Moradores do Cristal rejeitam assentamentos

Moradores do bairro Cristal, zona Sul de Porto Alegre, reclamam que os assentamentos de famílias das áreas de invasão do Complexo da Tronco rebaixarão o valor de seus imóveis. O comitê criado pelos residentes da região reclama que não foi ouvido pela prefeitura sobre o destino dos grupos e que existem alternativas de áreas para erguer as moradias populares. Alguns terrenos desapropriados já teriam empreendimentos residenciais projetados. Dezoito dos 40 terrenos desapropriados para as edificações estão no Cristal.

Outdoors chegaram a ser custeados pelo grupo para combater o que foi chamado de “desapropriações no coração do Cristal”. Os materiais ficaram expostos por 15 dias, em pontos de grande visibilidade na região. “Não ao autoritarismo da prefeitura” foi uma das frases estampadas. Desde que o BarraShoppingSul foi erguido no bairro, os imóveis passaram a ser mais valorizados. “Tudo que ganhamos em preço vamos perder se os imóveis forem feitos aqui”, argumentou o aposentado Lauro Rossler, do Comitê Permanente dos Moradores do bairro Cristal. A atriz e professora de teatro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Sandra Dany esclarece que o movimento não é contra as famílias que já ocupam vilas, vizinhas ao bairro.

Uma declaração do prefeito José Fortunati indicando que a “classe média” estaria pensando pequeno ao não aceitar os assentamentos causou mal-estar. “Quem pensa pequeno é a prefeitura, que fez um processo defeituoso e sem planejamento, alijando parte da população que paga impostos e ajudou a qualificar o bairro”, devolveu a atriz. O economista Erasmo Souza, também do grupo, lamenta que a escolha das áreas tenha sido feita sem avaliação do impacto e da condição de cada uma. “Muitos terrenos já tinham projetos. Também não estão vendo o impacto para o ambiente e a mobilidade”, reclama Souza. Desde julho, ao saber das áreas, o comitê, que diz representar 30 mil habitantes, mantém encontros com secretarias para reverter o plano de construções que serão feitas dentro do Minha Casa, Minha Vida.

O engenheiro civil e sócio da P&M Nelson Prauchner alega que tinha projeto imobiliário para um dos dois terrenos seus desapropriados e que ficam na rua Comandaí. “Tenho empreendimento previsto há quatro anos, aprovado na prefeitura. Só não saiu porque dependia da doação de parte da área para alargamento da rua”, conta, que ainda acalenta a meta de erguer os 24 apartamentos avaliados entre R$ 450 mil e R$ 750 mil. “O terreno vale R$ 1,3 milhão e a prefeitura avaliou em R$ 350 mil. Mas não é o valor que importa, mas o impacto das moradias de baixa renda nas áreas nobres que ainda restam no bairro”, contrapõe o engenheiro, que tenta na Justiça protelar a venda.

A forte reação começou a dar resultado. O secretário municipal de Gestão e Acompanhamento Estratégico, Urbano Schmitt, garantiu que já estão em análise terrenos alternativos. Um deles fica na rua Jacuí, que já teria um parecer favorável do Departamento Municipal de Habitação. “Ficamos focados na solução para a retirada das famílias. Não esperávamos a discordância. Eles já são vizinhos”, defende-se Schmitt, lembrando que 431 das 1.474 famílias que deixarão áreas para a obra estão no Cristal. O local com maior número de habitações é a vila da Divisa. “Muitas famílias estão ali há 40 anos. Mudança sempre gera alguma oposição”, diz o secretário.

Grupo RS diz que residências impressionarão classe média

O diretor da Died Participações, do Grupo RS, oriundo da Espanha, o arquiteto gaúcho Silvio Ribeiro Junior, acredita que combinar imóveis para faixas de renda mais baixa e média nos empreendimentos para o Complexo da Tronco mudará o pensamento da classe média. Ribeiro já travou conversas com moradores do bairro Santa Tereza, que chegaram a oferecer outras áreas para evitar a construção em terrenos já definidos e nos quais a empresa pretende erguer torres de oito pavimentos, somando até 800 unidades.

