ESPECIAL 4 – Porto Alegre já foi Dubai, antes mesmo de Dubai

O objetivo deste post é desconstruir a ideia de que Porto Alegre (o RS, enfim, o Brasil) seja um lugar de 3º mundo e por isso tem que se conformar e aceitar que jamais seremos como um lugar de primeiro mundo e portanto devemos nos contentar com a situação atual.
Para destruir essa falsa idéia, há diversas formas de mostrar que nas décadas de 50 e 60 a gente já fazia o que Dubai só faz agora.

Aterro da orla da Praia de Belas: um dos maiores projetos de aterros do mundo na época

Aterro da orla, mostrando o início da construção do Estádio Beira-Rio: um dos maiores projetos de aterros do mundo na época

Aterramos uma área gigante da cidade e no país. Somente o Rio de Janeiro fez algo nas mesmas proporções. Ou seja, atualmente há falta de visão nos políticos, pois capacidade técnica nós temos, mas falta a vontade.

As "palms" de Dubai.

Podemos perceber também que no Rio Grande do Sul, em especial em Porto Alegre as vozes que “defendem” o meio ambiente tem um poder exacerbado e que se sobrepõe às demais vozes da cidade, fenômeno não visto em outras regiões do país. Essas vozes entravam os projetos da cidade e nem permitem que essas idéias surjam sequer no plano do pensamento. Parece crime pensar à respeito. Desenvolvimento é visto como crime ambiental. Lá em 1950 essas vozes não conseguiram impedir o aterro, mas já naquela época o discurso de privatização da orla do Guaíba impediu que a cidade tivesse um bairro charmoso, como o Moinhos de Vento, na orla e no lugar onde temos hoje o Parque da Harmonia, que apesar do valor representativo para o 20 de setembro, não passa de uma mini-fazenda em pleno centro. O Parque Marinha do Brasil, nesse aspecto, ainda acrescentou algo para a cidade, mas não da mesma forma como o Aterro do Flamengo o fez no Rio de Janeiro, com marina pública, jardins de Burle Marx, etc. O Aterro do Flamengo é comentado e elogiado no mundo todo.

Aterro do Flamengo, intervenção bem sucedida carioca, a única no país que se compara aos nossos aterros. Foto: Nelson Kon

E o que se fez da orla aterrada ?
Os prédios residenciais charmosos que poderíamos ter tido se lá na década de 50 esses “pseudo” ambientalistas portoalegrenses já não tivessem emperrando o desenvolvimento da cidade. Ao mesmo tempo, poderíamos ter tido uma estrutura na orla muito superior a que temos hoje, se é que temos alguma.

Chicago, terceira maior cidade dos Estados Unidos, orla desenvolvida, com atrações, prédios próximos da orla e grande qualidade de vida

 Não tenho dúvida de que teríamos algo assim como Chicago teve, aqueles predios charmosos na orla (claro, guardadas as proporções entre os tamanhos das cidades). Afinal, nosso Moinhos de Vento está aí para mostrar isso com seus residenciais antigos charmosos e a imponência do nosso centro financeiro gaúcho para a época. Isto pode também mostrar que seríamos capaz de tanto. Essas fotos abaixo mostram a imponência e o vanguardismo de Porto Alegre no cenário nacional à época:

Porto Alegre num cartão postal, década de 1950. Acervo Porto Imagem.

Porto Alegre, foto de 1968. Foto digitalizada da Revista Manchete Edição Especial "RETRATO DO BRASIL" de 1968. Acervo Porto Imagem

 A foto acima é mais uma que nos mostra a transformação daquela área (mas que acabou sendo pouca, pois apenas uns prédios foram substituídos e criou-se a praça e o entorno do Gasômetro. O que quero dizer é que o mais difícil se fez, que foi o mega-aterro. Mas depois o mais fácil não se fez, que seriam as intervenções arquitetônicas na área. Os políticos tinham visão, o povo – ou melhor, a pequena parcela dele que faz barulho – não.

Porto Alegre, foto de 1972. Foto digitalizada da Revista Manchete Edição Especial em inglês SPECIAL EDITION BRAZIL EXPORT 72. Acervo Porto Imagem.

 A foto acima mostra mais uma imagem de Porto Alegre em 1972, que exibia uma grande pujança e uma grande imponência, se comparada às demais capitais do país. Curitiba nem chegava perto disso. Alguma dúvida de que o aterro poderia ter sido algo importante, imponente e charmoso como o era o centro, não fosse o discurso já naquela época de privatização e especulação imobiliária, sob a  ideia de que seria uma orla para os ricos?
Não se vê mais em Porto Alegre obras como o Viaduto Otávio Rocha (Av. Borges de Medeiros, cruzamento com Duque de Caxias)  e a Elevada da Conceição, que foram tremendamente impactantes para a época, intervenção só vista em Rio e São Paulo e que hoje ainda impressionam, pois nada tão impactante foi feito depois disso em Porto Alegre, nem mesmo a 3ª perimetral, pois ela foi feita num contexto em que o Brasil inteiro e o mundo todo, principalmente, já davam suas grandes demonstrações de poder interventivo nas suas cidades. Porto Alegre era inovadora e à frente do seu tempo à época, pois no mundo não havia nada mais impressionante do que acontecia nela, no máximo algo no mesmo nível.
Mas está aí a prova de que se em tempos passados e com menos capacidade técnica existente, fomos muito capazes, porque agora não seríamos? Chega de coitadimos, queremos ação, não nos conformamos com o eterno discurso de que sempre teremos que ficar atrás do 1º mundo.
Mais prova disso? Cingapura pertencia à Malásia há 40 anos atrás e foi expulsa de lá nesse período, pois era extremamente pobre sem nenhum atrativo. O que eles fizeram? Investiram na educação (as crianças de lá têm aulas didáticas de economia e finanças já no primário, para aprenderem a usar racionalmente os seus recursos, por exemplo). O povo foi educado e a há fiscalização, não se pode colocar papel no chão, pois a fiscalização é constante e as multas são altas e efetivas, o que faz com que os cidadãos cumpram, se não for por consciência, ao menos por medo de ter o bolso atingido. Hoje constróem lá condomínios de luxo para os poucos favelados que ainda restavam. Atualmente eles conseguiram atingir a 4ª maior renda per capita do mundo. Eles não ficaram no conformismo de que eram pobres e nem com a ideia de que foram expulsos. Ignoraram as previsões e projeções e mostraram que tudo é possível quando não se crê no impossível. E nós, que nem somos tão pobres e pouco desenvolvidos como eles o eram à época? Nem precisaríamos esperar por 40 anos até viramos algo parecido com o que eles são hoje.

