ÔNIBUS NAS ÁGUAS DO GUAÍBA E NOS DEMAIS RIOS DO ESTADO

ARTIGO – Um ônibus cortando o Guaíba

É isso mesmo. Não é metáfora, nem licença poética, nem força de expressão. Estou dentro de um ônibus cortando as águas do Guaíba. Um belo ônibus fluvial para 120 passageiros, que acaba de deixar o cais junto ao terminal do trensurb.

Diante de nós, as águas se encrespam ao vento sudeste. Rapidamente, o catamarã atinge sua velocidade de cruzeiro: 50 km/h. Pouco para uma estrada, muito para uma navegada sem sinaleiras fechadas, sem carros, motos, ônibus, caminhões e carroças para ultrapassar. No interior do barco, através das paredes envidraçadas, vejo desfilar a bombordo o perfil da minha cidade. Bombordo, o lado esquerdo, o lado do coração.

Porto Alegre é uma cidade linda. Mais linda quando vista ao entardecer, refletindo em milhares de vidraças o pôr do sol alaranjado e rosa. O ônibus fluvial avança em direção à cidade de Guaíba. Ali nasceu a Revolução Farroupilha, em 1835, e morreu Bento Gonçalves, em 1847, na casa de seus velhos amigos Gomes Jardim e Isabel Leonor. A casa do cipreste histórico é um ponto cultural e turístico que os porto-alegrenses e nossos visitantes pouco conhecem. Mas que irão conhecer, em futuro próximo, com muito mais facilidade, quando este ônibus fluvial estiver operando regularmente.

O sonhador que o mandou construir e o apresenta com orgulho é o empresário Hugo Fleck. Os viajantes, seus convidados, são todos escritores, meus alunos da oficina de criação literária que redigem um livro de contos bilíngue português/francês. O livro pretende apresentar Porto Alegre aos parisienses e Paris aos porto-alegrenses. O projeto se chama “Entre o Sena e o Guaíba”, exatamente porque as duas cidades são filhas de seus dois rios. Com a diferença de que o Sena, desde a antiguidade, nunca deixou de ser navegado pelos mais diferentes tipos de embarcações. E nós abandonamos o Guaíba, há meio século, em troca de uma ponte levadiça que hoje costuma ficar trancada lá no alto, contemplando milhares de veículos engarrafados e infelizes.

O ônibus fluvial chega agora diante do cais da cidade de Guaíba. Levamos exatamente 20 minutos nessa travessia. Mas não vamos desembarcar. Porque a obra no trapiche para embarque e desembarque de passageiros ainda não está pronta. E não depende da empresa proprietária do ônibus fluvial, e sim das autoridades locais. Pode levar mais um mês, dois meses, três meses… É ter paciência e dar volta para Porto Alegre, onde chegaremos em mais 20 minutos de uma bela navegada. Que custará, no futuro, a cada passageiro, apenas o preço de R$ 6.

Na volta, olhando para o lindo prédio do Museu Iberê Camargo, penso no futuro e acredito no sonho que estamos vivendo. Um dia, como em Paris, os ônibus fluviais de Porto Alegre nos levarão regularmente por toda a orla do Guaíba. E sua denominação indígena de “encontro das águas” voltará a ser verdadeira para todos nós.

Alcy Cheuiche (escritor)

Zero Hora, 26/02/2011

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COMENTÁRIO DE VANDERLAN VASCONSELOS

ÔNIBUS NAS ÁGUAS DO GUAÍBA E NOS DEMAIS RIOS DO ESTADO

Também quero. Acredito que seja a hora de desafogar nossas estradas e também como opção de turismo para a copa que se aproxima.

É só sair do Brasil, para saber que isto já acontece na maioria dos países desenvolvidos. Porque não aqui. Sem asfalto, buracos, congestionamentos, pedágios, poluição, segurança e sem stress.

Mas primeiro precisarmos criar e montar as hidrovias, como são nossas estradas, com balizamentos, sinalização e assim termos segurança para nossos passageiros.

