Depois do glamour, o abandono do 4º Distrito em Porto Alegre

Prefeitura promete revitalizar a área antes da Copa do Mundo de 2014

Depois do glamour, o abandono do 4º Distrito em Porto Alegre. Foto: Pedro Revillion

Um dos principais polos de desenvolvimento econômico de Porto Alegre, o 4º Distrito – formado pelos bairros Floresta, São Geraldo, Navegantes, Anchieta, São João, IAPI, Passo D”Areia, Humaitá e Farrapos – vem, ao longo dos anos, perdendo o seu glamour. No passado, o comércio da região era o principal destino de moradores da cidade e de outros municípios da região Metropolitana, em busca de produtos e serviços.

O ápice do desenvolvimento ocorreu entre o final dos anos de 1960 e início dos anos de 1970, com grandes redes comerciais instaladas especialmente nas avenidas Eduardo (atual Presidente Franklin Roosevelt), Farrapos, Benjamin Constant, São Pedro e Cristóvão Colombo e a centralização de indústrias Neugebauer, Coca-Cola, Fiateci, Brahma e Moinhos Guaíba. No entanto, a falta de planejamento urbano, que manteria o crescimento do polo comercial e de serviços, provocou o esvaziamento em alguns bairros. Condenado, há até bem pouco tempo, a abrigar depósitos, algumas pequenas e médias indústrias e uma infinidade de prédios em precárias condições ou completamente abandonados, o 4º Distrito caiu no esquecimento do poder público e, por consequência, dos investimentos. O abandono fez com que antigos moradores fossem embora em razão do surgimento de áreas de prostituição e tráfico de entorpecentes.

Na tentativa de alterar este perfil, a Prefeitura de Porto Alegre vem realizando melhorias, e promete devolver a vida ao 4º Distrito antes da Copa do Mundo de 2014, para a alegria do serralheiro Dirceu Ribas, 42, estabelecido na esquina das ruas Rio Grande e Ernesto da Fontoura. “Estamos esquecidos. Quando chove, os alagamentos são frequentes e o lixo acumulado sobre as calçadas acaba obstruindo as bocas de lobo”, lamenta. Ribas afirma que sempre encerra o expediente da serralheria antes das 18h. “Quando o sol se põe, a região se transforma em cidade-fantasma”, compara.

O microempresário Paulo Ricardo Wiebbeling, 49 anos, recorda do passado pujante com saudosismo. “O 4 Distrito era o point do comércio. Abrigava dos pequenos comércios às grandes indústrias”, lembra. Segundo o serralheiro, basta percorrer algumas ruas dos bairros Floresta e São Geraldo, como a São Paulo, por exemplo, para encontrar prédios que estão em completo abandono, e, por isso, acabam atraindo desocupados, profissionais do sexo e usuários de entorpecentes, que costumam igualmente frequentar a praça Pinheiro Machado. “Não há como levar as crianças para brincar, devido à presença de pessoas embriagadas no local”, relata a dona de casa Marília Barreto, 32 anos.

Moradores são reféns do medo

O virtual abandono é mais visível nos bairros Floresta e São Geraldo, onde há maior número de prédios residenciais e comerciais em precária situação. A deterioração dos imóveis – muitos deles desabitados – transformou o 4º Distrito em “zona velha” da cidade. E são esses prédios que servem de abrigo, durante as madrugadas, para autores de pequenos delitos e usuários de drogas. Os moradores não hesitam em afirmar que a Rua do Parque se transforma em “cracolândia” quando a noite chega.

Morador do bairro Floresta, um comerciante de 42 anos, tornou-se refém do medo. Em apenas dois anos, sua residência, na rua Álvaro Chaves, foi alvo de três arrombamentos e de um assalto. “Para proteger minha família e meu patrimônio, transformei a casa em uma prisão. Há grades em todas as aberturas e no entorno do terreno, além de trincheiras de arame farpado que dificultam a ação dos criminosos”, relata. Ele teme que, na hipótese de ocorrer um incêndio, enfrente dificuldades para deixar a moradia. “São muitas trancas e grades para abrir”, constata ele que, por temer represálias, pediu para não ser identificado.

Na Rua do Parque, no bairro São Geraldo, onde é dono de uma pequena distribuidora de alimentos, é praticamente impossível manter o estabelecimento aberto após as 17h30min. “Por ser uma região basicamente comercial, se torna perigoso manter as portas abertas ao entardecer”, observa. Nos dias em que começa o expediente às 5h, para recebimento de mercadorias, o comerciante costuma “pagar pedágio” para que profissionais do sexo e usuários de drogas não importunem. “Pago para não ter problema”, admite. Ele aponta a existência de focos de lixo em vários pontos da região, sobretudo nas ruas Moura Azevedo, Santos Dumont e do Parque.

O presidente da Comissão de Urbanização, Transporte e Habitação (Cuthab), da Câmara Municipal de Porto Alegre, Pedro Ruas, mostra-se preocupado com o 4º Distrito e promete verificar a situação in loco. “Vamos buscar a origem dessa infinidade de problemas e tentar encaminhar soluções, mesmo que não estejam ao nosso alcance”, observa.

O vereador lamenta que, por muitos anos, o 4º Distrito tenha sido esquecido. “Felizmente, já existe um planejamento estratégico que vai revitalizar e, consequentemente, reurbanizar a região”, destaca. Ruas afirma que o 4º Distrito precisa reconquistar o glamour do século passado, justamente por estar estrategicamente localizado e ter vocação para o comércio. “Por ser estratégico para a cidade, como tal deve ser tratado”, enfatiza.

