ARTIGO: A maconha no poder, por Flávio Tavares*

A medíocre constelação de políticos que nos governa só não é pior nem se exaure nas trevas porque nela despontam algumas estrelas com luz própria, em condições de apontar caminhos. Entre nós, por exemplo, Tarso Genro foi sempre uma dessas escassas figuras lúcidas e sóbrias, capazes de entender o futuro a partir das lições do passado para interpretar o cotidiano. Por isto, foi visto como aglutinador e elegeu-se por folgada maioria absoluta.

Mas, o que dizer quando o governador Tarso Genro, ao proferir a aula magna da UFRGS, faz a defesa (quase apologia) do uso da maconha e, entre risos e aplausos, tece uma frase digna da antologia da tolice: “Nunca vi uma pessoa matar por ter fumado um cigarro de maconha!”.

E quem fuma cigarro de tabaco, mata? Por isso se restringe o tabaco ou se proíbe a propaganda na TV e rádio?

Se fosse conversa em roda de bar em fim da tarde, nada a objetar. Pode-se dizer que nunca vimos ninguém matar por beber cerveja e que o alcoolismo do “happy hour” não oferece perigo letal. No entanto, aula magna de Universidade é outra coisa: busca transmitir e amalgamar conhecimento. Ali, não se opina por opinar, nem se está num comício em busca de votos, mas tentando aprofundar teses num nível científico e inteligível.

***

Os “bixos” (ansiosos em conhecer o saber novo da Universidade) o que assimilarão para o futuro ao ouvirem o governador dizer que, na mocidade, só não usou maconha por questão de segurança, pois eram tempos de clandestinidade na ditadura, mas que sabe que a Cannabis “é muito saborosa”??

O uso das drogas é tema candente e é perverso não apenas por seu “componente econômico”, que chega ao poder e à política, como sustenta o governador. A perversão vai muito além e é inumana porque a droga afeta e degrada o sistema cerebral, em maior ou menor grau. A droga é a única doença que se semeia, que se vende e se compra. Sua maldade intrínseca é ser o oposto à beleza da vida. Ao viciar, subjuga e escraviza e, assim, se opõe aos princípios da liberdade humana, da iniciativa pessoal e do livre-arbítrio.

Não entendo como o lúcido Tarso Genro escorregou nessa casca de banana e sustentou a falácia trôpega (típica de “happy hour”) de que “muitos especialistas dizem que a Cannabis sativa faz menos mal do que o cigarro”. Estes “especialistas” em nada se especializaram e ignoram que a maconha entorpece o raciocínio, torna tudo lerdo, retarda a volição e a libido.

E, pior ainda, é porta de entrada ou caminho de passagem para “subir” às drogas pesadas, como heroína ou cocaína. Ou para “descer” à crueldade do “crack”.

***

O cidadão Tarso Genro tem suficiente formação intelectual para pensar e agir como queira, consultando apenas suas inclinações. Proferiu a aula magna, porém, na condição de governador estadual e, como tal, deve ser intérprete da coletividade que governa e à qual está subordinado. Pretender o contrário (que os governados se subordinem ao governante) seria voltar à carcomida ditadura. E ele (que, como muitos de nós, se opôs aos tempos ditatoriais) sequer imagina esse absurdo.

Para marcar o fim dos preconceitos e dos absurdos, foi elucidativo que tenha citado Marx e Heidegger para falar de democracia e República. Mas foi penoso ouvi-lo dizer que não tem “nenhum preconceito” com as drogas.

Brutal é ter preconceito ou discriminar o usuário da droga, vítima num processo escabroso. Mas entre a perversão e a vida, não há escolha. A não ser que se dê todo o poder à maconha…

*Jornalista e escritor

(Já que não temos muitas novidades neste feriado prolongado de Páscoa, posto este artigo que nos faz refletir sobre os nossos governantes)



Categorias:Artigos, Saúde

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17 respostas

  1. Acho um absurdo todo esse moralismo envolvendo maconha. Se faz mal ou não, tanto faz, a pessoa tem que decidir o que é bom ou não para ela… a questão é a pessoa fazer isso de forma legal ou não… legalmente existem impostos que podem ser revertidos para tratamento, controle de qualidade sobre a droga diminuindo os danos sobre a saúde e dados sobre quanto é vendido, para que faixa da população, qual a relação entre consumo e vicio… muito mais fácil para ir moldando as políticas quanto a isso analisando o seu consumo. Na ilegalidade não há controle nenhum, nem sobre quem vende, nem sobre quais métodos essa produção, distribuição e venda são feitos… dando margem ao uso da violência (já que não existem meios legais para regular essa venda), não há controle de qualidade… os danos pioram porque se consome maconha com amonia, pedaços de madeira e em alguns casos até crack. Ao invés de gerarmos dinheiro com isso e investirmos em saúde, agora se proibe, deixa o mercado ilegal lucrar milhões e investe-se um dinheiro que poderia ir para outra área comprando bala de fuzil para invadir favela. Parece racional? Não para mim…

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  2. Cientificamente está comprovado que o uso constante da maconha causa supressão neural. (perda de neurônios). O usuário contumaz vais predendo progressivamente a capacidade de pensar, raciocinar. Há uma perda na capacidade cognitiva, e essa perda torna-se permanente.

