Guion Center resiste na Cidade Baixa

“Acho que Porto Alegre não tem tanto público assim para a arte. Acontece algum evento excepcional e as pessoas voltam suas atenções somente para ele.” O lamento é de Carlos Schmidt, responsável pelas três salas do Guion Center. Há 16 anos, o local resiste no Centro Comercial Nova Olaria, no coração da Cidade Baixa, exibindo filmes “mais empenhados”, conforme o programador. Entretanto, o espaço, que já chegou a ter 24 mil pagantes por mês, hoje tem uma média de sete ou oito mil, volume pequeno frente uma despesa mensal de R$ 40 mil.

A diminuição do número de pagantes, explica o empresário, deve-se a um somatório de fatores que envolve tanto a concorrência quanto iniciativas do Estado. Segundo ele, o Guion Center começou a perder espectadores quando algumas salas instaladas em shoppings passaram a exibir, em parte, os mesmos produtos que o cinema localizado na galeria da Lima e Silva. “Não conseguimos competir com o estacionamento deles ou com as opções de shopping. Eu posso mudar meu hall, mas não todo o entorno”, reflete Schmidt, que, apesar de tudo, vê as vantagens do endereço em que está posicionado: “Aqui é muito prático para quem tem um pouco mais de idade, é só caminhar 20 metros que estão dentro do cinema”.

No entanto, indiretamente, este público é responsável pela situação atual do espaço, com baixo faturamento. “Oito mil não chega ser um número ruim, mas o Estado depauperou minha receita colocando milionário a pagar meia-entrada só porque chegou aos 60 anos. E eu não posso chegar ao fim do mês com mais meia do que inteira”, depõe ele, destacando ainda o enxugamento que acontece no mercado em período de Porto Alegre em Cena ou Feira do Livro.

Em relação ao perfil dos filmes em cartaz, Schmidt também é enfático: a característica do Guion é exibir obras um pouco mais elaboradas e segurá-las em função do interesse do espectador. “O que passamos aqui exige um gosto mais pessoal, mas não são filmes difíceis, diferentemente de outra época, quando filmes de arte eram complexos. Estes nem podem ser chamados de arte ou de circuito alternativo, mas apresentam um pouco mais de empenho”, cita ele, lembrando que Melancolia, de Lars Von Trier, entrou em pré-estreia no final de julho e continua em cartaz desde então: “O filme tem um grande elenco, popular até, e outra proposta, mas dá para digerir com facilidade”, analisa.

Outra queixa de Schmidt é com a Cinemateca Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana. “Nos atrapalha porque cobra o ingresso pela metade exibindo o mesmo produto. E é um espaço mantido com o dinheiro do meu imposto, para fazer concorrência com outra atividade comercial”, reclama. Para sobreviver, além do dinheiro arrecadado com os ingressos, o Guion conta com o lucro da sua cafeteria, com as vendas de CDs, livros e até de obras de arte e canecas, o que não é o suficiente. “Eu só vejo uma solução, que é um patrocinador. Ultimamente deu uma melhorada na situação, mas eu estou achando meio insípida. Esse negócio de ‘ir dar força para o Guion’ não existe, mas, ao mesmo tempo, depois que fecha, vem um monte de gente dizer ‘ah, eu gostava tanto…’”

Outras experiências

Carlos Schmidt está envolvido com cinema em Porto Alegre há mais de três décadas. Antes de fundar o Guion Center, em 1995, o programador já havia sido premiado no Festival de Cinema de Gramado (por Terminando, em 1978) e colocado em prática uma série de iniciativas voltadas à sétima arte.

Dentre elas, estão incluídas as criações do projeto Cinema Itinerante, um circuito de exibição e de filmes e palestras sobre a história do cinema, e do Ponto de Cinema – Cinemateca Gaúcha, um dos maiores acervos privados do Brasil.

Além de implantar o Guion no Nova Olaria, Schmidt chegou a manter outros dois complexos na Capital, o Guion Sol, na zona Sul da cidade, e o AeroGuion, no Aeroporto Salgado Filho. “Foram duas experiências diferentes, aqui temos um bairro em volta, o que, de certa forma, facilita. Nos outros pontos praticamente não há vizinhança e, no Guion Sol, especificamente, o centro comercial não se desenvolveu”, conta o programador, que mesmo assim não se arrepende de ter se dedicado à exibição de filmes: “Eu teria sido o quê, jornalista?”, brinca ele, que cursou a faculdade de Comunicação.

Jornal do Comércio



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3 respostas

  1. Amo aquele espaço,me sinto segura ali,vou ao cinema sozinha,tomo o meu shopinho,leio um pouco sentada ali no café do cinema ou nos bares do pátio,amo estar ali,amo os filmes em cartaz,amo aquele povo alternativo que frequenta o Olaria,ACABAR JAMAIS!!!Pensem em soluções,elas existem,mas não nos privem deste conforto e aconchego,Mariza melo Spolidoro..

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  2. Moro na parte baixa da 24 de Maio, gosto muito de ir ao cinema nas salas do Guion Center e lá estou sempre que possível. Acho que talvez fosse possível incrementar outras atividades com convidados palestrantes em alguma das salas do tipo “fronteiras do pensamento nacional”, apresntação de shows para pequeno público, ou mesmo exposições de minerais, por exemplo, pinturas ou outras obras de arte, durante o dia. Há muita coisa interessante prá fazer. Essas são apenas algumas sugestões e para mim seria realmente uma grande perda para a cidade se o Guion do Olaria viesse a fechar…

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  3. Eu lamento porque sempre fui fã dos cinemas Guion. Quando o Guion Sol, que era o meu favorito, fechou lamentei profundamente, mas eu percebi o pouco fluxo de público que havia. Fico feliz que o Guion da Olaria perdura e eu frequento c/uma certa regularidade, mas sou obrigada a confessar que não vou mais seguido porque o estacionamento tornou-se muito caro. Assim, somando ingresso+estacionamento é um programa relativamente caro que não é mais possível fazer todos os fins-de-semana.

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