Arquiteto defende aproveitamento de edifícios ociosos nas cidades

Apelidado de "esqueleto", edifício no centro de Porto Alegre está abandonado há décadas e poderia ser utilizado para comunidades autogestionárias, defende arquiteto Marcelo Gotuzzo. Foto: GILBERTO SIMON - Porto Imagem

Vivian Virissimo

Os prédios ociosos nos centros das grandes cidades precisam ser aproveitados, de modo sustentável, para a criação de habitações populares e espaços culturais. Quem afirma é o arquiteto Marcelo Gotuzzo, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da Ufrgs. Defensor da ampliação das comunidades autônomas em Porto Alegre, Gotuzzo tem projetos para geração de renda na comunidade Utopia e Luta e para o aproveitamento do “esqueleto”, como é chamado o edifício abandonado no centro da capital.

“As cidades do futuro não podem conviver com espaços ociosos nos centros urbanos. São locais com alto nível de infraestrutura, acesso a serviços e dotados de grande mobilidade”, defende Gotuzzo.

O pesquisador explica que comunidades autônomas se diferenciam de outras propostas de habitação popular porque, além da destinação para moradia, agregam centros culturais e projetos de geração de renda. “As comunidades autônomas tentam se aproximar de modelos de autogestão, fomentam atividades em todos os campos das artes, além de desenvolver projetos de geração de renda para ampliar as atividades, não para o enriquecimento individual”, diz Gotuzzo.

O arquiteto projetou uma “floresta vertical” a ser implantada no prédio do Utopia e Luta, assentamento urbano instalado em um antigo prédio do INSS no centro de Porto Alegre. A comunidade já desenvolve atividades de hidroponia no terraço do edifício, mas a proposta é ampliar o projeto utilizando o espaço ocioso acima do edifício. “A ideia é que haja um impacto visual com as paredes verdes que terão capacidade de equilibrar a umidade dos ambientes internos, possibilitando maior conforto térmico no verão, além de inibir pichações”, acrescenta Gotuzzo. O projeto também estabelece espaços para economia solidária, bem como um café, um miniauditório e um atelier.

Projeção da “floresta vertical” planejada pelo arquiteto para o prédio do Utopia e Luta, no centro de Porto Alegre | Foto: Divulgação

Outra ideia é que as lojas que funcionam sob as escadarias da Borges de Medeiros, que são concessionárias do local que pertence à Prefeitura, também sejam incorporadas ao projeto com o objetivo de facilitar o acesso à população que circula no local. Gotuzzo destaca a sustentabilidade do projeto que vai empregar materiais leves e pré-fabricados de rápida montagem. “Será uma obra limpa e contrastante com a edificação original, respeitando a sua pré-existência”, explica, acrescentando que a estimativa é que a obra possa ser concluída em 12 meses, após conclusão dos projetos e liberação de verbas.

Esqueleto

Para a revitalização do “esqueleto” da Praça XV, prédio abandonado há décadas no centro de Porto Alegre, o arquiteto defende a criação do Residencial e Centro Comunitário Autônomo Autogéré. O prédio que tem mais de 6.500 m² começou a ser construído há 60 anos e ainda está inconcluso. “O edifício tem potencial de uso nos moldes da participação coletiva. Esta grande estrutura ociosa situa-se em local de fácil acesso a todas as comunidades do grande perímetro urbano da capital”, afirma Gotuzzo. Um laudo técnico atestou a viabilidade da reutilização da estrutura já existente.

Gotuzzo ressalta que as negociações para viabilização do projeto contam com consentimento dos proprietários. “O projeto inicial prevê cerca de 100 apartamentos com com espaços internos contíguos, com possibilidade de versatilidade de arranjos, de acordo com o desejo de cada morador”, explica.