O modelo prevê churrasqueira, elevadores e lojas no térreo. Os imóveis para a renda até três salários-mínimos têm dimensões acima das previstas no programa federal. O grupo venceu a disputa pública do Demhab para três áreas situadas entre a Grande Cruzeiro e o Morro Santa Tereza, localizadas nas ruas Banco da Província, Mutualidade e Santa Cruz. “Vamos acabar com guetos e fazer a melhor moradia de zero a três salários-mínimos do País”, promete Ribeiro. Mas a empresa depende ainda do aval da Comissão de Análise e Aprovação da Demanda Habitacional Prioritária (CAADHAP). A coordenadora da comissão, Rosane Zottis, informou que o projeto não chegou a ser examinado nesta quinta-feira, apesar da expectativa dos construtores.

O Grupo RS pertence ao empresário espanhol Ramón Salvador. Desde o começo do ano, ele avalia negócios no Estado. A empresa usará um sistema construtivo com moldes metálicos, bastante pulverizado na Europa, e que acelera a execução. O tempo pode cair de 18 para seis meses.

Patrícia Comunello – Jornal do Comércio



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24 respostas

  1. Isso mesmo, Daniel. É a turma dos “comunistas de Nike”. Fácil falar. Mas pede pra dar uma passadinha (se tiver coragem) no meio dessa vila e pra depois receberem os moradores de braços abertos no quintal de sua casa. Aí a coisa muda de figura.

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  2. Esse bando de petista puxa-saco de bandido, que critica os moradores que pagam impostos por não quererem uma vila no bairro, deveriam abrir as próprias casas para “reassentar” esse povo todo antes de querer chamar um cidadão de fascista, segregacionista, ou coisa que o valha.

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  3. mas não tem bla bla bla, todo mundo sabe o que acontece nos lugars que fazem isso..

    Vira uma cracolandia…

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  4. Os moradores estão certos. Ter essa favela do lado (já que a regra neste tipo de empreendimento é o relaxamento dos seus habitantes e muito mais da Prefeitura) só vai desvalorizar ainda mais os imóveis em uma cidade que não tem muito futuro imobiliário, além de que trará violência, tráfico de drogas e mais assaltos…. Mas e tbm porque na época do Pontal não apoiaram os empreendimentos que lá estavam previstos???. Essa gente tem bem a cara daqueles que ficaram dizendo que iam privatizar o Guaíba…

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  5. não sei pq mas a primeira coisa que me veio a cabeça foi a teresa cristina reunindo suas vizinhas socialites para impedir que a griselda (ou seja la o nome da pereirão) viesse a morar no condominio chique do rio de janeiro.

    novela também é cultura e mostra bem que ainda somos uma sociedade segregacionista. Estariamos virando uma jerusalem oriental?

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    • Estratégia clássica, quem discorda de mim é por que tem algum preconceito. A desvalorização do imóvel é fato, não é preconceito. Mas com certeza pode ser uma racionalização de um preconceito, mesmo sendo verdade.

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      • O pessoal de Porto Alegre que vibrou a favor da churrascada no Higienópolis em São Paulo por causa da estação do metrô de gente “diferenciada” agora sofre com a febre da incoerência. Pimenta nos olhos dos outros é refresco.

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      • Caue, como disse, estratégia clássica para desqualificar quem discorda de uma opinião é chamar de preconceituoso. Releia meus posts e vais ver que não estou me posicionando totalmente contra, só não sou invariavelmente a favor.

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      • Desculpa Felipe, eu entendi sim, não falei exatamente para você. Mas é que eu percebo uma mudança no discurso das pessoas que escrevem aqui que eram a favor do metrô no Higienópolis em São Paulo e agora se dizem contra criar moradias de pessoas de baixa renda naquela região. As pessoas diferenciadas são as mesmas.

        A questão do preconceito a que me refiro se deve o fato que nem toda comunidade pobre é drogada e violenta, nem toda comunidade rica é presunçosa e segregacionista.

        Eu só acho que há espaço para todos. Se realmente os moradores têm problema de conviver com gente diferenciada, eu venho com um comentário que fizeram para mim ao falar dos prédios altos: ‘os incomodados que se mudem’.

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      • Ah, concordamos então.

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  6. O que rebaixo o valor dos imóveis do Cristal é aquele imenso complexo de vilas degradadas e sem urbanização logo ali do lado. Então deveriam agradecer a existência de um projeto de alargamento da Av. Tronco e pedir mais…, mas reurbanização daquelas vilas, mas construção de residências populares e mais intervenção do Poder Público naquela região da cidade.

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    • Discordo, a grande maioria vê pouca diferença entre aquelas vilas pequenas no valão e estas habitações populares horrendas que a PMPA costuma construir.

