Complexo do São Pedro entra em processo de finalização

Projeto tocado por Eva Sopher leva cultura ao Centro de Porto Alegre MARCO QUINTANA/JC

“Da chupeta à bengala. Todo mundo, de todas as idades, de todas as classes sociais. Todos vêm para cá.” Assim Eva Sopher, aos 88 anos, presidente da Fundação Theatro São Pedro, descreve o público dos espetáculos apresentados no prédio que descansa há mais de cem anos em frente à Praça da Matriz. Local que, em breve, fará parte do maior complexo cultural da América Latina, o Multipalco. Dona Eva exibe orgulho enquanto conta as trajetórias de superação de seus dois pupilos.

A empreendedora cultural, natural de Frankfurt, fixou-se na Capital gaúcha em 1960, após ser convidada para chefiar o Pro-Arte, projeto que organizava concertos e espetáculos de teatro. Dona Eva se lembra de seu primeiro contato com o teatro que viria a adotar pelo resto da vida. O encontro foi em um recital de piano, dois meses após sua chegada à cidade. “Foi amor à primeira vista. Porém, também senti desde a primeira vista como tinha coisa errada ali dentro”, referindo-se ao estado em que se encontrava a casa após anos de descaso e abandono.

No primeiro convite que recebeu para coordenar a restauração do São Pedro, Dona Eva inicialmente recusou a proposta. Entretanto, após ouvir de seu marido que “ou tu pegas ou vão derrubar como fizeram com o irmão gêmeo do lado (o antigo o Tribunal de Justiça, demolido após um incêndio em 1950)”, dona Eva não teve dúvidas e abraçou o São Pedro. O resultado é que, desde então, fundiu sua imagem tão fortemente ao prédio que hoje é impossível falar de um sem mencionar o outro.

Já se passaram 52 anos. Dona Eva não só devolveu um São Pedro restaurado e ativo à comunidade porto-alegrense como presenteou-a com outro ambicioso projeto: um enorme complexo cultural com tecnologia e recursos de ponta batizado de Multipalco. Incialmente vítima de desconfiança devido à grandiosidade dos planos apresentados, o projeto sofreu para arrecadar verbas durante a construção. Medidas de incentivo como a Lei Rouanet ou a Lei de Incentivo à Cultura (LIC) burocratizaram e dificultaram o processo de arrecadar financiamento. “Antigamente existiam os mecenas, os cidadãos que faziam questão de participar da cultura. Hoje você dá alguma coisa e pergunta quanto é que volta para mim”, desabafa a gestora cultural.

Por outro lado, é com carinho que Eva se refere aos “queridos” da Associação Amigos do São Pedro. Os mais de mil associados ajudam a custear a manutenção do teatro ao doar mensalmente R$ 45,00, que são revertidos em benefícios como tele-entrega exclusiva de ingressos e desconto de 50% em estreias de peças. “Claro, esses R$ 45,00 são relevantes, mas a fidelidade e o encorajamento que isso nos dá é o mais importante”, diz ela.

Espaço físico terá mais de 20 mil metros quadrados

Começando a fase de finalização do Multipalco, Dona Eva não tem dúvidas do sucesso do futuro centro cultural e compara o descrédito inicial do projeto com a restauração do São Pedro que, após nove anos de dedicação, foi finalizada em 28 de junho de 1984. “Vai acontecer o mesmo que com o São Pedro, as pessoas, durante a obra, não davam valor nenhum, não acreditavam, diziam que não ia ficar pronto nunca. E hoje o Multipalco é um fato que ninguém mais questiona”, afirma.

Já estão finalizados a concha acústica, o restaurante e o estacionamento, mas ainda faltam o teatro italiano, o cineteatro oficina, a sala para a orquestra, as salas para os naipes, as salas voltadas para oficinas e ensaios, o salão para Corpo de Baile e o foyer com quatro lojas e cafeteria para atender ao público. “Em setembro deste ano já será possível usar as salas de ensaios e workshops”, afirma Diego da Maia, assessor do Theatro São Pedro.