Objetivo da SPM é a reurbanização

Secretaria de Planejamento Municipal trabalha em várias frentes para melhorar e revitalizar a região

O 4 Distrito surgiu no século XIX com a instalação das primeiras indústrias e a vinda de imigrantes europeus. A região era então ocupada por chácaras. Como corredor industrial, se desenvolveu com a construção da estrada de ferro e da linha de bondes, ligando a Capital ao Interior. Essas condições levaram as primeiras indústrias a se fixarem no local, que viveu um período de desenvolvimento.

Os problemas começaram a aparecer a partir da década de 60 com a retirada de empresas, a construção do muro da Mauá e da linha do Trensurb, que distanciaram a população do Guaíba. A avenida Farrapos também cria dificuldade para o acesso. A atual administração está empenhada em revitalizar o 4 Distrito. O Projeto Integrado Entrada da Cidade (Piec) e a construção do Conduto Forçado Álvaro Chaves foram o ponto de partida para a valorização da região.

O secretário do Planejamento Municipal (SPM), Márcio Bins Ely, revela que o Plano de Revitalização é uma ação do Programa Porto do Futuro. A iniciativa é coordenada pelo Grupo de Trabalho 4 Distrito da SPM, criado com o objetivo de formular diretrizes, planos e projetos concentrados entre o poder público e a iniciativa privada. “A meta é qualificar o espaço urbano de forma ordenada e planejada, buscando o desenvolvimento sustentável da região e a melhoria da qualidade de vida”, afirma. O Plano de Revitalização do 4 Distrito foi dividido em três áreas, sendo apontada como “perímetro preferencial” a região situada entre a Estação Rodoviária e a avenida Sertório (sentido Sul-Norte) e entre as avenidas Farrapos e Castelo Branco.

“Nesta área, a revitalização urbana e a reconversão econômica são prioritárias”, observa. Entre as estratégias de desenvolvimento definidas pelo Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Ambiental encontra-se a de “Produção da Cidade” que busca incorporar as oportunidades empresariais aos interesses do desenvolvimento urbano.

Atividades que atingem moradores

Lixo e detritos acumulados por toda a parte Foto: PEDRO REVILLION

“A revitaliza-ção de uma área urbana se dá através de melhorias na infraestrutura e pela apropriação dos espaços ociosos com atividades que complementem as necessidades dos moradores”, afirma o secretário do Planejamento de Porto Alegre, Márcio Bins Ely. Por conta disso, estão sendo prospectadas áreas para a promoção da densificação populacional por meio da oferta de novas unidades habitacionais, potencializando e valorizando a existência dos imóveis já inventariados.

“A proposta busca a reciclagem e a qualificação de prédios existentes na região”, explica. O secretário argumenta que os bairros do 4 Distrito da Capital têm muito potencial, pela acessibilidade, para o comércio. O esvaziamento foi influenciado, em décadas anteriores, por dois principais fatores: a saída das indústrias que marcavam a atividade econômica do 4 Distrito, e os frequentes alagamentos da região.

As ações da prefeitura contemplam ainda a área que vai do vão móvel do Guaíba ao trecho inicial da avenida Sertório, limitada pela linha da Trensurb e pelo Santuário de Nossa Senhora de Navegantes até a avenida Farrapos. Também estão previstas intervenções no “perímetro do Piec”, entre a freeway e a linha da Trensurb, tendo como limite o bairro Humaitá.

Lofts, bares e restaurantes para o futuro

A revitalização do 4 Distrito está na pauta do Executivo até a Copa de 2014. Os projetos para a região incluem a construção da Arena do Grêmio, a duplicação da rua Voluntários da Pátria (da Sertório ao Túnel da Conceição) e a execução do Terminal Cairú. Apesar da proximidade com o Centro, com a freeway e algumas vilas, é área com grande potencial, atraindo investimentos da construção civil, como Rossi e Espaço Novo, que incluem lofts, condomínios residenciais, bares e restaurantes.

Plano Diretor para atrair investimentos

Os planos para o 4 Distrito passam pelo aumento da população da região. O projeto de desenvolvimento e qualificação terá como aliado o Plano Diretor, que manteve a altura máxima dos prédios da área em 52 metros. A decisão foi estratégica para a atração de investimentos imobiliários e comerciais. Foi a altura um dos fatores que influenciou a Rossi a propor o projeto Rossi Fiateci, empreendimento misto que terá três torres residenciais e uma torre comercial, além de um centro comercial.

Obras viárias e de infraestrutura

  • Conduto Forçado da Álvaro Chaves – Goethe (executado)
  • Substituição da rede de macrodrenagem da avenida São Pedro (em obras)
  • Programa Integrado Entrada da Cidade (em andamento)
  • Implantação do Loteamento Santa Terezinha (finalizado)
  • Duplicação da rua Voluntários da Pátria, no trecho Sertório – Arena do Grêmio (finalizada)
  • Revitalização de 25 praças (em andamento)
  • Duplicação da avenida A. J. Renner (projeto) e da rua Dona Teodora (obra já finalizada)
  • Viaduto Leonel Brizola (finalizado)
  • Duplicação da rua Voluntários da Pátria, no trecho Sertório – Túnel da Conceição (projeto)
  • Conexão do anel viário da BR 448, freeway e rua Padre Leopoldo Brentano, Bairro Humaitá (em execução)
  • Abertura da avenida Farrapos no cruzamento com a rua Ernesto Alves (executado)


Correio do Povo

Uma visão geral do 4º Distrito:



Categorias:Revitalização 4º Distrito

Tags:,

17 respostas

Trackbacks

  1. Depois do glamour, o abandono do 4º Distrito em Porto Alegre | 4º Distrito de Porto Alegre

Faça seu comentário aqui:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: