Patrimônio Histórico: restaurar custa três vezes mais do que conservar

Biblioteca Pública: patrimônio, onde Borges de Medeiros mantinha um gabinete l Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Quem, como a arquiteta Dóris Saraiva de Oliveira, reconheceu a Biblioteca Pública do Estado nas fotos, que mostram com detalhes de um prédio histórico, publicadas na semana passada pelo Sul21, acertou em cheio. A obra, como lembra Dóris, foi idealizada por Victor Silva, que – no início do século XX — dirigia a Biblioteca, criada pela Lei Provincial nº 724, de 14 de março de 1871. O início das atividades data de 1877, num imóvel existente na esquina das ruas Duque de Caxias e Marechal Floriano, em Porto Alegre. A construção da nova sede (em terreno na esquina da Rua Riachuelo com, à época, Rua da Ladeira) teve início em 1912, de acordo com o projeto do engenheiro Affonso Hebert. Em 1922, foi ampliada, tendo sido inaugurada em 7 de setembro de 1922, como parte das comemorações do centenário da Independência. O então presidente do estado, Antônio Augusto Borges de Medeiros mantinha um gabinete na Biblioteca. Em 1982, foi declarada patrimônio histórico pelo IPHAE e, em 1996, pelo IPHAN. “É um dos mais significativos exemplares da doutrina positivista na arquitetura de Porto Alegre”, afirma Dóris. Nas fachadas estão os bustos de Dante Alighieri, Júlio César, Gutemberg, Descartes, Carlos Magno e Aristóteles, patronos do positivismo.

 

Biblioteca Pública do Estado nos anos 20 l Foto: da Fototeca Sioma Breitman/Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo

No início dos anos 2000, o Programa Monumenta investiu no restauro interno da Biblioteca. O trabalho de restauração seguiu com o patrocínio de R$ 2,5 milhões do BNDES. Foram recuperadas as fachadas, as esquadrias e os pisos internos. O custo final da obra está orçado em R$ 7,5 milhões. Se os recursos que faltam não forem logo obtidos a restauração do mobiliário e dos murais e as obras de acessibilidade terão de esperar por mais algum tempo. Um tempo que pode se alongar. Se surgir um mecenas, a Biblioteca será entregue totalmente restaurada dentro de dois anos, segundo o arquiteto responsável pela obra, Edgar Bittencourt da Luz.

Tanto Edgar quanto a arquiteta Briane Bicca, coordenadora do Programa Monumenta em Porto Alegre, reconhecem que mais importante do que o restauro é a conservação dos prédios públicos e privados tombados pelos governos municipais, estaduais e federal. Briane alerta que o restauro custa três vezes mais do que a conservação. “Por exemplo, se a telha não for trocada, a água da chuva vai se infiltrar, estragar o forro, o reboco e a madeira do piso”, diz. Ela observa que pior ainda é a “perda de substância histórica”, provocada pela falta de conservação. “Se não há a conservação preventiva, a cada restauro o prédio perde um pouco do que é original, como o parquê, por exemplo. Depois de certo tempo, o prédio passa a valer apenas pela volumetria”. Edgar ressalta que ao final de cada restauração é entregue um plano de manutenção para os responsáveis pelo prédio tombado. “Em geral não é observado”, constata. “Principalmente nos órgãos públicos”.

Manutenção Permanente

Além dos problemas externos, como pichações, feitas por vândalos, os edifícios sofrem desgaste com a ação do tempo. “A manutenção deve ser permanente”, aconselham Briane e Edgar. “O restauro só acontece por falta de manutenção e pela ação do tempo”, alerta Edgar. Para ele, o tombamento é importante “para a proteção institucional dos bens culturais e arquitetônicos” já que não há como obrigar que os proprietários conservem em bom estado estes bens. “Normalmente, seria questão de cultura. Mas isso não ocorre. O particular que tem um bem tombado se sente prejudicado. Se não houvesse proteção por tombamento, os prejuízos seriam ainda maiores”.

Briane defende que os prédios públicos tombados tenham orçamento anual com recursos para a manutenção. E que, também, contem com um funcionário responsável pela conservação. No caso dos prédios restaurados pelo Programa Monumenta, é feita uma fiscalização semestral. Se ele não estiver nas condições em que ficou após o restauro, o IPHAN solicita aos responsáveis a devida conservação.

O Monumenta, um programa do Ministério da Cultura, trata da recuperação e preservação do patrimônio histórico em cidades históricas, protegidas pelo IPHAN. Em Porto Alegre, já restaurou 20 prédios, sendo oito públicos. Agora, os trabalhos estão sendo feitos na Praça da Alfândega. Terão início ainda os restauros da Pinacoteca, em frente ao Solar dos Câmara, na rua Duque de Caxias, da Praça da Matriz e dos Caminho dos Jacarandás, na Praça da Alfândega.

Descuido X desinformação

A coordenadora do Monumenta, relembra um fato revelador dos problemas enfrentados na conservação de prédios históricos. Nem sempre o mau estado se deve ao descuido. Muitas vezes, ele pode ser creditado na conta de desinformação. Briane Bicca conta que na Biblioteca Pública do Estado uma funcionária cuidadosa, para manter o piso de madeira sempre limpo e bonito, jogava baldes de água sobre ele. A água penetrava no piso e atingia o teto de estuque do andar inferior. Com isso, foi preciso fazer a troca do piso de madeira, a refixação do estuque e toda a pintura.

Pórtico em ferro francês

Pórtico Central do Cais do Porto: reconhecido como patrimônio pelo IPHAN e pela EPAHC l Foto: Fototeca Sioma Breitman/Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo

O Pórtico Central do Cais, em Porto Alegre, é um dos poucos exemplares de obras em estrutura metálica industrializada, importada da Europa, que restam no país. A estrutura do Pórtico foi produzida pela empresa Daydée de Paris e conta com panos de vidro, feitos pela porto-alegrense De Lucca. O francês Henri Hauser deu início à montagem, que foi concluída por Trajano Ribeiro, em 1922, um ano após a inauguração do Porto, em 1921, pelo governador Borges de Medeiros.

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Em 1983, o Pórtico Central e dois armazéns – um à direita e outro à esquerda – foram tombados pelo IPHAN. Treze anos depois, a EPAHC tombou o Pórtico, os armazéns A1, A2, A3, A4, A5, B1, B2, B3 e o edifício sede do DPREC, hoje Superintendência de Portos e Hidrovias (SPH). Este foi o primeiro bem restaurado pelo Programa Monumenta em Porto Alegre. Briane explica que quando teve início o programa na capital gaúcha, já havia um projeto de restauro do Pórtico, o que facilitou a ação do Monumenta. “A cada ano o IPHAN solicita à SPH a pintura dos prédios e da estrutura”, afirma. No restauro dos dois patrimônios do Centro Histórico, o Monumenta investiu R$ 571.717,13, dos quais R$ 442.415,14 na Biblioteca Pública.

A arquiteta Flavia Boni Licht considera que a Biblioteca e o Pórtico, “duas representações arquitetônicas bastante diferenciadas e igualmente qualificadas, simbolizam a riqueza material e a criatividade cultural de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul nas duas primeiras décadas do século XX ”.

Clube de Cultura, o mais novo tombamento

 

Depois de um longo tempo de análise, o Clube de Cultura, desde a semana passada, é, por tombamento municipal, patrimônio cultural de Porto Alegre. Foi fundado em 31 de maio de 1950, “por um grupo de judeus porto-alegrenses de orientação laico-progressista e filiação política de esquerda”, como consta do processo que encaminhou o seu reconhecimento como patrimônio histórico. O coordenador da Memória Cultural, da Secretaria Municipal de Cultura, Luiz Antônio Custódio, afirma que os tombamentos se justificam pelos valores históricos, culturais, etnográficos ou arquitetônicos dos bens. O do Clube de Cultura deveu-se ao seu valor histórico. “Ali nasceu, por exemplo, o Clube de Cinema Humberto Mauro, que deu origem à Casa de Cinema e ao Polo de Cinema do Rio Grande do Sul”, lembra Custódio.

O coordenador da Memória Cultural frisa que a importância do Clube de Cultura não está no seu prédio, mas na sua ideia. “O mesmo aconteceu no tombamento do Teatro de Arena”. O mais novo patrimônio histórico de Porto Alegre teve um grande impacto sobre a cultura gaúcha, devido “à sua atividade e às ideias que circularam e ainda circulam por ali”, diz Custódio.

Do Clube participavam também, como sócios, importantes nomes da cultura gaúcha, que não eram de origem judaica, como o médico Rubem Maciel, o artista plástico Vasco Prado e o poeta e historiador Guilhermino César. A entidade contou com apoiou também, ao longo de sua história, de intelectuais como Graciliano Ramos, Jorge Amado, Henrique Scliar, Aparício Torelli (Barão de Itararé), Carlos Scliar, Vinícius de Morais, Elis Regina, Danúbio Gonçalves, Moacir Scliar e Caio Fernando Abreu. O documento que instruiu o tombamento do Clube informa que a história da entidade se divide em quatro etapas, marcadas “por fatores históricos externos”. A primeira, de 1950 a 1957, quando foi inaugurada a sede, se caracteriza pelo posicionamento do Clube “como espaço de práticas sociais e culturais”. A segunda etapa, de 1957 a 1964, consolidou o local como “centro cultural de relevância nacional”, havendo uma abertura para todos os indivíduos e segmentos da sociedade. A etapa seguinte coincide com o período da ditadura (1964-1985) e é denominada de “período de sobrevivência”, já que a instituição era vista pelos militares como de esquerda. Os sócios se afastaram e o Clube enfrentou problemas econômicos. Neste período, “passaram a frequentar o lugar cidadãos de diversas origens étnicas e filiações políticas que compartilhavam com os fundadores os mesmos princípios e que tacitamente se opunham à Ditadura”.

A última fase começa em 1985, com a redemocratização do país. Uma época em que o “Clube não é mais um reduto dos judeus progressistas, porém mantém a mesma linha de atuação traçada por seus idealizadores e continua sua sobrevivência, não contra a repressão política e sim contra uma ameaça maior: a banalização da cultura e as formas de socialização atuais caracterizadas pela falta de compromisso do indivíduo com a sociedade e com a construção de um mundo mais digno e justo”.

Nubia Silveira (texto) e Flavia Boni Licht (consultora)

Endereços:

Biblioteca Pública do Estado – Rua Riachuelo, 736

Pórtico Central do Cais do Porto – Avenida Mauá, Centro

Clube de Cultura – Rua Ramiro Barcelos, 1849

Matéria do Jornal SUL 21



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6 respostas

  1. Velho Casarão-Para todos os casarões em situação de abandono em várias cidades

    Velho casarão,
    Esquecido
    Na tua solidão,
    Maltratado.
    Quantas alegrias
    Tiveste no passado!
    Agora vês tuas paredes
    Cobertas pelo limo,
    Pelas ervas daninhas.
    Por ti eu rimo,
    Ah! Rimas minhas!
    Eu já até contei para um primo
    Da imponência que tu tinhas.
    Agora infelizmente estás doente,
    Já morreram teus primeiros donos,
    Estás no abandono.
    Hohe não te tratam com respeito,
    Mas tenho um sentimento
    No meu peito,
    De que se algo for logo feito
    Ainda tens jeito.
    Ah!Casarão amigo!
    Escutem o que eu digo!
    Salvem o casarão antigo!
    Márcio Rodrigues-Belém-Pará-24/04/2012

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  2. O Centro todo precisava de um banho de tinta. A vista de alguns prédios é desoladora: prédios sujos, velhos, com paredes mofadas e algumas que nem reboco receberam…

    Acho que multa não seria a solução, pois o condomínio então teria dois gastos, a multa e a reforma. Acho que conceder abatimento no imposto seria melhor, pois daí esse valor teria que ser necessariamente utilizado para pinturas e outros serviços no próprio prédio.

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    • E daí que faz um prédio durável, que precisa de pouca manutenção, nunca teria este desconto, somente quem faz prédios ruins.

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  3. Ontem mesmo passei na frente da biblioteca do estado e fiquei pensando como pode esta obra demorar tanto… mas depois passei pelo multipalco e lembrei que infelizmente isso é o normal.

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  4. Pois é, Gilberto! O problema é está na falta de manutenção de todos (ou praticamente quase todos) os monumentos da Capital.

    Estava participando do PMLL (Plano Municipal de Livro e Leitura) e foi discutido sobre as Bibliotecas Públicas em Porto Alegre: A Josué Guimarães (municipal) e a Biblioteca Pública (estadual), porém está há 5 anos fechada (e seu acervo ‘parcial’ na CCMQ). É muito pouco para um povo com o maior índice de leitura no país!!

    Desculpa o desabafo, mas por falta de manutenção, o municipio (e o estado, por que não) perdem espaço para a leitura!

    Abraço!

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