O Multipalco e o Theatro São Pedro, juntos, terão um espaço físico maior que o do Lincoln Center de Nova Iorque. São mais de 20 mil metros quadrados voltados para disseminação da cultura e do lazer, tudo isso localizado no Centro Histórico de Porto Alegre. “É absolutamente inédito, no Centro de uma cidade, construir um complexo cultural de oito andares dedicados exclusivamente à cultura”, reafirma dona Eva.

Aos poucos, o trabalho de formiguinha se transforma em um legado para futuras gerações. “Nós escolhemos esta cidade para viver e fomos recebidos de maneira generosa e gentil. Nós abraçamos a cidade e ela nos abraçou. Eu deixo filhos, netos e bisnetos, mas também deixo algo mais”, finaliza Eva Sopher.

Jornal do Comércio

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Que mania idiota que as pessoas tem de dizer que é “o maior da América Latina”. Que coisa besta isso. Não tem porque esse comportamento. Duvido que outra cidade no continente não tenha um complexo tão grande ou importante como será este. 



Categorias:Arquitetura | Urbanismo, Cultura, Prédios, Teatro

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26 respostas

  1. Moro ao lado do multipalco, nos fundos do teatro Sao Pedro e posso ver da frente de meu apartamento, infelizmente o conceito que tenho e de que e um imenso elefante branco, nunca vi ser utilizado para nenhum espetaculo que se possa dizer de qualidade, uma imensa area inutil concretada com muito pouco em estetica, um restaurante elitizado e que na maioria do tempo fica fechado. Para completar, na ultima semana ficamos sem poder dormir pois havia uma comemoracao do encerramento da temporada do guri de Uruguaiana que demourou em plena terca-feira ate as 2 da manha sem a menor consideracao com os moradores do entorno e respeito a lei do silencio. So muita gente embriagada ao gritos e som de pagode de quinta. Quanto ao Sao Pedro sempre os mesmos espetaculos, guri de Uruguaiana, Homens de Perto e Tangos e tragedias. Nenhuma outra atracao de peso. Considerando o que se investe de dinheiro la eu pergunto, é ou nao é um enorme elefante branco?

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  2. Há uma coisa que me irrita muito mais: é quando dizem que o pôr do sol é o mais bonito DO MUNDO.
    E não falam isso em tom de licença poética. As pessoas acredtam nisso e acham Porto Alegre um astro internacional e um destaque no pais. Mas o que me enoja não é isso. Se achar o bom é uma coisa positiva e estimulativa para um povo. O que me enoja é que um povo que acredita ter a OITAVA MARAVILHA DO MUNDO nunca fez nada em função disso.

    Já fui em João Pessoa, que tem um adorado pôr do sol, o por do sol “do Jacaré”. É um evento! Vai muma multidão de pessoas da cidade. Éum programaço! Há bares e restaurantes na beira do rio Jacaré. Sim, na orla. Aí todos os dias tem um músico que vai num barco e, de dentro dagua, toca um Bolero de Ravel extamente quando o sol está caindo. Lindo. As pessoas ficam extasiadas. Uma multidão de gente fica fotografando o sol cair.
    No local há uma rua cheia de lojinhas charmosas vendendo souvenirs do Por do Sol do Jacaré. E mais bares legais. É um point lá.
    Ah, o pôr do sol de lá é lindo, laranja, tem várias nuances , é deslumbrante.

    Já em Porto Alegre… É vergonhoso e completamente inacreditavel que a dinâmica da cidade nunca caminhou em direção a realmente viver sua fantástica e totalmente incomparável atração. A cidade não vivencia, não curte, não explora comercialmente… Fica parecendo até que é uma mentira que realmente possuimos esse espetáculo. Isso constragedoramente desnuda nossa mentalidade provinciana e pequena, de quem se acha mas na verdade age com uma autêntica pequenês.

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