Fossa Crítica – Reflexões (longas) sobre o Atropelamento em Massa

Não é de hoje que a preocupação com o trânsito, por parte dos ciclistas, leva muitos de nós a participar de forma ativista em diversos movimentos. Muito alegra e anima ver a Casa da Bicicleta tomando forma, a Massa crescendo a olhos vistos, Bicicletagem Jardinária, passeios ciclísticos noturnos em quantidade abundante, projetos de lei, bicicletários no Mercado Público e pressão sobre as autoridades, entre outros.

Esse progresso todo, aliado ao clima de crescente engajamento, pluralidade, assiduidade e principalmente “bom desempenho” das massas críticas tem aumentado o otimismo, a esperança e a motivação em achar que estamos no caminho, que as coisas estão acontecendo, que a sonhada realidade viável para as bicicletas e para as pessoas no trânsito da nossa cidade está chegando.

Mas eis que então se abate sobre nós o Martelo de Thor, personificado por um irresponsável e infelizmente típico representante

  • de uma classe sócio-econômica
  • de um modelo de comportamento
  • de um modelo de pensamento

que – e é assim… – tem PODER para oprimir e agredir.

E o que mais entristece é que esses modelos de comportamento e pensamento:

  • são conhecidos, mas não são questionados ou combatidos;
  • são, ao contrário, estimulados por uma série de forças sociais e econômicas;
  • têm esse estímulo ratificado cooperativamente pelo Governo, que deveria ser o primeiro órgão regulador a, em benefício da coletividade, combatê-lo.

Falo aqui de várias coisas (desculpem se sou vago demais), mas em especial da pressão econômica da indústria automotiva, da ressonância governamental com um modelo carro-cêntrico, mas principalmente do lado escuro do comportamento humano, um lado que a civilização vem se esforçando há milênios para inibir e controlar, mas que a adubação de vaidades narcísicas disfarçada de progresso pessoal, social e econômico faz questão de trazer à tona, deixando multidões perigosamente expostas a perigos sutis, mas traiçoeiros, e por vezes cruéis.

A fim de refrescar a memória, e de melhor cristalizar os conceitos de que falo, peguei aqui o excelente livro “Fé em Deus e Pé na Tábua”, do renomado sociólogo brasileiro Roberto da Matta. Antes de prosseguir em minhas reflexões, compartilho com os colegas alguns trechos muito pertinentes e sugestivos:

“Nas ruas das grandes cidades brasileiras, temos multidões de condutores de veículos que dirigem no melhor estilo Carlota Joaquina, com todas as suas expectativas aristocráticas e suas consequentes frustrações e danações.”

“O que faz o cidadão mediano entender que o pedestre a atravessar a rua à sua frente está cometendo um abuso ou uma ofensa contra sua pessoa e merece ser punido? O que leva esse motorista a enterrar furiosamente o pé no acelerador e suspender sua fé em Deus?”

“Somos uma sociedade marcada por origem e formação politico–social hierarquizadas. Até 1888, o Brasil teve escravos, e até 1889, quando se proclamou a República, uma base aristocrática; seus códigos de comportamento refletem a realeza e o baronato, e é assim que tudo nela, inclusive as vias públicas e seus veículos,  faz parte de uma escala de desigualdade. No Brasil, o papel de motorista e seus veículos são lidos como emblemas de desigualdade. Há um contraste entre o gozo doato de dirigiu o prazer de estar ao volante, com uma total ignorância da responsabilidade civil deste ato no que diz respeito às suas consequências. Escapa aos motoristas qualquer conotação negativa do veículo, como sua potência esua capacidade para produzir acidentes, danos e mortes.”

“O choque e o conflito decorrentes do encontro de expectativas hierárquicas – quem tem um carro mais caro, anda mais bem vestido,  fala melhor etc. espera um reconhecimento tácito de sua superioridade  – com a imposição da igualdade por meio de sinais obrigatórios e universais, estão na base desta guerra ou combate. Esse conflito traduz o que chamamos de estresse, desconforto, nervosismo, raiva e impaciência.
Deste ponto de vista, a impaciência no trânsito seria um modo de reagir a essa prescrição igualitária. Tal combinação de igualdade coercitiva com hierarquia habitual e costumeira produz esses surtos de malcriação e agressividadeque tipificam o trânsito no Brasil.”

