Aeroporto uruguaio tenta ser centro de conexões do Cone Sul

Em terminal privado inaugurado há um ano, passageiro passa imigração e sai com a bagagem 20 minutos depois do pouso do avião

Aeroporto de Carrasco: capacidade para 7 milhões de passageiros por ano, o dobro da população do Uruguai

Marina Gazzoni, enviada especial do IG a Montevidéu

Os passageiros aguardam 30 minutos com cintos afivelados dentro do avião para iniciar a decolagem no aeroporto internacional de Guarulhos, em São Paulo, rumo à capital uruguaia Montevidéu. Da janela, avistam-se cinco aeronaves desativadas das falidas Vasp e Fly, esquecidas ao lado da pista. A grama está crescida e casas irregulares encostam nos muros do aeroporto. Se a partida aponta as deficiências do maior aeroporto do Brasil, o pouso traz um cenário diferente. A chegada ao aeroporto de Carrasco, situado a 18 quilômetros à leste da capital uruguaia, no departamento de Canelones, acontece em um terminal moderno e um gramado bem aparado a perder de vista. Em 10 minutos, os passageiros desembarcam e passam pelos guichês de imigração. Em um total de 20 minutos após o pouso, deixam o local com as bagagens em mãos.

O aeroporto de Carrasco aposta na eficiência para tentar se firmar como um dos principais centros de distribuição de voos do Mercosul, um hub aéreo. O projeto é resultado de três anos de obras e de um investimento de US$ 165 milhões, valor hoje equivalente a R$ 275 milhões. Em 2003, o governo uruguaio decidiu que o país precisava de um aeroporto mais moderno que o terminal antigo, de mesmo nome, inaugurado em 1947. O Uruguai decidiu desativar o terminal velho e construir um aeroporto totalmente novo, por meio de investimentos privados.

Inaugurado no fim de dezembro de 2009, o aeroporto de Carrasco recebeu 1,6 milhão de passageiros em seu primeiro ano de operação, 27% a mais do que chegaram ou partiram de Montevidéu no ano anterior por meio do terminal antigo, de acordo com informações da Puerta Del Sur, a concessionária responsável pelo empreendimento e uma das empresas do grupo Corporación América, que está à frente da gestão de 50 aeroportos em todo o mundo.

Movimentação de passageiros

O volume de operações ainda é pequeno se comparado aos 26,7 milhões passageiros que passaram pelo aeroporto de Guarulhos em 2010, de acordo com dados da Infraero. Mas, enquanto o maior aeroporto do Brasil já funciona acima de sua capacidade (de 17 milhões de passageiros por ano), Carrasco tem potencial para receber até 7 milhões de pessoas por ano, mais do que cinco vezes o movimento registrado em 2010 e o dobro da população uruguaia atual, de pouco mais de 3 milhões de habitantes.

Projeto do arquiteto uruguaio Rafael Viñoly (o mesmo do Fórum Internacional de Tóquio, considerado um dos mais importantes complexos culturais do Japão), o terminal ocupa uma área de 45 mil metros quadrados. A parte superior é formada por um teto de vidro curvo de 8.000 metros quadrados, que cobre todo o edifício, favorecendo a iluminação natural. Do lado de fora, um estacionamento oferece 1.200 vagas, e a pista de 3.200 metros foi construída para permitir voos de longas distâncias.

Um aeroporto de conexões

Todo o projeto de construção do aeroporto de Carrasco foi desenhado para ser um local de rápidas conexões. “Fizemos o investimento para montar no Uruguai um aeroporto com um modelo próximo ao que hoje existe no Panamá”, disse ao iG Eduardo Acosta, diretor comercial da Puerta Del Sur. A empresa tenta atrair passageiros principalmente da Argentina e do Sul do Brasil para fazer conexões à Europa e à América do Norte. A Puerta Del Sur aposta na agilidade e no conforto como um dos principais diferenciais competitivos de Carrasco em relação aos terminais internacionais dos países do Mercosul.

Entre os passageiros que já optaram por fazer conexões por Montevidéu está o casal de argentinos Esteban e Patricia Lopez. Residentes em Concordia, na província de Entre Rios, eles viajaram seis horas de carro para pegar um voo em Montevidéu até Miami pela American Airlines. “O preço da passagem e a distância da nossa cidade são iguais para cá ou para Buenos Aires, mas preferimos pegar um voo em Montevidéu em vez de Ezeiza (principal aeroporto argentino) porque o embarque é muito mais tranquilo”, disse Patricia.

Para as companhias aéreas, a agilidade para pousar e decolar em Montevidéu pode oferecer uma redução de custos, possível graças a um aproveitamento melhor das aeronaves. “Em Guarulhos, as companhias levam pelo menos uma hora e meia para fazer uma conexão. Em Montevidéu, é possível fazer o mesmo procedimento em até meia hora”, diz o consultor em aviação Nelson Riet.

Apesar de a Puerta Del Sur apostar na realização de conexões para elevar o volume de operações em Carrasco, o número de companhias europeias e americanas no país ainda é reduzido. Hoje, apenas a Iberia e a American Airlines oferecem voos para a Europa e para a América do Norte. As brasileiras TAM e Gol já oferecem voos para Montevidéu. Mas, a maior parte dos voos é da uruguaia Pluna, que passa por um período de reestruturação com foco em voos regionais para destinos na América do Sul.

Negócio rentável

O aeroporto de Carrasco foi pensado para estimular o consumo. Para chegar à área de embarque ou às esteiras de restituição de passagem, os passageiros passam, necessariamente, pelas lojas da Duty Free. A Puerta Del Sur não divulga a receita do aeroporto, mas diz que quase metade dela provém de estabelecimentos comerciais no local. Na maioria dos aeroportos, apenas 30% do faturamento resulta desses contratos, portanto, a maior parte da receita é de tarifas pagas por passageiros e companhias aéreas.

A decisão de oferecer a concessão do aeroporto de Carrasco à iniciativa privada foi estratégica, afirmou ao iG o diretor-geral do Ministério da Defesa do Uruguai, Jorge Delgado. “O governo anterior entendeu que o terminal antigo não atendia os requisitos básicos de qualidade. Mas o governo tem outras prioridades de investimento, como a saúde e a educação, então eles deixaram a iniciativa privada investir.”

Para ele, a concessão pública foi um bom negócio até para o governo. O País recebeu cerca de U$ 10 milhões líquidos em tarifas aeroportuárias – parte delas vão para os cofres públicos, mas a maioria fica com a concessionária. “Antes poderíamos até receber mais, mas gastávamos mais. Éramos maus administradores”, admite Delgado. A Puerta Del Sur tem o direito de operar o terminal até 2023, com possibilidade de renovação por mais dez anos. Em seguida, o terminal volta para o controle do Estado ou pode receber outro projeto de expansão vinculado à concessão privada.

iG Economia – Fotos: Marina Gazzoni / iG – A repórter viajou a convite da Pluna Linhas Aéreas



Categorias:aeroportos brasileiros, Aviação

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5 respostas

  1. “…Para vocês verem… um pais com uma economia muito menor que a brasileira consegue construir um aeroporto moderno e com uma bela arquitetura…”

    E pela metade do preco que nosso querido governo precisaria para construir um “remendao” em POA.

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  2. Que maravilha de aeroporto.

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  3. Para vocês verem… um pais com uma economia muito menor que a brasileira consegue construir um aeroporto moderno e com uma bela arquitetura…

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  4. Aeroporto limpo, claro, bem organizado e aconchegante. Passei rapidamente pela aduana. O contraste com o cinza do concreto horroroso e da multidão de gente nos de SP é gritante.

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