Dilma fará pelo Estado o que não é feito há décadas, diz Mendes Ribeiro


Líder do governo no Congresso, o gaúcho defende que o PMDB seja oposição ao governo Tarso no Estado. MARCELO G. RIBEIRO/JC

Principal liderança do PMDB gaúcho a apoiar a presidente Dilma Rousseff (PT) na campanha de 2010, o deputado federal Mendes Ribeiro Filho era cotado para integrar o primeiro escalão quando o ministério foi formado. Mas só foi chamado pela petista no final do primeiro semestre, quando aceitou o convite para ser líder do governo no Congresso Nacional.

Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Mendes explica que esteve ao lado de Dilma em 2010 pelas virtudes que observa na petista – desde os anos 1980, quando teve uma relação mais próxima a partir do trabalho na Constituição do Estado com Carlos Araújo, então marido de Dilma. E, especialmente, pelo que acredita que ela pode fazer pelo Rio Grande do Sul. O peemedebista cita obras de infraestrutura do governo federal na gestão dela na Casa Civil e projeta que a presidente fará pelo Estado mais do que foi feito nas últimas décadas.

Mendes ainda fala do PMDB gaúcho, defende que o partido seja oposição ao governo Tarso Genro (PT) e aponta a adesão ao governo Yeda Crusius (PSDB) como principal causa para a derrota em 2010 no Estado. “Foi o maior erro que o PMDB poderia ter cometido.”

ENTREVISTA

Jornal do Comércio – O senhor conheceu a presidente Dilma quando foi relator da Constituição do Estado?

Mendes Ribeiro Filho – Não, eu já conhecia. Mas foi ali que a relação se tornou mais próxima. Fui o relator da Constituição do Rio Grande, com o Carlos Araújo de relator-adjunto. Saía da casa do Araújo às 4h da manhã, trabalhando na Constituição do Estado.

JC – Após a eleição de 2010, em que o senhor apoiou Dilma, seu nome era cotado para assumir algum ministério.

Mendes – Jamais pensei em apoiar Dilma pensando que pudesse ser alguma coisa depois. A presidente tem capacidade – e é o que eu gosto nela – e espírito público.

JC – Foi uma opção mais pessoal do que partidária, porque o PMDB gaúcho estava inclinado a apoiar José Serra (PSDB).

Mendes – Serra eu não apoiaria. Respeito quem apoiou e quem ficou na neutralidade. Agora, tinha convicção do apoio a Dilma. O Rio Grande do Sul não podia abrir mão do poder.

JC – Pesou a relação dela com o Rio Grande do Sul?

Mendes – Conheço Dilma há 30 anos. Sabia do que a presidente era capaz. Como coordenador da bancada gaúcha ou como presidente da Comissão de Orçamento (da Câmara dos Deputados), vi como era importante para o Rio Grande a Dilma ser presidente da República. Iríamos preferir São Paulo no poder mais uma vez? Eu dizia “temos que fazer a BR-386 e a BR-116”. E ela: “Toca, Mendes.” As pessoas não percebem, mas a infraestrutura do Rio Grande está se modificando pela Dilma.

JC – Esse é o fator decisivo para o senhor?

Mendes – Esse é o fator decisivo para os meus filhos, netos… O Rio Grande perdeu muito espaço politicamente. O Rio Grande deixou de ousar, deixou de poder… E isso aí tem muito tempo.

JC – O senhor avalia que a presidente Dilma pode representar uma recuperação de décadas de perda de espaço do Rio Grande do Sul na política nacional?

Mendes – É a minha convicção! Ou alguém se esquece da BR-386, do porto do Rio Grande, da BR-392, da BR-116, que agora tem que sair. Então, percebe o que está acontecendo: o Trensurb até Novo Hamburgo, a Rodovia do Parque… Isso tudo é depois de Dilma (na chefia da Casa Civil, de 2005 a 2010). Isso é obra de alguém que tem interesse pelo Rio Grande. Então, além do afeto, da relação pessoal com ela, não poderia esquecer o que ela fez como agente público para cuidar do Estado.

JC – Por isso o senhor decidiu que valia a pena peitar o PMDB?

Mendes – Respeito quem tem posição diferente, mas sempre fui um homem de posição. E decidi apoiar a Dilma desde muito cedo.

JC – E como foi o convite para assumir a liderança do governo no Congresso Nacional?

Mendes – Ela me chamou para ir ao Palácio (do Planalto) e disse que queria que eu fosse líder do governo. E eu: “Com muita honra, presidente.”

JC – O governo passou por algumas crises nesse primeiro semestre. E os cargos de articulação política foram renovados.

Mendes – Não se engane com a Ideli (Salvatti, PT, ministra das Relações Institucionais). Ideli não é ruim, não. Ela tem muita força de trabalho e é do local. E a Gleisi (Hoffmann, PT, chefe da Casa Civil) é extremamente competente para a função. Quanto ao (Antônio) Palocci (PT, ex-chefe da Casa Civil) e ao Luiz Sérgio (PT, que era das Relações Institucionais), tinham problemas na relação. Palocci concentrava em torno dele, esvaziava o Luiz Sérgio e ficava o Parlamento falando sozinho. Hoje, não. A Ideli tem uma capacidade de trabalho extraordinária, começa às 8h e vai até às 21h. É muito competente. Eu tenho exercido uma tarefa de aproximação das lideranças com o Palácio (do Planalto). E sempre quis ser líder do governo no Congresso.

JC – Por quê?

Mendes – Porque se transforma numa articulação política. Eu disse para a presidente Dilma: “Olha quantos assuntos municipais existem hoje…” A Emenda 29, redistribuição dos royalties do petróleo e da mineração, dívida do INSS com os municípios, FPM (Fundo de Participação dos Municípios), que querem melhorar; o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), que teve perda de receita.

JC – São as reivindicações da Marcha dos Prefeitos há anos. Vão sair agora?

Mendes – Precisamos vencer todas. Se conseguirmos transferir para os municípios recursos que melhorem a qualidade de serviços públicos, vamos desonerar a União. E tornar o cidadão mais feliz. Segurança pública: em cidades de até 50 mil habitantes, a guarda municipal vai ter que começar a desempenhar um papel, gradativamente ocupar os espaços que a Brigada Militar não está ocupando, porque o Estado não tem como colocar brigadianos nos municípios.

JC – Mas segurança pública é atribuição do Estado.

Mendes – Mas temos que começar a fazer esse debate, ter coragem para enfrentar esse tema.

JC – E a reforma tributária?

Mendes – Essa é a reforma tributária que precisamos fazer: repassar recursos para os municípios, que não aguentam mais.

JC – Mas qual seria a prioridade? O presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT), declarou que a Emenda 29 está bem encaminhada.

Mendes – As prioridades do Marco Maia são prioridades da Câmara dos Deputados. Eu recebo missão. Gostaria de fazer uma grande pauta de diálogo com os municípios e, a partir disso, oportunizar o entendimento que viabilizasse a votação de matérias que desafogassem os cofres dos municípios. Na Emenda 29, por exemplo, o Estado já tem a obrigação de gastar um percentual na saúde que não gasta. Por que agora vai começar a gastar? Temos que parar de fazer discurso, quero solução real, que as coisas aconteçam.

JC – Essa é a pauta prioritária do governo. E a relação com o Congresso? Antes da queda de Palocci, se falava que os partidos da base estavam insatisfeitos com o preenchimento de cargos e a liberação de emendas.

Mendes – Nunca foi liberado um recurso para o Congresso em seis meses e o Congresso votou tudo o que tinha para votar. Essa história de cargos e desgaste do governo… Governo que antes era menos plural. A tendência é que o governo se torne cada vez mais plural. Ampliou a base. O PMDB não tinha a vice-presidência da República. O PMDB apoiava o governo Lula (PT) sem ter participado da eleição – eu não, rompi com a bancada. Depois, quando Lula convidou o PMDB formalmente para fazer parte do governo, aí passei a apoiá-lo no Congresso.

JC – Houve uma acomodação ou transição política entre os governos Lula e Dilma nesses primeiros meses? Na crise Palocci, Lula foi a Brasília…

Mendes – Não gostei de o Lula se meter, não contribuiu em nada. As pessoas que não gostam da presidente Dilma ou torcem para que o governo dê errado usaram a ida do presidente Lula para fragilizar o governo. Dilma está fazendo o governo dela, compondo de acordo com o tempo que ela tem. Determinadas pessoas, em determinado momento, ela gostaria de descartar e não pode descartar… Algumas pessoas – próximas a mim inclusive – diziam que a Dilma deveria ter me chamado para alguma coisa desde que assumiu. Mas eu sempre disse: isso é uma barbaridade. Quem conhece as questões de governo sabe que as pessoas não podem fazer aquilo que desejam. Existem pressões.

JC – Esse é o caso agora do Ministério dos Transportes?

Mendes – Tem algumas coisas que não se pode fazer como se gostaria de fazer. Tem que ceder, deixar amadurecer. E agir com responsabilidade. Sempre digo que não sou o porta-voz da presidente; sou o líder do governo no Congresso. Tem que ouvir muito e falar muito pouco. Assim, vou tentar fazer da melhor forma possível as determinações da presidente.

JC – O senhor é líder do governo Dilma, do PT. Mas o PMDB é oposição ao governo do petista Tarso Genro aqui no Estado. Como o senhor explica essas posições do partido?

Mendes – Não estou disputando o “Campeonato Gaúcho”. Estou disputando o Campeonato Brasileiro. Preciso pensar no meu Estado e no Brasil como um todo. Tarso é situação e somos oposição. Estamos lutando para colocar o governo logo ali (em 2014). Temos como fazer melhor. Isso não quer dizer oposição ao Rio Grande. Ao contrário. Fui falar com o governador Tarso tão logo fui indicado para ser líder do governo no Congresso, para falar da minha disposição sobre as lutas do Rio Grande. Agora, apoio o governo do PT que tem como presidente a Dilma Rousseff. E não se pode esquecer do vice, Michel Temer (PMDB).