O Porto de Porto Alegre é um lugar seguro, para embarcarmos esta ideia. Mas precisamos buscar o espaço para a chegada e saída dos barcos catamarãs, em teste no nosso guaíba.

Precisamos dragar e termos condições de fazer a  manutenção periodica desta nova hidrovia.

Adquirirmos as boias com iluminação solar, e dotadas de radares para viagens, mesmo em tempo adverso, com neblina, e a noite também.

Precisamos ser mais criativos e darmos prioridades, para incluir no orçamento recursos para botarmos este sonho em ação.

O governo passado começou a construir a casa pelo telhado. A SPH vai entrar nesta história com as demais Secretarias e Autarquias do Governo, para buscar, no menor prazo possivel, a solução para este sonho.

Vanderlan Vasconselos é Diretor-Superintendente da Superintendência de Portos e Hidrovias do Estado do RS

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Categorias:hidrovias

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7 respostas

  1. Atenção: não há trapiche para desembarque em Guaíba. Fora esse “detalhe” e o preço da passagem….tudo bem para a hidrovia.

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  2. Sem problemas, Gilberto. Até acho que você foi induzido ao erro, porque a matéria postada no site da SPH não fez essa diferenciação – colocou um comentário sob um título semelhante e, depois, continuou com o texto do Alcy, como se fosse continuidade do comentário. Foi uma “cochilada” do editor deles. No conjunto, parece que todo o texto é do Alcy, pois a primeira parte não conclui com a assinatura do autor do cometário. Eu olhei a primeira parte e notei algo estranho, e vi que não podia ser do Alcy, apesar de também não ser de caráter técnico; mas percebi que também não tinha formatação literária, e que era de natureza opinativa (o que também é válido, pois é importante saber a opinião de todos sobre o assunto, inclusive dos leigos em transporte hidroviário).

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  3. Melhorou, agora faz sentido, primeiro uma obra literária sobre a navegação fluvial, após uma explicação técnica, ficava difícil lendo

    “Também quero…..” saber o que o indivíduo queria.

    Cuidado com o Ctrl C e Ctrv V.

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  4. É facil identificar qual parte do artigo é texto do Alcy Cheuiche, em todo caso, informo que é o texto que segue o título “Um ônibus cortando o Guaíba”. A parte que vem antes desse título não está assinada, mas não é texto da autoria desse grande literato, escritor e poeta. Semanas atrás, encontrei o Alcy no aniversário do Victor Hugo, no pub do sindicato dos bancários (rua da ladeira). Sua presença sempre é motivo de alegria para os amigos e admiradores. Mas o que me impressionou, de fato, foi uma manifestação poética do Alcy sobre as razões de um casal de amigos, Leá e Antônio (Totô), estarem tanto tempo juntos – ele falou do amor. Foi no aniversário desse meu grande amigo de Caçapava, Antonio de Pádua Cheuiche Ferreira (81), que também é dos Vargas (primo-irmão do Alcy), lá no Clube Farrapos. Totô já está com 82 anos – mas, Caçapava não se entrega! O texto do Alcy é impecável, e ficou melhor ainda nessa crônica sobre o transporte hidroviário de passageiros nas águas do Rio Guaíba. O artigo acima referido foi publicado em Zero Hora (26/02/2011).

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  5. Caro Gilberto

    Depois de ter lido o texto acima e feito alguns comentários procurei no Site do SPH o texto em questão. Verifiquei que não ficou claro para mim a autoria do texto, se foi o superintendente da SPH ou Alcy Cheuiche.

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    • Rogério e Hermes: Desculpe a confusão. Publiquei inicialmente o comentário do Diretor da SPH-RS, Vanderlan Vasconselos, sobre o artigo do Alcy Cheuiche, publicado em ZH de 26/02/2011, mas sem o artigo. Agora já consertei o erro. Estão no mesmo post, o artigo original e o comentário do Diretor da SPH-RS retirado do seu perfil do FaceBook. Desculpe o transtorno. Gilberto Simon

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  6. Ah meu velho… ESSA EU QUERO VER!

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