Veja o video integral do Globo Repórter aqui, sobre Cingapura.

Post sugerido pelo leitor “portofan”.
Texto: “portofan” e Gilberto Simon
Pesquisa de imagens: “portofan” e Gilberto Simon 



Categorias:Fotos antigas, ORLA, Paisagismo, Prédios, Reurbanização

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13 respostas

  1. Que pena que um post que tenta resgatar a crença da população na auto-capacidade de desenvolvimento da sua cidade tenha obtido tão poucas participações.

    Espero que ao menos tenha sido lido por muitos.

    Gilberto, encaminhe esse post junto com aquele dos pontos positivos e negativos de POA para os políticos e outras pessoas influentes da cidade! Eles são os primeiros a precisarem perceber que POA é capaz do que quiser.

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  2. Esse aterro na orla foi a pior coisa que já fizeram em Porto Alegre, foi oq de fato isolou a CIDADE do RIO (OU LAGO), já que está em uma zona central e que tem muita população. Os bairros ficaram muito distantes da orla e então cresceram “pra dentro” do continente.

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  3. Uma Porto Alegre melhor, ousada e de vanguarda é plenamente possível!

    Basta Q.A.A.!

    Q.uerermos

    A.creditarmos

    A.girmos

    (Q.A.A.).

    Se pudemos no passado, agora mais ainda, pois temos mais técnica e recursos que antigamente e ainda podemos contar hoje em dia com a iniciativa privada também! Não há desculpas!

    Basta termos políticos de ação e cidadãos de opinião crítica para tanto!

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  4. Isso foi antes do surgimento da Agapam, do PT e do FSM.

    Ah… e antes da luta contra a “especulação imobiliária”, promovida por organizações pseudossociais.

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  5. Guilherme, eu ia escrever EXATAMENTE O MESMO… 🙂

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  6. Bah, pior que se tivesse saido esse bairro a la moinhos na orla, certo que o centro seria muito mais valorizado…

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  7. Quem quiser orla, turismo, beleza e modernidade… SAIA DE PORTO ALEGRE.

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    • Compreendo teu protesto, Georgeano.

      Porém, se existem pessoas que pensam como nós, há luz no fim do túnel!

      Tem muita gente que gosta de lugares bonitos, bem equipados, modernos, aconchegantes… Por isso vão para a Serra Gaúcha, pra Punta del Este, pra Florianópolis, pra Buenos Aires, etc. Tenho certeza que estas pessoas gostaria que a capital também fosse um lugar bonito para passear e frequentar.

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  8. O pior de tudo é que, mesmo como a maior chance das últimas décadas, a Copa do Mundo, Porto Alegre – e portoalegrenses – não mudam.
    Não se vê mudança de mentalidade dos portoalegrenses. As pessoas continuam com tendências de achar bonito tudo que é “contra” , e assinam orgulhosos todos abaixo assinados contra-tudo.
    Continuam com tendências provincianas e horror ao desenvolvimento.
    Não há nada que indique que teremos algo na orla, ninguém fala do belvedere Santa Teresa, ninguem fala em fazer hotel em local turistico, contiuam as ameaças de abraços ao Guaiba e ao Cais…
    Se, mesmo com a Copa, a cidade e seu modo de pensar contiunam os mesmos… quem quiser orla, turismo, beleza e modernidade, pegue um avião e vá para o Rio, Curitiba, Buenos Aires.

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  9. Ótimo post! Melhor do que as reportagens tendenciosas e parciais de um certo grupo gaúcho de mídia…

    Sim, já fomos ousados como Dubai.

    Porém, em certo momento, alguns barraram o desenvolvimento da cidade por que a maioria calou-se.

    Ainda dá tempo de nos recuperarmos.

    Se todos os projetos saírem do papel o mais breve possível (Cais Mauá, Terminal Turístico Portuário e Rodoviário, BRTs, Metrô, reformulação da Orla do Guaía, entorno do Beira-Rio), garanto que o centro da cidade atrairá grandes construtoras nacionais e internacionais.

    Gostaria muito que começassem a demolir boa parte dos prédios do centro da cidade ou reformassem os históricos. Grandes cidades do mundo já fizem isso. Um exemplo é NY, que destrói prédios inadequados e constrói novos e mais ousados.

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  10. Paramos no tempo! A skyline do centro de Porto Alegre em 2011 é a mesma de 1972!
    Acorda, prefeitura!!
    Queremos o novo cais!

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