Uma civilização onde as bicicletas tem espaço

Rodrigo Lopes, De Berlim

Antes de chegar a Berlim, o senhor alemão que iria me hospedar, Heiner Schuster, certamente preocupado em me  agradar, me perguntou pelo Facebook?

– Rodrigo, você gosta de andar de bicileta pela cidade?

Fiquei constrangido. O que eu deveria responder…? Gostar de pedalar, eu gosto, mas minha bicicleta está mofando no meu quarto em Porto Alegre há pelo menos um ano. Devo eu dizer ao Heiner que, na cidade de onde venho, alguns motoristas tentam matar os ciclistas, muitas vezes chegando a vias de fato, atropelando-os de forma bestial?

Pois bem, cheguei a Berlim nesta tarde. Saí para caminhar pelos arredores do bairro onde ficarei hospedado pelas próximas três semanas, muito perto da torre da Alexanderplatz, um dos marcos da antiga Berlim Oriental. Não me afastei mais do que três quadras da casa onde estou. Fui até uma praça aqui ao lado, que lembra muito a Redenção, com casais, amigos estirados na grama do domingo, ao sol, e tudo o quanto é coisa pra vender: arte, artesanato, móveis velhos e muita, mas muita quinquilharia. Estava eu andando despercebido, quando escutei uma buzina de bicicleta atrás de mim. Eu não dei bola. O menino que não tinha mais do que 12 anos, insistiu. Eu olhei para trás. E vi que eu estava errado. Eu caminhava pelo lugar dele: a ciclovia.

Aqui, como mostra a foto acima, a ciclovia não tira espaço dos carros, tampouco dos pedestres. Ela fica em uma área segura, sobre a calçada, mas delineada por pedras de outras cores. Assim, pedestres, ciclistas, motociclistas e carros não disputam espaço (uma expressão tão batida, mas que infelizmente aí em Porto Alegre, nós, da imprensa, somos obrigados a repetir). Aqui, cada um tem o seu lugar, o seu quadrado.

– A ciclovia é sagrada – disse-me uma das primeiras pessoas que encontrei aqui hoje.

Na sinaleira vermelha para os carros, as bicicletas também param. E na hora de os pedestres cruzarem a rua, não vem carro nenhum, mas ninguém atravessa no sinal vermelho. Por que será? Fico ansioso… Como se eu que estivesse errado. A rua está vazia, mas, aos poucos, mais gente se acumula ao meu lado, na calçada. Fico tentado a botar o pé no asfalto. Mas ninguém o faz… Sabe aquela sensação de quando a gente está em Gramado,em que  os carros respeitam a faixa de segurança só porque estão em Gramado?

Foi algo assim que senti aqui. As pessoas respeitam na Alemanha porque essa é a lei. E a lei manda atravessar a rua só com sinal verde para pedestres. Não há agente de trânsito, não há policial para multar. Apenas há a consciência do que é o  certo.

Não estou dizendo que Berlim é o paraíso. Eu prefiro mesmo é Porto Alegre, onde os motoristas atropelam ciclistas, o motociclistas não respeitam o retrovisor dos carros e os pedestres se jogam na frente dos veículos. Prefiro porque, apesar de ter rodado meio mundo, muito dele de solo ensanguentado, Porto Alegre é a cidade que eu nasci e escolhi para viver, onde tenho amigos e familiares.

E quero ajudá-la a ser melhor.

Nestas três semanas, em que farei um curso sobre a história da Alemanha, no Instituto Goethe, em Berlim, onde desembarquei nesta tarde, quero tentar trazer aqui no blog, em textos, vídeos e fotos, um pouco do que temos a aprender com esse povo, que, de certa forma, já nos ensinou muito em séculos anteriores aí no Rio Grande do Sul.

Ah, ainda não sei o que vou responder ao Heiner sobre se andamos de bicicleta em Porto Alegre… Mas vou descobrir como. Talvez andando por aqui, em Berlim.

Forte abraço

O porto-alegrense Rodrigo Lopes, 32 anos, é colunista de Mundo de Zero Hora, comentarista de notícias internacionais da Rádio Gaúcha e repórter multimídia da RBS. Faz participações diárias no programa Chamada Geral (II edição), na Rádio Gaúcha. Como Enviado Especial do Grupo RBS, cobriu a morte de João Paulo II e a eleição de Bento XVI no Vaticano, a catástrofe do furacão Katrina, em New Orleans, o terremoto no Peru, a guerra entre Israel e o Hezbollah, no Líbano, a eleição e posse de Barack Obama, o resgate dos mineiros no Chile e a crise na Líbia.



Categorias:Bicicleta, ciclovias

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5 respostas

  1. Berlim só tem uma vantagem sobre Porto Alegre. A elevada concentração de alemães em sua população.

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  2. Muito legal aquela calçada, no só a ciclovia mas a parte de pedestres também é bem espaçosa.

    Mas é complicado, note como as cidades deles não tem absolutamente nada a ver com as nossas. Além de terem outra categoria de transporte em massa, tem uma malha urbana muito diferente. Por exemplo, acho que nunca vi uma foto de Berlin com aquelas ruas ridiculamente estreitas com prédios de 20 andares pendurados na calçada, como vemos aqui no centro (para pegar o pior caso). Sem falar nestas outras questões de relevo, cultura, etc.

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  3. É verdade, Berlim é uma cidade com muitas bicicletas e relativamente poucos carros circulando. Aliás este é um movimento europeu, outras cidades estão neste caminho, acho que a precursora entre as grandes foi Amsterdam. Mas, lá a geografia é plana, o que facilita. Também as pessoas não suam como aqui. Mas é uma delícia, o problema para quem não está acostumado é o risco de ser atropelado por uma bicicleta. Passear pela cidade pedalando é maravilhoso.
    Pedro

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  4. Que inveja!
    A qualidade das calçadas, o respeito entre pedestres, ciclistas e motoristas, a limpeza das ruas.
    Acho que o Brasil jamais será uma nação desenvolvida, pois, aqui, é cada um por si, as pessoas não vivem em sociedade e não pensam no bem estar de todos.

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  5. Olá, nada referente ao post…

    Vocês viram isso?

    Mensagem para o Prefeito: http://migre.me/4ugh4

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