“Essa passagem de cidadão a pé para cidadão motorizado não foi discutida ou sequer compreendida em profundidade pela sociedade brasileira, que ainda desenha o papel do motorista enfatizando direitos e privilégios e, aristocraticamente, esquecendo deveres e responsabilidades. Deste modo, segue-se, mais uma vez, o código das hierarquias e se confunde a “licença” (ou a carta) para dirigir um veículo motorizado com um emblema de superioridade social. O resultado dessa atitude é que o indivíduo-cidadão investido do papel de motorista julga-se com muito mais direitos do que seu companheiro de espaço público (ou de rua) que está a pé, quase sempre invisível para quem está dentro dos veículos.
Pior que isso, muitas vezes é percebido como um obstáculo e um atrapalhador sem direitos. Quem está verdadeiramente (in)vestido ou armado pelos seus veículos e licenças legais toma, sem nenhuma discussão ou problema, os pedestres como adversários e obstáculos à sua trajetória. O motorista teria todos os direitos, enquanto que os pedestres só deveres, sendo o principal o de não atrapalhar o trajeto e o movimento livre dos carros.
Temos, então, por um lado, os motoristas (que enfiam o pé na tábua), que se pensam como tendo somente privilégios e direitos; e, por outro, os pedestres (englobados pela fé em Deus), vistos como subcidadãos cujo atributo é ter um conjunto de deveres ou obrigações. Neste sentido,  fomos tão longe em nosso descaso com qualquer compromisso com a igualdade como um dever (e um direito) de todos, que os motoristas têm o privilégio de ocupar as ruas usando-as como bem entenderem, assim como as calçadas e praças.”

“O fato concreto é que nós não aprendemos a resolver essas questões porque o que realmente sabemos é que esse outro dentro do carro ao lado é um desconhecido. Por isso, ele deve ser – axiomaticamente – situado como inferior (ou superior), até prova em contrário. Diante dele, as normas gerais somem ou são absorvidas pela situação que deve ser solucionada pessoalmente. O resultado final do conflito entre o padrão hierárquico (que busca e sabe das diferenças entre pessoas) e o igualitário (que as desconhece, não precisa conhecê-­las e, mais que isso, deve desconhecê–las, senão não poderia ser igualitário) é, até hoje, um enigma no caso do Brasil. Dizer que jamais sabemos o resultado é um exagero.”

Acho que as considerações acima já nos põem no “clima” das implicações e das motivações potencialmente ocultas daquilo que aconteceu hoje.

Algumas coisas marcaram profundamente a minha mente nos momentos que se seguiram ao atropelamento, enquanto eu ainda estava com pouca dor, muita surpresa, voz trêmula e uma certa vontade de chorar (não de dor ou raiva, mas decepção, o sentimento predominante até agora):

  • a constatação de que, ao contrário do que eu imaginava até hoje, EXISTE esse nível de agressividade, esse nível de risco, esse nível de exposição na relação pedestre/ciclista perante o motorista. Eu usei minha bicicleta e o meu corpo para limitar o avanço do carro, num contexto completamente compatível com o que temos feito nas Massas: apartar bicicletas e veículos motorizados durante o percurso, ocupar o espaço na via e ordenar, de forma física, o tráfego das bicicletas primeiro, e dos carros que vêm atrás, que logicamente seguirão seu trajeto normalmente na próxima quadra, na próxima rua, na próxima esquina, assim que a Massa tiver acabado de passar, o que afinal de contas nunca demora tanto assim. Durante meus deslocamentos cotidianos, a divisão do espaço que eu ocupo e do espaço que o carro que vem atrás de mim ocupa é feita assim: se eu paro, ele para atrás de mim. Isso é trânsito, é assim que funciona. Pois ao usar minha bicicleta e meu corpo hoje, isso JÁ NÃO FOI suficiente: cruzou-se uma barreira até então tida como intransponível. A relação de tráfego entre mim e ele (entre nós e ele) foi violentamente convertida em uma relação de agressão e invasão pessoal, íntima, mas não tão íntima: ao invés do cara a cara, foi metal contra carne, com os evidentes prejuízos decorrentes da desigualdade. A implicação disso? Irreversibilidade, precedente estabelecido. Para mim, e para muitos de nós de hoje em diante (e possivelmente não até então), estar na frente de um carro com o motor ligado é um equivalente próximo a enfiar o cano de uma arma de fogo na boca enquanto alguém está do outro lado com o dedo no gatilho. Muito triste.
  • a (re)constatação de que a natureza insidiosa das tentações oferecidas pelo carro e pelo motor, e a natureza perversa dos comportamentos mais irracionais e primitivos do ser humano, continua sendo sistematicamente aperfeiçoada com os mais avançados conhecimentos da engenharia, do design e da ergonomia. A sensação de distanciamento e alienação proporcionada pelos vidros, pelo barulho inexistente do motor, pelo conforto absoluto dos bancos acolchoados, pelo posicionamento simbiótico de todos os comandos necessários, torna tão mínimo o esforço necessário para conduzir o veículo, que O POTENCIAL DE CAUSAR UM GRANDE DANO IMPULSIVAMENTE é enorme, dependendo apenas da “força do pensamento” e de um questionável (porque humano) auto-controle. Pelo que vi ontem, o esforço dispendido pelo motorista para atropelar dezenas de pessoas foi menor do que o necessário para dar uma bofetada na cara de alguém: bastou mexer o pé. Isso é poder! Agressão pessoal direta, íntima, mas à distância de um vidro e uma lataria. E nossa sociedade está exposta a esses riscos em níveis incalculáveis, porque para ter 80 ou 300 cavalos sob o pé basta ter dinheiro. Mais nada.
  • e se fosse uma passeata a pé? Haveria tanta raiva? Haveria um ato de agressão selvagem como esse? Me parece que não. A conclusão provisória é de que, por algum motivo obscuro, a bicicleta desperta (me corrijam se eu estiver errado) o ÓDIO de muitos motoristas. Por que?

