ESPECIAL JORNAL DO COMÉRCIO: Porto Alegre enfrenta o desafio de se reinventar para crescer

Estudo aponta queda no desempenho da economia e quais são os ramos que podem impulsionar o desenvolvimento da cidade

Porto Alegre vive o desafio de encontrar caminhos para aumentar sua força econômica JOÃO MATTOS/JC

Porto Alegre precisa desenvolver os alicerces de uma nova economia. Após substituir a base industrial pela de serviços, hoje 86% do Produto Interno Bruto (PIB), a cidade com 1,4 milhão de habitantes e que comemora nesta semana 239 anos, tem pela frente a prova da conversão produtiva. Estudo encomendado pela Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio (Smic) mapeou como ramos potenciais para o desenvolvimento a tecnologia da informação e comunicação, a biotecnologia, a construção civil sustentável, o turismo de saúde, a indústria criativa (cultura e lazer) e os polos comerciais.

O coordenador do diagnóstico realizado pela Agência Futuro Consultores, Gustavo Grisa, acopla ainda a necessidade de maior promoção e marketing de Porto Alegre para o resto do País e para o exterior. “A cidade não tem um plano de desenvolvimento. É preciso aliar promoção dos seus potenciais e valorização de sua mão de obra”, resume Grisa, acrescentando ainda no cardápio futuro uma maior agilidade na tramitação de projetos de investimento nas secretarias, gargalo que costuma ser reclamado pelo setor da construção civil. O estudo da agência sinalizou áreas potenciais e ações públicas, desde a melhoria da infraestrutura (mobilidade e a revitalização do Cais Mauá), ambiente favorável a investimentos e mais organização na estrutura. “É preciso colocar o planejamento no centro da estratégia da cidade.”

Para validar a tese da qualidade de profissionais, o consultor cita que Porto Alegre concentra maior percentual de graduados em nível superior e com mestrado e doutorado comparado a outras grandes capitais, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba. O confronto com as cidades mostra ainda vantagem quando se trata de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). O titular da Smic, Valter Nagelstein, admite que a herança recente de transição econômica colaborou para a estagnação da atividade. O secretário, que contratou o diagnóstico, cita que a primeira atitude será definir um plano de desenvolvimento, já em gestação. Fizemos o diagnóstico, sabemos o caminho e vamos trabalhar. 

Segundo Nagelstein, a janela da Copa do Mundo de 2014 acelerará as obras para qualificação dos equipamentos públicos. Até a área de incentivos, que registra guerra fiscal e maior poder de fogo em municípios na Região Metropolitana e no Interior, oferece mais dificuldade. Se estamos perdendo empresas convencionais, precisamos atrair as chamadas novas indústrias, em tecnologia da informação (TI) e maior inovação, pauta o secretário. Um dos focos é maior impulso a parques tecnológicos. Nagelstein adianta que negocia com um grupo de São Paulo a instalação de um parque privado na zona Sul. A prefeitura também deve firmar convênio com a Ufrgs para repasse de um terreno próximo ao Centro, onde será erguida a sede da incubadora na área de engenharia e física.

Grisa aponta que o plano deve contemplar ainda o chamado city marketing. “Temos de definir como queremos ser vistos pelo mundo”, cita o consultor, lembrando do Mundial de 2014. A presidente do Convention Bureau de Porto Alegre, Berenice Lewin, reforça que é preciso qualificar equipamentos, como a implantação de um centro de eventos mais central, já em negociação por entidades. “Porto Alegre está bem melhor hoje, mas podemos avançar na organização da área receptiva, com bons materiais de informação, roteiros e melhor sinalização.”

TI e novas qualificações exigirão ação do setor público

O presidente da regional gaúcha da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação (Assespro), Reges Bronzatti, revela a angústia ante a crescente demanda por profissionais na área e a escassez de mão de obra em Porto Alegre. Estima-se que um quarto das vagas de TI no Estado esteja na Capital. São mais de 20 mil postos entre os 80 mil do setor e com potencial para muito mais, adianta Bronzatti. “A Capital tem uma característica singular por reunir diversas universidades, mão de obra qualificada e empresas que abastecem o mundo com produtos e serviços”.

Mas o segmento reclama maior articulação do setor público e privado para suprir deficiências. A mais grave é de profissionais, de nível técnico a superior. “Porto Alegre corre o risco de perder espaço e oportunidades para outras cidades que estão melhor estruturadas, como São Leopoldo e Novo Hamburgo”, alerta o dirigente. Os dados da economia gaúcha dão sinais desse ambiente: a FEE apurou que o desempenho dos serviços de TI na Capital ficou abaixo da média estadual. Em 2008, o segmento porto-alegrense cresceu 17%, enquanto em nível estadual o salto foi de 18,3%.  

