Artigo: De Brunel a Coester, por Diego Abs

O aperfeiçoamento da técnica é um processo colaborativo no qual contribuições individuais são justapostas, tornando difícil apontar uma paternidade única para esta ou aquela inovação, que sempre evoca algum conceito preexistente. Muitos são os nomes imortalizados por suas realizações fantásticas. Dentre eles está Isambard­ Kingdom Brunel (1806-1859). Este reverenciado engenheiro inglês está associado a grandes obras de pontes, túneis, navios e ferrovias. Uma nota de rodapé em sua biografia, todavia, foi a malograda tentativa de aplicar elevadas pressões de ar para impelir veículos sobre trilhos em rampas acentuadas. Em 1848, após um ano de operação, sua linha foi descontinuada pelas limitações dos materiais (o couro lubrificado das vedações ornar-se-ia banquete para roedores), e dificuldades como a operação em desvios e precariedade das comunicações da época.

Mas Brunel não foi o único. Os “trens atmosféricos” tiveram diversas encarnações, como a heterodoxa versão de Alfred Beach. Inspirada nos correios pneumáticos, dez passageiros sem uma “cápsula” eram empurrados dentro de um túnel ao longo de cem metros por um ventilador de cinquenta toneladas, o “Tornado do Oeste”. As aventadas semelhanças desses experimentos com o Aeromóvel repousam no campo conceitual e são meras curiosidades históricas. O veículo gaúcho está para um trem atmosférico assim como a máquina a vapor está para os modernos motores de combustão interna. Ambos têm cilindros e pistões, fim. No Aeromóvel, a propulsão se dá por uma corrente de ar de alta vazão, porém, com baixa diferença de pressão (0,13 atmosfera). Gerado por sopradores airfoil, com rendimento de quase 90%, o empuxo é controlado remotamente através da variação de rotação. Em 1978 seria concedida a OskarCoester a primeira patente pela mesma Inglaterra de Brunel e da tradição ferro-carril. Seu “Sistema de Propulsão Veicular” teve ainda a originalidade reconhecida por Japão, Alemanha, EUA e França. Outras tantas patentes seguiram-se e estão acessíveis em sites. Cento e sessenta e três anos mais tarde, com a linha Trensurb-Aeroporto, Coester terá a chance de triunfar onde Brunel falhou.

Diego Abs – Engenheiro mecânico

Jornal do Comércio, 18 de julho de 2011



Categorias:Aeromóvel

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6 respostas

  1. Quem sabe POA abraça MESMO esse projeto!

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  2. Julio Verne tinha uma pequena admiracao pelo RS entao…hehehe Em um outro livro ele cita Barao de Maua como sendo o proprietario do maior banco da america latina e o mais honesto. Agora ele ja fazia propaganda de invencoes do aeromovel, antes mesmo de ser inventado..kkkkkkk Paga pau ele hein? kkkkk

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  3. Prezado Diego Abs recebi o artigo que tu me enviou por intermédio do Gilberto, quero agradecer o envio por parte de vocês. E reinterar que Júlio Verne, era um visionário, ele se informava sobre as tecnologias existentes na época, mas que muitas vezes não eram possíveis ainda de serem aplicadas, e baseado nas informações escrevia seus maravilhosos livros, incluindo este último “Paris no sec. XX” que levou muitos anos para ser editado, pois os manuscritos estavam guardados ou perdidos. Quando li o teu artigo no blog, logo me veio o título do livro na lembrança. Conheci em 1996 uma pessoa que era natural de Djakarta, e na época esta pessoa relatou que o trem a ar funcionava muito bem em sua cidade. Por que nós portoalegrenses levamos tanto tempo para descobrir isto?

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  4. “Jorge B.”, em um excelente artigo de Zero Hora em 23/03/95 este assunto do livro perdido de Julio Verne, encontrado somente em 1986, oito anos após o registro da primeira patente do Sistema Aeromovel, foi brilhantemente tratado. Abraços

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  5. Já leram “Paris no séc. XXI” de Júlio Verne?? olhem com era o sistema de transporte descrito no livro.

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  6. Grande Diego ABS, ótimo artigo, e fico surpreso com o rendimento de quase 90%, isso fica muito perto dos motores elétricos. Sem dúvida um ótimo tipo de transporte.

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