ARTIGO: Estádios novos, miséria antiga, por Milton Hatoum

“Destruir um patrimônio da arquitetura amazônica é um lance de extrema crueldade e ignorância”

Milton Hatoum*

Estádio Vivaldo de Lima, Vivadão, de Manaus, demolido em 2010 (crédito: Arquiteto Severiano Porto)

Autor de contos, poemas e romances, como “Dois Irmãos”, “Cinzas do Norte” e “Relatos de um certo Oriente”, o amazonense Milton Hatoum é um dos melhores escritores brasileiros contemporâneos, com trabalhos traduzidos para o alemão, inglês, francês, italiano, russo, espanhol e outros idiomas.

Neste artigo, ele discute a perda de um dos ícones da arquitetura amazonense e joga uma pá-de-cal sobre as esperanças de qualquer legado social da Copa de 2014.

A arquibancada do Parque Amazonense era um treme-treme, o esqueleto de madeira podia desabar antes do primeiro gol, mesmo assim eu não perdia uma partida do clássico Rio Negro x Nacional. Quando chovia ou ventava, mangas maduras caíam na arquibancada e eram disputadas pelos torcedores. Como não havia drenagem no campo, a chuva torrencial transformava o gramado num parque aquático, o jogo era cancelado, e aproveitávamos para brincar na piscina formada pela natureza.

O Parque, situado num bairro humilde e arborizado de Manaus, era um dos destinos de quem gostava de futebol. No fim dos anos 60 foi construído o estádio Vivaldo Lima, vulgo Tartarugão, projetado por Severiano Mário Porto. Formado no Rio, esse arquiteto mineiro se mudou em 1966 para Manaus, onde viveu por mais de 30 anos. O projeto do Vivaldo Lima ganhou o prêmio Nacional de Arquitetura; outros projetos de Severiano foram premiados no Brasil e na Argentina.

Ele fez dezenas de projetos que, a meu ver, traduzem uma compreensão profunda de Manaus e da região amazônica. As soluções técnicas para proteção do sol e da chuva, o uso consciencioso da madeira na estrutura, janelas, portas, escadas e painéis, um sentido estético que integra a estrutura à fachada e ao espaço interior, tudo isso fez dos projetos desse mineiro-carioca-amazonense um lugar para se viver e trabalhar com conforto.

Inaugurado em abril de 1970, o Tartarugão chegou a receber mais de 50 mil torcedores em uma partida em 1980. Era um projeto grandioso, mas essa grandiosidade tinha fundamento: o arquiteto havia previsto, para as próximas três décadas, um crescimento demográfico incomum, explosivo de Manaus. Para os jogos da Copa do Mundo em 2014, o Tartarugão poderia ser restaurado e tornar-se um estádio perfeitamente adaptado aos torcedores amazonenses. Mas de nada adiantou o olhar visionário de Severiano Porto. O estádio foi demolido para dar lugar a uma obra gigantesca, caríssima, faraônica, com capacidade para 47 mil torcedores.

Destruir um patrimônio da arquitetura amazônica é um lance de extrema crueldade e ignorância. O que há por trás dessa crueldade e incultura? A ganância, a grana às pencas, o ouro sem mineração, sem esforço. O Tribunal de Contas da União já descobriu um superfaturamento na demolição do Vivaldo Lima e em todas as etapas da construção do novo estádio. Aos R$ 580 milhões do orçamento previsto, será acrescido um valor astronômico. Afora o superfaturamento e a demolição de uma obra premiada, há outra questão, demasiadamente humana: Manaus é uma das metrópoles brasileiras mais carentes de infraestrutura. Os serviços públicos são péssimos, na zona leste da cidade proliferam habitações precárias (eufemismo de favelas), a violência atinge níveis alarmantes.

Depois da Copa, o novo estádio será um monumento vazio, ou um desperdício monumental. Quem paga a fatura (ou a superfatura) são os mais pobres, que necessitam de serviços públicos eficientes, e não de obras grandiosas.

Isso vale para Manaus e para as outras cidades que vão sediar os jogos da Copa. Vale para o Recife e Rio, e também para São Paulo, cuja prefeitura optou pela renúncia fiscal para ajudar a construir o tal do Itaquerão. E isso numa cidade em que faltam centenas de creches, mais de 1 milhão de habitantes sobrevivem em favelas e cortiços, milhões sofrem diariamente com a precariedade e o caos do transporte público.

