca grana, para fazer com que a casa dê uma respirada artisticamente. Por exemplo, eu tenho um cantinho onde as pessoas dormem ao meio-dia. Vou colocar um sombra (personagem de mímica) para começar a incomodar o sono deles. Casa de Cultura não é um lugar para tu vires dormir! A gente quer que tenha música no jardim. Também intervenções teatrais com pessoas abordando gente aqui dentro. Leitura de livros do início ao fim. Ceder os espaços da Casa para ensaio. Estou tentando falar com o Instituto de Música da Ufrgs para oferecer esses espaços. Quer dizer, tu estás entrando para ver uma exposição e tem um cara tocando cello num canto. Essas coisas começam a dar vida para a casa. Esses são os projetos para não morrermos afogado, para podermos respirar.

JC – Panorama – O conceito que o secretário quer atribuir à casa é de modernidade, elevá-la ao século XXI. Como criar essa identidade?

Barreto – Nós vamos criar isso trazendo os melhores pensadores do mundo, os melhores criadores para discutirem aqui dentro. Tentar trazer as ideias mais contemporâneas que estão circulando o mundo. Vamos trabalhar como uma parabólica, buscando aquele que está pensando uma coisa genial lá no interior da Índia. Por isso já estamos repensando a ocupação dos teatros para o ano que vem, para podermos também ser produtores de cultura.

Casa de Cultura Mario Quintana - Foto: Gilberto Simon - Porto Imagem

JC – Panorama – Tem que trazer a população de volta?

Barreto – Com certeza, isso é um centro popular de cultura onde todo mundo pode chegar e entrar. Tem outros centros culturais na cidade que as pessoas não vão porque acham que não é para eles. No Mercado Público, quando foi revitalizado, as pessoas não iam, aquele povão que gostava daquela muvuca, daquela coisa caindo aos pedaços, logo que reformaram não voltou, demorou um tempo para entenderem que eles mereciam uma coisa limpa. Se a gente não fizer cultura para as classes C e D, quem é que vai fazer?

JC – Panorama – Faz pouco mais de um mês que o senhor assumiu. O que destaca de emergencial?

Barreto – O restauro da fachada, porque aí se tira esses andaimes e telas azuis que estão estragando a casa. Aparelhar melhor os teatros. Impermeabilizar alguns lugares que estão meio podres. Botar mais gente para trabalhar nos institutos. As estruturais são essas. Uma pequena ação que pode ser imensa é colocar os poemas do Quintana pelo local. Tu sobes uma escada e começa a ler um poema e quando viu leu um livro inteiro. E depois vir com esses projetos grandes, transformar numa espécie de Casa do Saber. Pensar universal para ela poder irradiar cultura para os lados. Mas tem que ter tudo funcionando, tem que melhorar a estrutura. Enquanto as pessoas continuarem presas nos elevadores, enquanto continuar caindo coisas na cabeça das pessoass fica difícil tu gastar muito dinheiro num projeto artístico.

JC – Panorama – Como o nome sugere, é uma casa para a cultura. Como abrigar as mais diversas manifestações de uma forma justa?

Barreto – O pessoal está vindo me procurar e, enquanto eu tenho espaço, estou cedendo. Por exemplo, o pessoal do circo quer ensaiar na rua dos cata-ventos, beleza. A dança quer ensaiar nas passarelas da casa, maravilha! Os teatros, como são editais, o que sobra a gente tenta equalizar entre os grupos e pessoas que estão precisando. Agora mesmo eu descobri que os técnicos vão sair de férias e os teatros irão fechar, porque quando o funcionário sai de férias fecha o teatro. Que é isso? Em nenhum lugar isso acontece. Aqui acontecia até então, mas não irá mais, de jeito nenhum. Já tenho uma reunião para ver quem vai ocupar esses teatros. Não posso deixar espaços fechados um mês com a demanda que tem só porque dois técnicos saíram. As datas que sobraram, quem nos procura está pegando. Venham conversar conosco, façam sua proposta, mostrem seus projetos. Não tem dinheiro? Tudo bem, ensaie e depois negociamos dez espetáculos. Vamos fazer! Até agora não estou barrando ninguém, só não tenho cachê para dar. Pelo menos esse ano vai ser assim, que é o ano do sufoco porque o nosso orçamento é do governo Yeda.

Jornal do Comércio

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Categorias:Cultura, Restaurações | Reformas, Revitalização do centro

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8 respostas

  1. o Jardim Lutzenberger no terraço do 5º andar é um lugar único, com biodiversidade, e merece a sua visita e uma matéria sua sobre esse belíssimo lugar. apareça por lá, Sr. Gilberto e faça o registro.

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  2. Mas se o centro tivesse uma segurança adequada até não seria problema caminhar entre a CCMQ e algum estacionamento. Eu nunca fui assaltado no centro, mas realmente o aspecto degradado e a vagabundagem geram algum desconforto.

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  3. “Nisso tu tens razão, Augusto. Mas a falta de estacionamento é um problema do centro. E não especificamente da ccmq…”

    O que é irrelevente neste caso. O que interessa é que a CCMQ não tem estacionamento.

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  4. o CCMQ tem um problema tremendo. A falta de estacionamento. Como todos sabemos, hoje em dia, cada vez é mais urgente estacionmentos em grandes empreendimentos. Éu já deixei de ver inúmeros bons filmes no centro, tanto na CCMQ como no Santander Cultural devido à falta de lugar pra estacionar. Podem dizer que há uma série de prédios de estacionamento adjecentes…porém é um horror ter que se deslocar deles até o local do espetáculo ou cinema…passando pelo verdadeiro corredor polonês do centro; escuro, sujo, crivado de mendigos, viciados, assaltantes e flanelinhas mal encarados.
    Sinto muito, CCMQ. Sem estacionamento – não rola.

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  5. já percebe-se melhorias na infra-estrutura e nos eventos da CCMQ, resultando num aumento do nro de visitantes. é um lugar a ser resgatado, já que conta com inúmeras e boas atrações como os cinemas, teatros, cafés e o inigualável e lindíssimo jardim lutzenberger no terraço do 5º andar, esse sim um dos mais belos (e escondido) lugares do centro. boa sorte ao novo diretor, q tem mto trabalho e obras pela frente…

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  6. Gostei do discurso! Pelo menos a mensagem central que ele quis passar, de dar vida ao lugar, é o que julgo correto!

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  7. Sim, a ex-governadora Yeda simplesmente abandonou a cultura. O que dizer da OSPA então? A falta de uma simples política cultural na gestão anterior foi simplesmente alarmante. Não era falta de dinheiro ou coisa parecida; era pura falta de comprometimento. O mínimo que for feito será muito melhor do que passou.

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