Apesar de tudo isso, creio que nos foi dada de presente, apeser da forma degenerada, uma oportunidade ímpar: a de multiplicar em ordens de magnitude a repercussão dessa Massa Crítica de ontem. Dada a dimensão do absurdo, a discussão que deverá se seguir tem um potencial de alcance tão grande que deve ser aproveitado tão intensamente quanto possível, tanto para aumentar e aprimorar o movimento Massa Crítica, quanto para levar mais alto, junto à mídia e a autoridades, idéias, necessidades e problemas que há muito já difundimos, mas cuja repercussão limitada faz com que demorem a serem ouvidos ou atendidos.

Como já foi dito, haverá uma reunião às cinco da tarde, domingo, na Casa da Bicicleta. Eu vou sem falta, e creio que essa é uma boa oportunidade para darmos seguimento a todas as discussões pertinentes.

Então, até lá, e muitíssimo obrigado pela paciência e pelo interesse em ler este texto.

Deixo uma última frase do livro de da Matta, como um estímulo adicional à reflexão sobre o que eu considero que deveria ser o ponto crucial da Massa, bem como de quaisquer outras manifestações em prol de algum ideal de “trânsito melhor”:

“O que falta internalizar mais do que ouvir, vociferar, criticar e repetir é o respeito e a obediência à lei em função do Outro– do cocidadão que conosco compartilha, como um igual, do mesmo espaço público –, e não apenas pela lei em si ou pela autoridade que a representa.”

Blog Massa Crítica



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4 respostas

  1. É como na educação…
    Pessal que ja tirou a carteira, se não tomar multa, não vai adiantar… tem que investir nos cfcs hoje pra amanhã a gurizada saber dirigir.
    Quem tem 30/40 anos, ou até mais, tem uma imagem diferente do transito, não todos, mas muitas pessoas.
    Sei disso por que vejo isso andando com meu pai de carro, com tios e outros

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  2. Totalmente lamentável mesmo. Mas não há necessidade de levarmos a coisa para uma coisa “carro vs bicicleta”, como a vítima menciona.

    O sociólogo citado também ao meu ver fantasiou muito em cima da coisa. A questão é que no Brasil não temos noção nenhuma de dever, só de direitos. E não sabemos separar o que é meu do que é teu e do que é de todos. Isso se reflete no trânsito, na política, na violência, em tudo. Nossa cultura é bem complicada.

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  3. Do jeito que fala, até parece que todos que usam o carro são culpados.
    Por favor né, não vamos exagerar.
    Um louco doente mental fez uma grande besteira, um crime, isso ninguem nega, agora falar que todo motorista é assim, que é coisa do dinheiro e disso e aquilo, ai ja é um absurdo.
    Ninguem tem o direito de trancar uma rua, e muito menos o de atropelar quem bem entender né….
    A maioria prefere carro, é assim, isso nunca vai mudar, não adianta chorar, só acho que a prefeitura deveria botar uma multa pesada pra quem não respeita os ciclistas, e nas vias que tiver condições, fazer ciclovias.

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  4. Lamentável o ocorrido na noite passada em Porto Alegre. A atitude do marginal é o resultado de políticas públicas fracassadas. Realmente lamentável. Solidariedade aos que foram atingidos, cadeia ao marginal.

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