Av.Salgado Filho: Um erro basta, por David Coimbra

O meu amigo João Raul Borges Neto morava na Salgado Filho. Um apê nos píncaros. Vigésimo andar, se não me engano. Volta e meia eu ia lá, estudar com ele, que éramos colegas de segundo grau no Piratini. Mal entrava, e o João apontava para uma depressão no tapete da sala.

– Uma loira estava deitada aqui agora mesmo – ele dizia, e acrescentava com casualidade: – Nua.

Cara, um guri de 15 anos de idade ouvir isso, naquela época… Eu ficava olhando para o tapete. Que sorte tinha o João Raul. Ele viera do Interior profundo do Rio Grande, atravessava a febre dos 18 anos e agora morava sozinho num apartamento na Salgado Filho. O que podia querer mais? A vida mundana pulsava na Salgado Filho, com suas palmeiras longilíneas se elevando do canteiro central, seus bares, cafés e cinemas, seus transeuntes elegantes que passeavam sem pressa pelas calçadas, olhando as vitrines, sorrindo, sorvendo a existência. A Salgado Filho era um bulevar, era isso que era a Salgado Filho.

Avenida Salgado Filho - Centro Histórico. Foto: Rogério Penna

O que aconteceu com a Salgado Filho? Agora mesmo recebi um e-mail de um morador da avenida queixando-se da sujeira, dos mendigos, do tráfico de drogas, da insegurança. O que houve para que tudo se tornasse tão diferente? Para que piorasse tanto?

Vou dizer o que houve: uma única decisão errada. Uma só: no fim dos anos 70, a prefeitura resolveu lá instalar pontos finais de linhas de ônibus. Estacionados ao longo do meio-fio, os ônibus monstruosos passaram a cobrir a visão dos passantes e bloquearam o acesso ao comércio, as filas de passageiros ocuparam as calçadas e afugentaram os frequentadores dos bares e dos cafés. A Salgado Filho foi violentada.

Mas, obviamente, não era essa a intenção dos administradores. Eles pretendiam melhorar a vida do usuário de ônibus. Em tese, tratava-se de uma ação popular; acabou sendo uma ação pouco inteligente. Talvez os gestores da época não compreendessem que a cidade é um organismo vivo, que cada lasca de bairro tem seu estilo e sua vocação que precisam ser respeitados.

A Salgado Filho é uma avenida para ser percorrida a pé, para que o caminhante levante a cabeça e veja um pedaço do horizonte, algo que normalmente não é visto no coração da grande cidade. É para ser usufruída, não para ser utilitária.

Há tantas vocações perdidas em Porto Alegre. Aquele prédio inconcluso em frente ao Chalé da Praça XV. Vi um prédio parecido em Berlim. Os alemães o transformaram em um centro de cultura e lazer alternativo. Lá acontecem exposições e festas, lá as pessoas se divertem em meio ao que devia ser escombros.

Por que não conseguimos fazer algo assim com nossos projetos falidos, como o Aeromóvel, com os nossos planos jamais concretizados, como o Estaleiro Só?

Nós brigamos demais. Temo que, por causa de nossas brigas irresolvíveis, outra vocação de Porto Alegre vá se perder: a vocação boêmia da Cidade Baixa. Só vejo gente contra ou a favor, neste caso da Cidade Baixa. Só vejo birra. Por que não conseguimos nos entender e chegar a um denominador comum em que todos saiam ganhando? Há que se conversar antes de se tomar uma atitude. Porque, a Salgado Filho já mostrou, basta uma só atitude para causar o mal de toda uma geração.

David Coimbra



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15 respostas

  1. Moro na Salgado filho desde de dezembro, mas to pensando seriamente em me mudar, porque a madrugada é um saco. Bandos de bardeneiros e desocupados chutando tudo e gritando a noite toda. Policiamento é raro (se existe são camuflados). Os “moquifos” da Marques da Herval deveriam ser interditados, sempre tem briga e bebados urinando nas portas dos prédios.
    Durante o dia, as filas quase ocupando toda a calçada e os onibus fazendo manobras que nem o melhor motorista do mundo coseguiria imaginar.