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  3. O mecanismo é o seguinte. O neguinho tem uma turma. A turma começa a usar maconha e sugere que ele use pra experimentar. O cara usa, já que se não usasse iria ser discriminado pelo grupo e até escanteado. O cara experimenta, todo mundo usa…daqui a pouco alguém do grupo vem com ouros lances…um lsd, um skank, um exsatse, um rebite qualquer..aí lança no grupo, os outros experimentam…depois pra chegar no pó e no crack é um pulinho. Isso sem falar nos traficantes que estão colocando crack na maconha.

    Depois..bem…depois a família dos viciados que se f*** né. Aí quem trabalha, paga imposto e sustenta o colégio dos filhinhos, que trate de se incomodar mais ainda pra fazer o vagabundo largar as drogas. gastam com médicos, clínicas, internações, etc. Que maravilhosa sociedade estamos criando…onde alguns trabalham para sustentar drogados? Que porcaria de sociedade é essa?

    Outra pergunta. Tu gostarias de saber que um filho teu tá usando maconha? Te importarias com isso ou não? Se seguires a tua lógica, obrigatoriamente a tua resposta tem que ser – NÃO.

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  4. “Augusto, mas quem quer usar drogas mais pesadas vai usar, independente de ter fumado maconha ou não. Então, onde é que você está querendo chegar?”

    Estou querendo chegar na chegada. Todos aqui sabemos que via de regra a maconha é a primeira opção para quem quer se drogar ou curtir um “barato”. Ninguém começa injetando heroína na veia. Começa do mais leve pro mais pesado..que nem na academia.
    A discussão se maconha é leve ou não é na verdade irrelevante. A faceta que realmente importa é que quando alguém inicia um namoro com a maconha, pode acabar acabar casando com o crack.
    Se a maconha vicia ou não, nem entra como variável nessa discussão. O essencial é que grande parte das pessoas que curtem maconha….são potenciais usuários de drogas mais pesadas e viciantes.
    Liberando-se a maconha….abrem-se as portas para outras dependências psicotrópicas.
    Porque muitas pessoas viciam-se em cocaína ou crack? Porque antes de tudo, começaram pela maconha….cujos efeitos passaram a não ser mais tão intensos quanto das primeiras vezes. Passam então para outras drogas mais entorpecentes. Além do mais, há toda a poderosa influênmcia do grupo, da turma de amigos, que incentiva o uso de drogas por parte de seus membros. Tenho dois sobrinhos viaciados e sei bem como funciona isso.

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  5. Errata: No comentário acima, eu quis dizer “nenhuma pesquisa” e não “nem uma”.

    E só pra complementar, é cego ou conformista quem não vê que quem lucra com a proibição são todos, menos a população. São os traficantes, são as empresas farmacêuticas (não precisa mais do que alguns minutos de pesquisa pra saber que a canabis é uma das plantas mais medicinais, se não a mais medicinal, já conhecida pelo homem e é por isso que ela era idolatrada pelos indigenas muito antes de se saber da combustão), que preferem patentear um remédio químico e lucrar em cima disso do que deixar uma pessoa em casa plantar um pézinho e se curar com a mesma eficácia. Além, claro, dos corruptos, que fazem vista grossa aos traficantes e lucram tanto quanto eles. A sociedade só sai perdendo nessa briga de “legaliza ou não legaliza”, e o Tarso, obviamente, sabe disso.

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  6. Augusto, mas quem quer usar drogas mais pesadas vai usar, independente de ter fumado maconha ou não. Então, onde é que você está querendo chegar?
    Eu fumo maconha há quase 2 anos e nunca, NUNCA, usei outras drogas. Sim, tive oportunidade diversas vezes, apenas sou mais sensato. A maconha é comprovada cientificamente não ter QUAISQUER substâncias viciantes, já o pó (cocaína), crack, entre outros, não precisa nem uma pesquisa científica pra saber que o teor viciante é alto.
    A sociedade tem um preconceito contra a maconha que é um preconceito na verdade muito explicável, ao ler isso muitos vão dizer “pronto, lá vem aquele cara copiando letras de música de reggae”, mas é a mais pura verdade, a maconha tem esse preconceito porque a mídia quer. Aliás, o Flávio foi completamente infeliz ao dizer que nunca viu ninguém matar por beber cerveja. Sério, nunca viu? Está precisando se informar mais.

    Quanto aos efeitos prejudiciais, SIM, a maconha tem, como praticamente toda substância psicoativa. Não vou ser hipócrita ao ponto de dizer que ela é só maravilhas. Mas esses efeitos não chegam a câncer de pulmão, nem à cirrose, e isso não se comprova por pesquisas científicas mas simplesmente por “censo”. Nos estados unidos, mais de 50% das casas têm usuários de maconha constantes e nenhum apresenta problemas do tipo cânceres ou problemas graves. A única coisa que é comprovada é que a maconha pode ACELERAR (e não CAUSAR, como algumas pessoas acham) a depressão e problemas psicológicos. Os prejudícios dela a longo prazo são altamente discutíveis, enquanto, a curto prazo, todos sabemos: a famosa falta de memória, fome, desatenção, entre outros.

    O preconceito contra a maconha já virou um tabu chato e desnecessário. Se não gosta, tenha apenas a sensatez de ver os pontos positivos de uma possível legalização REGULAMENTADA. Além dos pontos óbvios, como lucro com impostos e maior qualidade do produto (diminuindo assim, ainda mais os prejudícios que já são pequenos), o fim do tráfico, que é o que todo mundo critica na maconha.

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