Mas agora é tarde. Sim, impludam todos os estádios! Construam obras colossais e faturem montanhas de ouro! Superfaturem tudo: desde a demolição até a pintura dos camarotes da CBF e patrocinadores! Joguem no entulho e nos esgotos a céu aberto a dignidade e a esperança do povo brasileiro. Enterrem de uma vez por todas a promessa de cidadania! Caprichem na maquiagem urbana e escondam (pela milésima vez) a miséria brasileira, bem mais antiga que o futebol. E quando a multidão enfurecida cobrar a dignidade que lhe foi roubada, digam com um cinismo vil que se trata de uma massa de baderneiros e terroristas.

Digam qualquer mentira, mas aí talvez seja tarde. Ou tarde demais.

* Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo (22jun2012)

PORTAL 2014



Categorias:Artigos, COPA 2014

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16 respostas

  1. Não levas a mal meu, não concordo com teu pensmento, quando o sexo é com menininhas de 10 a 13 ou 14 anos, prostituidas pelos próprios parentes por um prato de comida,

    Se fosse com tuas irmãs ou primas gostarias?

    Viver num país com uma fama destas é simplesmente vergonhoso, o pior é que as autoridas sabem e fingem que não existem.

    A putaria não é só no nordeste, é em todo país, e também é no sul, o Rio Grande do Sul não é exceção.

    Nas primas e irmãs dos outros vale nas nossa não, esta é a questão!

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  2. O que vc trm contra sexo, carnaval e futebol. São as melhores coisas que existem na vida. E são tão boas que os gringos querem de toda forma vir para o Brasil, já que somos o país das melhores coisas do mundo.
    Sua opinião é de um moralista tão vil, que de tão irrelevante parece de vem de um velhinho de 100 anos.

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  3. Imagem do Brasil no exterior e’ carnaval, futebol, favelas e sexo facil. Isso desde 1500. E’ um cliche que nunca mudou e nao vai ser a Copa que vai mudar. Ate’ porque os turistas encontrarao exatamente isso ao desembarcar: carnaval, futebol, favelas e sexo facil.

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    • A Copa não vai mudar sozinha, Ricardo, mas ajuda. Foi o que a China fez com as Olimpíadas, é o que o Qatar quer fazer com a Copa de 2022.. Pra se mudar um país precisa começar pela economia estável, associado a melhorias de qualidade de vida. Isso está acontecendo no Brasil, mesmo que mal e porcamente. A Copa ou uma olimpíada é só o caminho pra ajudar a disseminar essa imagem. É o “horário nobre da televisão”.

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  4. Quanto a demolir estádios, até a Inglaterra demoliu o Wembley, construído em 1923! Era o templo do futebol mundial, com belíssima arquitetura. O que acontece? Estadios antigos não têm a mesma estrutura de segurança, se torna dispendioso mantê-los, podem ser causa de acidentes. Quando o tartarugão recebeu 50.000 pessoas em 1970, foram amontoados no concreto frio. Hoje isso não é mais possível, por segurança.

    Quanto ao Itaquerāo, temos que fazer uma conta simples: isenção de impostos = novo estádio sede da copa, marqueting gratuito para Sāo Paulo, turistas com seus dólares, milhares de empregos, movimento da economia pela compra de materiais de construção, etc. Sem isenção de impostos = nada de empregos, nada de turistas, nada de estádio, nada de impostos, nada de nada. Só quem ganha com isso é algum articulista demagogo.

    Quanto ao investimento público em estádios para a copa, não é dinheiro jogado fora, como já foi dito.

    Dito isto, tenho que concordar que é um escândalo que o poder público não invista montanhas de dinheiro para remover/ demolir/ urbanizar favelas. Devia ter começado com isso lá na década de 70, quando se intensificou o êxodo rural no Brasil. Hoje a qualidade de vida da população brasileira seria outra.

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  5. Falou tudo!

    Quanto tempo durará a Copa, e quem realmente ganhará com ela?

    Os empresários do ramo turístico, de outros segmentos poderão colocar seus produtos na mídia, os políticos, a própria mídia com a propaganda e a FIFA!

    O povão, com o valor dos ingressos será que poderá ir aos estádios?

    É coisa pros gringos, turistas e a elite, o povão vai ver na TV!

    Quantos clubes do Amazonas disputam a série A,B,C ou D?

    Desculpem-me a franqueza, mas após a Copa, quantos elefantes brancos ficarão por este
    país entregues ao nada com o mato crescendo?

    Nas regiões Sul, Sudeste, ainda vá, em parte do Centro-Oeste (Goiás), mas acima de Minas Gerais , Nordeste (Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte) e Norte, tem futebol das Séries A, B e C, alternando-se os clubes, um sobe, outro desce e sempre foi assim.

    Tem justificativa as fortunas investidas, se fossem verbas privadas, tudo bem, mas não é isto que está acontecendo, é dinheiro do povo para o privado.

    O resto ficará entregue às môscas, é muito dinheiro público desviado para poucos oportunistas que já são milionários, e a indústria da sêca chupa o resto.