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      • Só para dar um exemplo, por 3 vezes fiquei interessado em comprar um imóvel no Cristal e minha esposa não aceitou fechar o negócio exatamente por causa daquelas vilas.

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      • Acredito. Mas acredito que vá continuar não querendo com um monte de sobradinhos da PMPA que em uns 20 anos estarão virados em puxadinhos e outras adições. Se fizessem construções como aquela na esquina da Princesa Isabel com a João Pessoa até seria razoável.

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        • Aquele edifício foi o único projeto decente de habitação popular, e olha que ainda teria alguns aspectos a melhorar. Um caso que eu venho acompanhando a algum tempo é o reassentamento das vilas Dique e Nazaré, e logo ao ver toda aquela área ser desmatada para espalharem aquele amontoado de sobrados com área para saírem os infames “puxadinhos” eu já acreditava que o mais adequado seria construir blocões de apartamentos, mas aproveitando o comprimento dos terrenos me parecia mais adequado aproveitar e fazer com rampas (que acabariam tendo uma inclinação leve) no lugar das escadas, já que nesses prédios populares não costuma ter elevador (e mesmo que tivesse provavelmente não receberia manutenção adequada). População de favela também está sujeita a envelhecer, e pode vir a ter problemas até para subir uma escada dentro do próprio sobrado, e no caso específico de Porto Alegre eu já percebi que em alguns conjuntos de apartamentos populares (como o que tem na Baltazar perto de Alvorada) os apartamentos destinados a idosos e deficientes físicos normalmente ficam restritos ao piso térreo, que poderia ser aproveitado para a instalação de pontos comerciais.

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  7. Pergunta que não quer calar:

    Será que estes ilustres moradores votaram no referendo sobre o Pontal do Estaleiro?

    Será que votaram a favor, na época, para que seus imóveis fossem valorizados?

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    • Rafael, eu moro ali e votei a favor do Pontal.

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      • Pois é Felipe… Você e eu votamos a favor. E quanto ao resto?

        Lembro que pouquíssimos votaram naquele referendo.

        Onde estavam estes cidadãos que não votaram e não ajudaram a melhorar o futuro do bairro e da cidade? Simplesmente deixaram o retrógrados vencerem o referendo.

        Agora reclamam que a prefeitura está construindo moradias populares. Se o Pontal tivesse sido aprovado, teríamos um marco turístico e urbanístico naquela área valorizando ainda mais toda a região.

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    • Eu acho que os que votaram no não sequer passam perto do Pontal 99% do ano. Mas nos protestos se diziam moradores da área.

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  8. Acho que o blog é esse: http://amigosdocristal.spaceblog.com.br/.

    No primeiro artigo já temos o Girafális botando culpa em todo mundo por não conseguir tocar a obra. Me pergunto onde ele mora quando acusa a classe média de ter pensamento pequeno…

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  9. Eu vi alguns outdoors perto de casa mesmo, mas não aguardei o link que tinha neles. Alguém teria?

    Acho totalmente normal o pessoal se queixar, e pois mais que fiquem dizendo que não, desvaloriza imóveis sim, por que culturalmente existe este preconceito social. Temos casos assim no Menino Deus, no Santana… em todos casos houve desvalorização.

    Sem falar que conhecendo nossa ilustre prefeitura, vão continuar construindo sobrados com bastante espaço para puxadinhos, ou seja, favelização.

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    • E “culturalmente” também existe “preconceito” com as bocas de crack e o tráfico que ocorrem nas favelas de todos os tamanhos, e por conseguinte com o crime que aumenta muito em volta.

      É isso aí, o problema é o “preconceito”….

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  10. Isso é fogo…

    Colocam essas futuras favelas (por que fazem cada coisa nessas casas populares que da nojo, o lixo é um absurdo…) em lugares onde todo mundo ve, colocaram uma ali na Voluntarios, perto do centro, como querem arrumar uma area podre colocando isso ali?
    É um lixão a ´ceu aberto com viciado em crack em tudo que é canto, a prefeitura ta querendo fazer das nossas favelas pontos turisticos como no Rio?
    Se for isso, ta fazendo isso muito bem.

    Eu sei que vai vir algum mala metido a fodão defensor dos pobres, mas mostrar pobreza é foda, terminar com a pobreza é mais foda ainda… então não torra meu saco por causa do meu comentario, ja sabe onde vou mandar, né?

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