JC – Mas a executiva estadual do PMDB não estava alinhada com as diretrizes nacionais.

Mendes – Não há como sobreviver se não tiver o partido nacionalmente forte. Preciso ter força política nacional para poder auxiliar o município e o Estado. Por muito tempo, fiquei como “Joãozinho do passo errado”, agora estou no passo certo. E a Dilma vai fazer um governo para o Rio Grande.

JC – Como o senhor avalia o cenário de pré-candidatos a prefeito em Porto Alegre?

Mendes – O PMDB tem que estar junto. Tem problema o (José) Fortunati (PDT) ser vice do Fogaça? Tem: o projeto é nosso. Agora, o PMDB também pode ter candidatura própria. Mas são coisas que devem ser decididas lá na frente.

JC – E da experiência da eleição de 2010, o que fica?

Mendes – O PMDB tem que voltar ao governo, andar pelo Rio Grande, ter candidatura própria (em 2014). É um partido que pensa grande como o Rio Grande.

JC – Já cicatrizou a ferida da eleição de 2010?

Mendes – A ferida não foi de 2010. Foi de 2006. Foi perder uma eleição ganha (Germano Rigotto, PMDB, tentava a reeleição) e ter ido para um governo (Yeda Crusius, PSDB) como coadjuvante.

JC – O erro do PMDB foi aderir imediatamente a Yeda logo após a derrota?

Mendes – Foi o maior erro que o PMDB poderia ter cometido. Não participei do governo, mas fiquei quietinho, respeitando a decisão do partido. Já penamos: 2010 foi reflexo disso. Aderir é sempre ruim. Ainda mais nas condições em que aconteceu a adesão.

JC – O senhor planeja algum dia ser candidato ao governo do Estado?

Mendes – Quem não sonha? Mas, sou feliz com o que sou. Tenho certeza de que ajudei muito o meu Estado e quero ajudar muito como líder do governo no Congresso.

PERFIL

Jorge Alberto Portanova Mendes Ribeiro Filho, 56 anos, nasceu em Porto Alegre. Filho do jornalista Mendes Ribeiro, chegou a cursar Jornalismo, mas formou-se em Direito, pela Pucrs, em 1979. Foi líder estudantil no colégio e militou no Movimento Trabalhista Renovador (MTR) e MDB, só tendo filiação partidária nos anos 1980. Antes, trabalhou de 1974 a 1979 na Secretaria Estadual de Turismo, até ser chefe de gabinete do líder do governo Sinval Guazzelli na Assembleia Legislativa, Celestino Goulart. Acompanhou Celestino na Secretaria da Justiça, onde foi secretário-adjunto no governo Amaral de Souza (1979-1982). Depois de atuar em três governos da Arena, filiou-se ao PDS em 1982. Elegeu-se vereador em Porto Alegre, mas em 1983 já se licenciou para ser secretário estadual de Justiça do governador Jair Soares (PDS). Ficou um ano no cargo, voltou para a Câmara e foi líder do prefeito João Dib (PDS). Em 1985, migrou para o PMDB e foi eleito deputado estadual. Relator da Constituinte Estadual, foi líder do governo Pedro Simon (PMDB) e reelegeu-se deputado em 1990. Eleito deputado federal em 1994, assumiu como secretário de Obras do governo Antonio Britto (PMDB). Em 1996, foi para a chefia da Casa Civil. Reelegeu-se deputado federal em 1998, 2002, 2006 e 2010. Em julho deste ano, assumiu como líder do governo Dilma Rousseff (PT) no Congresso.



Categorias:Economia Estadual

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6 respostas

  1. @Vitor Diel : Eu ia escrever a mesma coisa antes de ler o teu comentário… então:

    “Bla bla bla bla bla, bla bla bla bla, bla bla bla. Bla bla bla bla bla, bla bla….”

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  2. Sabe o que eu li nesse post?

    “Bla bla bla bla bla, bla bla bla bla, bla bla bla. Bla bla bla bla bla, bla bla….”

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  3. Qual e’ a obra da BR116 que ele diz que tem que sair?

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  4. A política seria cômica, se não fosse trágica. Essa entrevista do MRF é uma delícia de ficção. O gajo começou na política no PDS. Atualmente está no PMDB, participou de governos do Estado…os mesmos governos que ele mesmo diz que não fizeram nada pelo Estado há décadas. Agora, como líder do governo em Brasília, diz que o partido dele é oposição ao Tarso…o Tarso que é do PT, assim como a Dilma (que ele diz que fará o que não foi feito pelos governos, do qual ele mesmo participou)…que é governo, que é liderado pelo próprio Mendes Ribeiro Filho.

    Hehehe…Só tomando o coquetel da Amy pra aguentar tanta alucinação e discurso lisérgico.

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