    Quando abordam-se assuntos realmente que interessam, saúde, educação, segurança, uma qualidade digna aos aposentados, os que governam tratam o povo com lixo.

    Esta demagogia sobre este evento já dá nôjo mesmo, serão trinta dias de futebol, depois, tudo voltará pra mesma porcaria neste país, como se isto resolvesse os problemas de nosso povão, como dizem os italianos, “paura”!

    Ainda bem há mentes, pois os interesses do poder são evidentes nestas maracutais, e PT.

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  6. É infelizmente nosso maior e unico patimonio futebolistico foi demolido dando lugar a um outro que futuramente pode se tornar um “elefante branco” para a maioria do povo amazonense, mas espero que não. Mas fazer o que….

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  7. As pessoas só vêem problemas em tudo. Tudo é o legado. Concordo que deve-se pensar na continuidade dos projetos, mas precisa-se pensar primeiramente no propósito principal que é a Copa do Mundo e o que ela traz pro Brasil. Benefícios de imagem que são incalculáveis pra começar… Esse negócio que tudo é desperdício tem que ser esquecido. O negócio se chama “Copa do Mundo” e vaio trazer para o país a as cidades envolvidos ganhos no turismo e na imagem que perdurarão por anos… Foi assim em todos os países onde rolou Copa do Mundo.
    Até mesmo a Eurocopa que é localizado e não mundial tem trazido benefícios enormes pra Polônia e Ucrânia. O Marketing tem um valor incalculável, não tangível que gera frutos por anos a fio a qualquer lugar. Tem empresa que só sobrevive em cima do marketing. O próprio Brasil é beneficiado com o Marketing do país do futebol, herança de décadas atrás onde nosso futebol era realmente uma raridade e felicidade para os amantes do esporte no mundo todo. Há muitos anos o Brasil não é mais esse país e mesmo assim em qualquer lugar longíquo quando se fala em Brasil, a pessoa associa ao futebol.
    E é inegável que o bom momento econômico do Brasil tem a ver também com o auê em cima do país da próxima Copa e da próxima olimpíada. No mundo dos negócios, imagem é tudo, e quanto mais o Brasil conseguir apagar a imagem de país do tráfico e dos esfomeados para a imagem de um país que superou problemas e hoje é exemplo para o mundo, mais ele ganha. Dinheiro atrai dinheiro. Pensamos apenas nisso.

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    • Muito bom o teu comentário Anderson ! É sempre bom ver todos os lados. E é normal que muitas pessoas façam isso. Não é bom tirarmos conclusões apressadas…

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    • Entendo que não é bem assim. Imagem é uma faca de dois gumes. Se o turista poderá encontrar boas imagens no país, também poderá encontrar péssimas. Essa promoção toda da Copa, por ex., não vai evitar que o turista não seja assaltado ou até assassinado em tantos locais e horários tenebrosos abundantes nesse país. A miséria visível não será erradicada num passe de mágica. E a sacanagem e roubalheira dos desvios e superfaturamentos não podem ser justificados simplesmente como um mero “custo da imagem”. O que se está fazendo no caso do Itaquerão então é um escárnio e um absurdo infinito no uso do dinheiro público, com o aval do ex-presidente na sua média com uma das maiores torcidas de SP. Usar como exemplo países europeus não vale, pois eles estão anos-luz na frente em termos de experiência, cultura e educação. O que sempre faltou no Brasil é planejamento e organização séria, honesta e legítima das suas prioridades nacionais, aliado à honestidade e integridade no trato com o dinheiro do povo.