O impacto das funções ligadas à Tecnologia da Informação é provado pelos dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) da Capital, apurada pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e outras instituições, como a FEE. Entre 2001 e 2007, o ramo onde se situam as vagas liderou a expansão de vagas, passando de 43 mil para 67 mil. “Foi o campeão absoluto na geração de postos”, confirma um dos coordenadores da PED local, o economista Eduardo Schneider. O especialista cita que o segmento foi incluído no diagnóstico para cursos de qualificação, em funções de montador e manutenção de computadores.

Setores emergentes da ocupação também devem demandar mais especialização, segundo o economista. Com a consolidação de serviços como maior empregador na Capital (68% da ocupação em 2010, seguido por 15,4% do comércio, 6,9% da indústria, 5,2% de serviços domésticos e 4,3% da construção civil), Schneider alerta para nichos como cultura e lazer. “São áreas em que é mais difícil multiplicar a mão de obra. Exigem maior conhecimento. O desafio é pensar a qualificação dentro das novas vocações”, projeta o coordenador da PED.

Participação no PIB do Estado diminui 12% em 10 anos

Peso do setor de serviços explica menor importância, avalia Colombo Foto: Claudio Fachel/JC

Porto Alegre perde cada vez mais espaço na economia gaúcha, passando de 21,1% do PIB estadual em 1999 para 18,4% em 2008 (último dado disponível). Segundo o responsável técnico do Núcleo de Contabilidade Social da Fundação de Economia e Estatística (FEE), Jefferson Augusto Colombo, o recuo de 12% na fatia da riqueza resume um ritmo flagrantemente mais lento no avanço da riqueza. Colombo informa que o PIB local nominal cresceu 235,9% em dez anos, enquanto o gaúcho avançou 269,5%.

“Apenas em dois anos (2002 e 2005) o PIB local subiu mais que o estadual. A importância exacerbada do ramo de serviços é a chave da menor importância da Capital”, adverte o responsável técnico do núcleo da FEE, lembrando que 86,5% da economia se concentra no ramo. Colombo cita ainda que o fenômeno não é privilégio de Porto Alegre, segue desconcentração das grandes cidades para o Interior.

 

Área farmacêutica e de saúde também tem potencial na Capital

Pedro e José Rosito levaram a Lebon para o distrito da Restinga ANA PAULA APRATO/JC

Na área farmacêutica, também aposta do plano, um caso que virou exemplo de potencial é a indústria de medicamentos e produtos de saúde para o setor hospitalar Lebon, que ocupa área no Distrito Industrial (DI) da Restinga. Com mais de 30 anos e dirigida hoje pelos jovens irmãos Pedro e José Rosito, a empresa é única no segmento na Capital, tem clientes em todo o País e exporta 15% da produção para a América do Sul.

O diretor José Rosito ressalta que a mudança para o DI há dez anos gerou condição de forte expansão da atividade. Para o diretor do Laboratório Lebon, uma política local que amplie o segmento deve abrir mais mercado. “Precisamos de mais acesso a crédito para manter alto investimento em pesquisa e inovação”, cita ainda Rosito. Um polo farmacêutico forte ajuda em maior reconhecimento de nossos produtos lá fora, aposta o industrial, que projeta novas expansões e ingresso em breve da marca nos mercados americano e europeu.

 

Fonte: Jornal do Comércio



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34 respostas

  1. “Pois é, Augusto, segundo a reportagem Porto Alegre tem o maior número de catadores de lixo, flanelinhas e pichadores com mestrado e doutorado no Brasil.”
    Evidente, Ricardo. Nosso lixo é melhor do que o dos outros. É um lixo mais cult.
    Poderíamos até ter um selo e um certificado de exclusividade: Cult-garbage, expressão que só Porto Alegre teria o direito de usar…assim como o champange só a região homônima francesa tem propriedade.

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  2. Pois é, Augusto, segundo a reportagem Porto Alegre tem o maior número de catadores de lixo, flanelinhas e pichadores com mestrado e doutorado no Brasil.

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  3. Essa ideia do lixo nao e’ ruim, eu lotaria containers de lixo daqui e mandaria para ai, mas, para dar certo nao podes dizer que sera para obter LUCRO, palavra essa que se tornou em palavrao. Mas se dizer que sera para a “edificacao da cidadania e absorcao e criacao de politicas etno pisco sociais” ou qualquer coisa assim que diga” social” e “cidadania” te garanto que sera criado amanha!!!

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