    Realmente tentar morar nessa avenida que é muito bonita e bem centralizada tem que ter muita paciência….

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  2. A Salgado Filho é, para mim, a mais bela avenida do centro de Porto Alegre, junto com a Borges.

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  3. Tira os carros do centro = acaba com o centro.
    Rico não anda de onibus, tira os ricos do centro e fica só o povão, ae só teremos lojas de 1,99 por la.

    Metrô, terminal gigante de onibus e um aeromovel ligando tudo isso resolveria o problema.

    E dalhe, 3 lugar nos comentarios no Blog.
    ashashasuhasu

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    • É isso que tem que mudar, essa mentalidade de que rico não usa transporte público. É a mesma mentalidade que faz com que todos desejem andar de carro.
      Diminuir o acesso de carros ao centro é valorizar o centro. Menos poluição, menos barulho, mais qualidade de vida. Moro no centro, não tenho mais carro e vou me mudar daqui por causa da sujeira do ar e do barulho.

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      • O problema é que nós estamos no Brasil, onde o transporte público não é levado a sério, e por causa dessa percepção de que transporte público é “coisa de pobre” não se investe em qualificação, que poderia atrair um público com melhor condição financeira mais facilmente. Pode ser mais barato, mas se for para ficar em pé o rico não vai chegar nem perto do ônibus…

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  4. Boa David!!!

    Tem de acabar as brigas, chimangos e maragatos devem ser recuerdos do passado!

    Esses ônibus são fontes de poluição, barulho e trânsito caótico!

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  5. Os Portais eram um projeto fadado ao fracasso, para se ter uma ideia..propunha ( entre tantas coisas..) ter tunel viário automotivo na esquina democratica, isto conflituava totalmente com a possivel implantação do metro ( que passaria inevitavelmente pela Borges), além de ser um certo paliativo ou um projeto ainda com uma visão limitada de uma estrutura viária para a cidade.

    Hoje esta sendo repensada e readequada num novo contexto.

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  6. A decadência do Centro se dá a partir da migração dos moradores locais para outros bairros. Um bairro não sobrevive se não mescla comércio, moradia e serviços. Observem os novos projetos de urbanismo mundo afora: revitalização de bairros, de orlas, recuperação de áreas industriais abandonas, todas mesclam ocupação comercial e residencial.

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    • Curiosamente é o mesmo discurso do prefeito de Barcelona, olha que coincidência! Não e à toa que aquela cidade é modelo de integração convívio urbano.

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  7. retificando, leia-se “era que seria retirado…”

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  8. Lembro que uma das criticas que faziam no periodo eleitoral questionando a Adminstração chamada Popular ou do PT para alguns, era seria retirado da Salgado Filho os onibus, bla,bla, bla… Passou-se muitos anos dos “novos” administradores e nada foi feito!!

    Somente essas cronicas que não trazem nenhuma novidade em relação a essa avenida!!

    Nada de novo!!

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  9. Iam tirar os onibus do centro, mas cancelaram o portais.

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  10. Precisam tirar os onibus do centro…

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    • Viu o ranking dos comentaristas que coloquei na lateral do Blog ?

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    • Não só os ônibus – carros, motos e qualquer outro tipo de veículo (menos bicicletas). Ok, não proibir, mas cobrar pela quantidade de horas que o carro vai rodar pelo Centro. Quem conhece a calma que se transformou o Centro de Londres após a cobrança de taxas para veículos vai entender o que estou falando. Claro que, para isso, precisaríamos de boas estações de metrô espalhadas pelo Centro e de brinde várias linhas de bonde – especialmente de fora para dentro do Centro, para buscar as pessoas que deixaram seus carros estacionados nos arredores do bairro.

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