“Movimentos são catalisadores da mudança”

Segundo o arquiteto, está prevista a realização de um seminário no final de novembro para ampliar o debate e a participação de cooperativas, associações e ongs. A intenção é que os movimentos sociais que militam pela reforma urbana participem da reunião para encaminhar as articulações políticas e econômicas para concretização destes projetos. “Os movimentos são os principais catalisadores da mudança social. A intenção é que o seminário funcione como uma mesa aberta de negociação para que este projeto inicial seja transformado de acordo com a demanda dos futuros moradores e agentes culturais”, enfatiza Gotuzzo. Os movimentos Utopia e Luta, Movimento Circuito Fora do Eixo, Grupo SOMA e Associação Comunitária do Centro Histórico de Porto Alegre já participam dos debates.

Segundo Gotuzzo, existe viabilidade tanto com recursos da Caixa Econômica Federal quanto investidores privados nacionais e internacionais. “Transformar um projeto em realidade é uma coisa que sempre dá trabalho, mas transformar um projeto, com mudança de paradigma da realidade, é bem mais difícil”, analisa. Os delegados da Região de Planejamento 1, instância independente da Secretaria Municipal de Planejamento, já sinalizaram favoravelmente para a execução da obra. “Os delegados gostaram do projeto e já indicaram várias possibilidades. Existem vários editais que contemplam habitação de interesse social.”

Exemplos mundiais

Gotuzzo dá exemplos de comunidades autônomas espalhadas pelo mundo. Eles são chamadas de culturesquats, utilizadas para habitação e atividades culturais. O arquiteto conta que as primeiras revitalizações de prédios ociosos ocorreram em Nova York, no Soho. Na década de 1960, armazéns e fábricas abandonadas começaram a ser apropriadas por artistas vinculados ao movimento da pop art e expressionismo abstrato. “Andy Warhol construiu seu ateliê para experimentações artísticas. Hoje em dia, esse bairro aproveita espaços abandonados com restaurantes, galerias e lojas”. O exemplo de Berlim também é citado. “Na mesma época, em Berlim, arrasada pela 2ª Guerra Mundial, num contexto de destruição e crise financeira teve prédios destruídos parcialmente ocupados por jovens da contracultura em protesto contra a falta de moradia e especulação imobiliária”.

O pesquisador menciona também que não se trata de transpor modelos da Europa e Estados Unidos para o contexto brasileiro. “Nos países desenvolvidos notamos que muitas pessoas adotam este estilo de vida por ideologia, não significa que falte alguma coisa, até porque muitos governos garantem moradia para pessoas desempregadas. Mas no caso do Brasil, existe um processo muito mais complexo e de necessidade, miséria e falta de opção. Pela demanda habitacional que existe e o grande espírito de cooperação que vemos dentro das comunidades, nosso potencial é muito maior que o desses países desenvolvidos”, fala Gotuzzo.

SUL 21



Categorias:Reurbanização

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13 respostas

  1. Essa novela não acaba nunca. Chega de projetos e sugetões. Mãos à obra!

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  2. assisti a apresentacao na universidade, concordo com o Gilberto, o projeto é sensacional mesmo!!! A idéia, meus caros, justamente vai contra qualquer idéia de assistencialismo!!

    Pesquisei um dos movimentos citados pelo arquiteto na apresentacao do projeto do ed da praça xv, achei fantástica a ideia de um espaco para a sede admnistrativa deste grande movimento, que já esta presente em 160 cidades brasileiras. colo aqui o material que encontrei no facebook:

    ” Circuito Fora do Eixo é uma rede de trabalhos concebida por produtores culturais das regiões centro-oeste, norte e sul no final de 2005. Começou com uma parceria entre produtores que queriam estimular a circulação de bandas, o intercâmbio de tecnologia de produção e o escoamento de produtos nesta rota desde então batizada de “Circuito Fora do Eixo”. A rede cresceu e as relações de mercado se tornaram ainda mais favoráveis às pequenas iniciativas do setor da música, já que os novos desafios da indústria fonográfica em função da facilidade de acesso à qualquer informação criou solo ainda mais fértil para os pequenos empreendimentos, especialmente àqueles com características mais cooperativas. Iniciativas como o Cubo card, de Cuiabá, ou os festivais que se proliferavam em toda a rede mostraram ser possível produzir em escala auto-sustentável, pautando-se sobretudo no contato direto com produtores de outros estados, através de uma rede de informações e sob uma lógica da união de pequenos em prol de grandes ações. Hoje o Circuito Fora do Eixo está em 25, das 27 unidades federativas do Brasil. O sul, o centro-oeste, o sudeste e o norte são regiões totalmente associados, já que contam com todos os estados inclusos. Daí iniciativas como o Grito Rock América do Sul, que já vem demonstrando avanço nas relações com a América Latina (Em 2010, das 74 cidades participantes, 4 são de cidades provenientes da Argentina, Bolívia e Uruguai) e também o Festival Fora do Eixo, que em 2010 foi mais uma vez capitaneado em São Paulo, o maior centro logístico do país, além de ter recebido uma edição também no Rio de Janeiro. Sem contar, finalmente, o Portal Fora do Eixo, que inaugurou uma tão almejada etapa de ocupação de espaços mais bem estruturada na web, facilitando assim o acesso do público ao numeroso banco de dados que vem sendo engendrado pelo circuito em todo o país. Em fevereiro, o Portal entra em uma nova fase, sendo inaugurado em formato de Portal de Noticias e Rede Social, permitindo uma maior troca de tecnologias.”

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  3. Esse papo todo mais parece MST urbano…

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    • Concordo, Ongs, Cômites, seminários, coisas que não levam a lugar algumm..

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      • Senti um gostinho de preconceito aqui. Me parece que nós queremos a revitalização e a restauração de diversos prédios do centro. Quem vai morar neles não interessa. Parece os pseudo-ambientalistas com inveja dos que iriam morar no Pontal do Estaleiro. Estamos nos igualando a eles ? Deixem de ser arcaicos. Este projeto é sensacional !! Diferentes camadas sociais podem morar no centro. Não precisamos subtrai-los.

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    • Vou me sentir encarnando um colega do fórum aqui, mas a iniciativa privada falhou por 60 anos em resolver este problema do esqueleto.

      Em relação ao “MST urbano”… bem, é isso mesmo e não necessariamente isso é um problema. Prédio abandonado por décadas é um problema de todos, e construções assim não estão servindo a sociedade.

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  4. Não sou tão favorável a esses projetos “sociais” (mais socialistas que qualquer coisa), morar de graça no centro seria fácil demais… Quanto ao “esqueleto”, em alguns andares já é regularmente ocupado, mas tem que resolver essa enrolação toda logo de uma vez. Talvez o prédio esteja estigmatizado demais pelo tempo de abandono, o que tornaria difícil atrair pessoas que não fossem meros oportunistas querendo morar de graça no centrão. A propósito: com toda essa empolgação do setor hoteleiro em função da copa eu não acho que seria mau negócio transformar o prédio num hotel, e se o poder público municipal realmente estiver comprometido em requalificar o centrão vai acabar sendo uma mão na roda para quem quiser aproveitar as atrações turísticas no entorno…

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    • A ideia de transformar esses prédios abandonados do centro em hoteis é boa (desde que exista interessados), mas não vejo problema em transformá-los em moradias “populares”. Mas concordo tambem que distribuir esses apartamentos gratuitamente é um absurdo. Nada pode ser dado de graça para ninguém, a menos que a ideia seja distribuir por distribuir e não distribuir para ajudar a resolver um problema e para trazer dignidade e cidadania as famílias que vivem na pobreza.

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  5. Repito o que eu disse no sul21:

    Acho ótimo o pessoal ser assentado nestes prédios, tanto pelo fato que prédios abandonados é o pior para a sociedade como um todo quanto pelo fato de que em prédios é mais difícil a eterna construção de puxadinhos que sempre acontecem nas casas construídas pela prefeitura.

    Mas as lojinhas do viaduto para mim deviam ser incluídas em uma revitalização do mesmo, o que incluiria mudar o tipo de comércio. Não acho que tem que ter lojas da Zara ali, mas loja de Vinil e chaveiro é sacanagem.

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