Artigo: Amor por Porto Alegre – por uma nova cultura cidadã, por Plinio Zalewski Vargas

“Ser livre não é meramente ser desimpedido; é empreender uma ação positiva com os outros.” (Hannah Arendt )

Porto Alegre curte a ideia de cuidar da cidade. Muito mais do que uma campanha publicitária, o chamamento do prefeito José Fortunati para que os porto-alegrenses conjuguem os verbos Curtir e Cuidar no seu dia-a-dia pode representar um salto de qualidade na participação democrática. Fazendo a travessia do exercício do controle social para o exercício do poder, os atores sociais estarão fundando uma nova Cultura Cidadã, cuja plataforma colaborativa se materializa nas ruas e no 5º Congresso da Cidade.

Corta!!!

“Para as ruas”, postam nas redes sociais os revolucionários egípcios e tunisianos, assim como os ativistas espanhóis e gregos. Pois é a partir das ruas que, desde a revolução húngara de 1956, desenha-se uma nova tecnologia de mobilização e transformação social e um conteúdo verdadeiramente revolucionário para a política. Falo da aversão à violência como método de libertação dos povos – violência que é a renúncia à essência da política, que é o falar – e da liberdade como objetivo de fundação de uma nova ordem – que é o pleno exercício do poder. Faça sua lista: Hungria, 1956; Polônia, 1980; Argentina, 1982; Brasil, 1985; Filipinas, 1986; URSS, 1989; África do Sul, 1990; Geórgia, 2003; Ucrânia, 2005; e Tunísia e Egito, recentemente.

Desde a redemocratização, “as ruas” para Porto Alegre – seu espaço público de participação – têm se alargado. Contudo, Orçamento Participativo, Conselhos de Políticas Públicas, Fóruns de Planejamento e uma diversificada rede de controle social e decisão sobre o orçamento público são ainda apenas uma face da Cultura Cidadã, em que a palavra sepultou a violência e vitórias foram acumuladas na garantia de direitos e melhoria das condições sociais.

Falta-nos, porém, a liberdade, no seu sentido mais radical: concertar ações a partir da multiplicação de territórios de poder que, tendo no Poder Público um aliado importante, impõem-se na cena pública através de alianças sociais mais amplas, autorreguladas, capazes de planejar e executar projetos de desenvolvimento e, sobretudo, lograr um equilíbrio entre o que é legal, moral e cultural no interior das comunidades. Nesse sentido, qualidade de vida passa a ser entendida como felicidade pública, na qual emprego, renda, educação e saúde tornam-se tão importantes quanto preservar o patrimônio público, respeitar as leis do trânsito, recolher o lixo, não tolerar as drogas e a violência doméstica.

Em suma, sem Participação no espaço público, Autorregulação e Cuidado com nossas leis, nossas crenças e costumes, teremos sempre que multiplicar nosso tempo, esforços e espaços de controle social, tendo em vista que o autoritarismo e a corrupção se reinventam; as estratégias de cooptação, dependência e manipulação política se renovam; o patrimonialismo, o compadrio e o descompromisso com a cidade continuarão não encontrando obstáculos.

Não é outro o objetivo do 5º Congresso da Cidade, que teve seu início em abril e se desenrolará até novembro, em seu encontro final. Cinquenta bairros já definiram seus objetivos e metas até 2022 e escolheram os Comitês de Articulação e Mobilização, numa aliança entre atores dos mais diversos setores. Até agosto, serão 82 bairros trabalhando nesta perspectiva e de forma autônoma. Verdadeiros territórios de exercício do poder – de liberdade, não de necessidade – tendo sob domínio um instrumento potente de diagnóstico e gestão, denominado Bússola do Desenvolvimento Local, desenvolvido pelo Observatório da cidade de Porto Alegre.

E as alianças se multiplicam. Além da Agenda 2020, Parceiros Voluntários, Instituto de Estudos e Pesquisa em Psicoterapia (IEPP), OAB, MP, Sebrae, Senac, Delegados e Conselheiros do OP, Conselhos e Fóruns de Planejamento, as quatro maiores Universidades (PUC/RS, Unisinos, Ulbra e Ufrgs) coordenam voluntariamente os Eixos Temáticos de Desenvolvimento Urbano-Ambiental, Humano, Econômico e da Cidadania, que apontarão as grandes diretrizes para Porto Alegre nos próximos 11 anos. O 5º Congresso da Cidade também permite a participação via web, através da plataforma colaborativa portoalegre.cc.

