Loteamentos estão favelizados

Condomínios populares construídos pela prefeitura para acabar com a falta de habitação mostram sinais de deteriorização

No loteamento Pampa, no bairro Farrapos, as casas foram transformadas em sobrados - Crédito: VINÍCIUS RORATTO

Os loteamentos habitacionais construídos com o objetivo de acabar com a favelização na entrada de Porto Alegre e garantir melhor qualidade de vida às famílias que viviam naquelas áreas irregulares se transformaram em um novo problema para a administração municipal. Os condomínios formados por sobrados ou casas térreas estão repletos de irregularidades e, mantida a velocidade com que estão se deteriorando, a tendência é que em curto espaço de tempo a prefeitura tenha novas favelas a remover.

O Loteamento Santa Terezinha, no bairro Floresta, transformou-se no exemplo perfeito da deterioração. Os moradores, oriundos da Vila dos Papeleiros, aos poucos garantem às novas moradias as características dos casebres em que viveram em um passado não muito distante.

Os seus habitantes estão mudando, “na marra”, o projeto arquitetônico original, por meio da ampliação das moradias, sem qualquer interferência do poder público. O loteamento abriga uma infinidade de “puxadinhos” de todos os tamanhos dispostos, na maioria dos casos, no fundo dos terrenos. As ampliações clandestinas foram feitas com os mais diferentes tipos de materiais de construção, incluindo tijolo e madeira.

Muitos moradores também construíram muros ou simplesmente implantaram cercas de madeira na frente dos imóveis. As obras executadas, com diferentes e questionáveis padrões de qualidade, se transformaram em um cartão de visitas nada recomendável para uma cidade-sede da Copa do Mundo de 2014. A situação poderia ser um pouco melhor não fosse a elevada quantidade de lixo espalhada pelas ruas internas.

Como a maioria dos moradores retira o sustento da reciclagem de resíduos sólidos, a alternativa foi transformar os imóveis em pequenas unidades de transbordo. O material sem valor comercial é lançado na via pública, colaborando para a proliferação de insetos e ratos, o que está atormentando vizinhos, empresários e comerciantes das adjacências.

O quadro de degradação não é exclusivo do Santa Terezinha. Em praticamente todos os loteamentos criados, por intermédio do Departamento Municipal de Habitação, as irregularidades são visíveis. O presidente da Comissão de Urbanização, Transportes e Habitação, da Câmara Municipal da Capital, Pedro Ruas (PSol), ressalta que a problemática será analisada na reunião ordinária desta terça-feira.

“Se o poder público não intervir, a situação ficará ainda pior em 2012”, projeta. Ruas afirma que candidatos clientelistas à Câmara certamente se aproveitarão da vulnerabilidade dessas famílias para “trocar votos por material de construção”. “A favelização desses loteamentos não é culpa dos moradores de baixa renda, mas da falta de apoio do poder público”, adverte Pedro Ruas.

”Nova” vila Dique tem cara de velha

Puxadinhos, cocheiras, má conservação e lixo imperam na vila - Crédito: VINÍCIUS RORATTO

Inaugurada efetivamente em 15 de outubro de 2009, com a transferência das primeiras 48 famílias, a nova vila Dique ainda não foi totalmente implantada. No entanto, passados 17 meses desde a sua inauguração, o aspecto visual é de que o loteamento tem mais de uma década de instalação. As famílias, que antes viviam na condição de vizinhas do Aeroporto Internacional Salgado Filho, agora moram nas proximidades do Complexo Cultural do Porto Seco, mas não perderam alguns hábitos, como edificar “puxadinhos”.

Além das construções precárias, de fundo de quintal, alguns moradores cercaram a faixa de terreno frontal improvisando a construção de cocheiras para abrigar os cavalos, necessários no transporte de resíduos sólidos para reciclagem. Há quem diga que o quadro se agrava com a mesma rapidez com que os operários finalizam a construção do loteamento. São tantas obras paralelas que fica difícil apurar a real quantidade. Os primeiros problemas também começam a surgir. Algumas casas começam a apresentar rachaduras nas suas estruturas.

“Há imóveis rachando com apenas quatro meses de uso”, relatou um dos líderes comunitários do local, Gilberto Comin, 37 anos. De acordo com ele, as ampliações das moradias são inevitáveis, considerando-se o tamanho dos sobrados. A dona de casa Andréia Neli Maciel Rodrigues, 23 anos, ainda vive no sobrado original, mas certamente por muito pouco tempo. Mãe de três filhos, ela afirma que necessita de um terceiro quarto e de uma expansão da sala construída na extensão da cozinha. “Tão logo tenhamos condições financeiras, vamos construir”, planeja Andréia, salientando que a maioria dos vizinhos já “transformou” os sobrados para poder garantir um maior espaço.

Correio do Povo



Categorias:Favelização

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43 respostas

  1. Só sabem valorizar quando sai do próprio bolso, pois mal sabem eles que o dinheiro que usaram para construir esses apartamentos, foi o dinheiro que saiu do bolso deles…

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  2. Concordo com o Daniel, seria muito mais interessante fazerem, com o mesmo dinheiro, prédios de apartamentos, ao invés de um conjunto de casinhas populares. Com isso esses imóveis poderiam ser maiores adequados a famílias maiores.

    PS: de qualquer maneira, continuo achando que essas casas ou apartamento “populares” deveriam ser pagos de alguma forma pelo beneficiado, para que assim ele valorizasse o que recebeu.

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  3. Fazer uma ampliação na casa até pode fazer sentido, mas fazer de qualquer jeito acaba degradando o local.

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