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      • Mas esse é o trabalho a ser feito, Gilmar. Cuidar para que os turistas sejam bem recebidos e não vítimas de assaltos e sequestros. O Brasil sabe como organizar um evento dessa magnitude. Desde a Eco 92, todos grandes eventos mundiais realizados no Brasil foram exemplos de segurança, mesmo que pra isso, em 92 o exército brasileiro teve que ir as ruas durante os 20 dias para manter a segurança dos chefes de Estado. Não tem nada de faca de dois gumes. Concordo com os superfaturamentos e tal, tudo poderia ser sempre mais barato, mas mesmo que custasse o triplo ou até cinco vezes mais, os ganhos em marketing para o país pagariam a conta com juros. E sou homem de marketing, por isso sei do que estou falando.
        Quanto ao estádio do Corinthians, a única questão é que o time mais odiado por todas as torcidas deu muita sorte. Mas poderia ser a portuguesa, o Palmeiras, o timeco de Guarulhos… Nesse ponto que o dedinho do Lula foi crucial, o de favorecer o seu time e não outro. O fato é que São Paulo não poderia ficar de fora de jeito nenhum e o Morumbi foi inviabilizado. Mesmo que nenhum time assumisse os custos (e o Corinthians vai pagar, junto com o grupo de investimentos), um estádio de nível Fifa deveria ser erguido na cidade para que ela fizesse parte da Copa. Está mais do que na hora de o Brasil ser associado a SP e não ao RJ lá fora. Ao progresso, aos empreendimentos, aos trabalhadores, as empresas e não ao sexismo, prostituição, carnaval e outras coisas que vêm acompanhado na imagem do RJ. Outra coisa, a região onde o Itaquerão será erguido é uma região totalmente esquecida pelos governantes de SP. O terreno onde o Itaquerão está sendo contruído só gerava transtornos e prejuízos aos cofres públicos. Agora, só o terreno, só em impostos vai gerar em 10 anos mais de 1 milhão de reais aos cofres públicos que serão investidos na região. A região já está sendo valorizada, no mesmo nível como a região do Humaitá esquecida está sendo valorizada em Porto Alegre com a construção da Arena do Grêmio.
        Ou seja, o Corinthians só foi beneficiado com as vantagens.
        Numa situação hipotética, daria pra dizer que seria a mesma coisa que se tu precisasse comprar um apê e não tivesse dinheiro pra entrada e nem renda suficiente para ter o crédito aprovado no financiamento e derrepente uma construtora da vida não exigisse a entrada e aprovasse seu crédito e cobrasse juros menores. Ou seja, tu teria teu apartmento, mas pagaria com pretações mais leves e com facilidades como a não necessidade da entrada. Com o Itaquerão foi isso. Se não existisse a Copa, seria mais complicado pro Corinthians ter seu estádio. O Corinthians deu muita sorte do problemão gerado pela exclusão do Morumbi e se beneficiou das vantagens oferecidas para ter seu estádio. Mas ele vai pagar, como tu também pagaria o apê em questão.

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    • Tenho dúvidas sobre o que foi comentado, aí em cima! Qual a imagem da África do Sul, após sua Copa? Para mim, ela continua sendo o país do Sul da África, um miserê enorme nas periferias das grandes cidades, há um micro-país dentro de si (malandramente)! Claro que houve, acredito, muito dinheiro, durante a Copa! Mas, qual a imagem que ficou? Acredito que o filme sobre ETs (não lembro o nome), fez muito mais pela South Africa, que a própria Copa! E, já li, no espaço web, que os estádios estão às moscas…

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      • Pra começar, o filme em questão pode ter sido filmado na África do Sul justamente pelo fato do país estar em evidência na época. Assim como a indústri nacional de cinema anunciou recentemente que o número de pedidos para filmarem películas no Brasil aumentou em mais de 400% nos últimos 2 anos. E os pedidos não param de chegar. Quanto a imagem da África do Sul, economicamente o país está em evidência, querendo inclusive beliscar um pedaço do nick BRICS. Tanto que nos últimos tempos, a mídia tem tratado o bloco como “Bric + África do Sul”.
        Depois da Copa a imagem da África melhoru muito. A Copa, mesmo com desconfiança de muitos, foi um sucesso, os estádios ficaram prontos, a estrutura foi bem montada, seu turismo aumentou horrores, entre outras coisas. EU, que assisto muita TV a Cabo, sempre vejo a África do Sul em evidência, mais do que a Áustrália até. Seja no que se refere a Gastronomia, negócios ou turismo. Enfim…

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  8. Poxa e’ impressionante a falta de conhecimento de si proprio do brasileiro. Gastam esta dinheirama toda em ESTADIOS prq a populacao nao esta nem ai para as favelas, as acham lindas e exoticas e olha a dificuldade que se tem para acabar com elas!! Quando eu morava ai, a desculpa era que nao tinham dinhero. E agora????? Tem o dinheiro mas na se tem a vontade nem interese!!!! Ja disse antes que o brasileiro e’ carente educacionalmnente, culturamente e EMOTIVAMENTE. Tudo ai, e’ na base da emocao e do grito e todos se orgulham de ser assim, batem palmas e viram cambalhotas ainda por cima. Tento sempre usar a logica e razao para tentar explicar as coisas para o povo ai, mas ninguem quer ouvir, expecialmente se o que quero transmitir nao esteja na modinha da hora!! Tente explicar para um brasileiro que o aquecimento global antropogenico e’ uma bobagem!!! colocam ate’ animais (grilos, sapos, cobras, patos etc…..) a frente da necessidade humana, imaginem se tiver dinheiro na jogada!!! Qual a surpresa desse rapaz????????????????? De gracas a deus que pelo menos isso estao fazendo!

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  9. É de se pensar realmente… estádios estão efetivamente em uso uma pequena fração do tempo, no entanto consomem rios de dinheiro e espaço.

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