A multiplicação de territórios de poder, pelo resgate desta verdadeira microfísica da participação que são os bairros, conformando uma geopolítica na cidade; a promoção de alianças amplas e diversificadas, voltadas para a cooperação em torno do planejamento integral de longo prazo, objetivos claros e agendas operativas; o exercício da autorregulação dos indivíduos e comunidades; a problematização do conceito de cidadania, de controle social ao exercício do poder; o protagonismo das universidades, aprofundando a conexão com a sociedade; a legitimação de todas as formas de participação, sobretudo as redes sociais.

Tudo isso somado e devidamente consolidado pode conformar uma Porto Alegre muito mais democrática e, especialmente, mais corresponsável com seu cotidiano e seu futuro. Uma nova Cultura Cidadã, que combina a necessidade do controle social com a liberdade, traduzida com emoção no slogan Eu Curto, Eu Cuido de Porto Alegre. Alguma coisa como um dia celebrarmos que alcançamos todos os direitos inscritos na Declaração dos Direitos Humanos e, ao mesmo tempo, sentirmos que pertencemos à cidade. Amor por Porto Alegre, enfim.

Plinio Zalewski Vargas
Diretor Técnico da Secretaria Municipal de Coordenação Política e Governança Local 

Artigo publicado no site da Revista Voto



Categorias:Artigos

Tags:,

6 respostas

  1. Como ter sentimento de amor à cidade se os governantes não o tem?

    Outra: é muito interessante debater uma solução para os recicladores particulares, entretanto é uma questão complicada pois eles estão tentando ganhar a vida de alguma forma. E simplesmente proibi-los de o fazer poderia agravar sua situação.
    Por outro lado, se formos pensar na RAIZ do negócio. Eles reviram os lixos porque sabem que poucas pessoas separam seu lixo. Logo, sempre vão achar matéria boa ali no meio do orgânico. Que tal combater a falta de engajamento da população nesse sentido também?

    Curtir

  2. Sério, não vão censurar este post do Augusto? Olha, eu acho que falta linha dura nas nossas políticas, mas levar isso para esse discursinho de machão e homofóbico…

    Curtir

  3. A implantação do sistema de coleta mecânica do lixo reciclável só terá sucesso o dia que for resolvido a questão dos carroceiros e carrinheiros. Ou seja o dia que a sociedade resolver a questão do lixo é uma questão de saúde e de segurança pública, por isso a coleta de lixo de ser feita exclusivamente pelos aparados estatais, dentro de todas as normas de segurança e de proteção da população.

    Tenho ouvido e lido críticas à população por “deixar” o lixo ao lado do contêineres e não dentro ou que a Prefeitura não está esvaziando esses recipientes com frequência necessária, obrigando moradores a deixarem seu lixo do lado de fora. Claro que isso está acontecendo também, mas o maior problema (QUE PARECE NINGUÉM QUER VER) é que esses recicladores particulares é que estão tirando o lixo dos contêineres, separando os na rua e deixando ali mesmo o que não lhes interessa.

    Aliás, há muito tempo que os maiores culpados pela sujeira da cidade vêm da forma com que esses carroceiros/carrinheiros, bem como os moradores de rua, manipulam o lixo da cidade, mas claro, como esses fatos não se coadunam com uma visão romântica e ideológica da miséria, são esquecidos. É muito melhor culpar a população comum pela sujeira da cidade, mesmo que seja essa parte da sociedade a maior interessada em viver numa cidade limpa.

    Curtir

  4. O primeiro passo dessa mudança é saber e dispor-se à acionar um pedal..no caso dos novos equipamentos de lixo, pois já estou cansando de ver lixo AO LADO, do lado de FORA, dos containers.

    Curtir

  5. Muito bonito esse texto, mas infelizmente vontade de participar socialmente não está em falta nesse país e nessa cidade. Amplificar o sentimento de participação social não vai se refletir em menos depredação nem menos pixação. Um psiquiatra fez uma boa análise uns dias atrás, explicando que a vontade de destruir é um instinto e não uma disfunção social.

    Para que o vandalismo acabe, há apenas duas coisas a serem feitas:
    1) prender os vândalos pelo tempo estipulado em lei. Hoje em dia quem vandaliza tem a plena certeza da impunibilidade.
    2) educação de qualidade, garantindo que todos saiam do ensino fundamental e médio sentindo-se cidadãos dessa cidade e do mundo. Para isso, não basta cobrar presença em aula, tem que se cobrar profunda compreensão do conteudo. Pessoas com boas noções de ética e civismo não vandalizam.

    Curtir

  6. Bravo! O cronista é de “primeiro mundo”, dá esperanças de um Porto Alegre como sonhamos e merecemos…

    Curtir

%d blogueiros gostam disto: