ARTIGO: Benefícios do transporte coletivo “elétrico”. Isto não tem preço. Por Rogério Maestri

Enquanto se fica discutindo o custo do transporte de Metrô nas grandes cidades, mostrando que os BRTs são a oitava maravilha do mundo, uma equipe de pesquisadores da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), publicou um fantástico trabalho intitulado “Evaluation of the air quality benefits of the subway system in São Paulo, Brazil” na revista “Journal of Environmental Management” (AQUI) Este artigo talvez venha se tornar um novo marco nas discussões do transporte público no Brasil.

Muito se fala no benefício do Metrô em termos de melhoria da mobilidade, mas sempre se contrapõe as vantagens desta forma de transporte ao custo de implantação (ou de sistemas não movidos a motor de combustão interna), com isto se justifica soluções de terceiro mundo para nossas cidades, como os BRTs. Este trabalho terá a possibilidade de mostrar que para a escolha de transportes movidos a eletricidade (Metrô, VLTs e Aeromóvel – no caso gaúcho) deve ser considerado bem mais do que mero custo de implantação.

A partir de dados de qualidade de ar que foram medidos durante greves do Metrô paulista em 2003 e 2006, eles verificam a variabilidade da qualidade do ar com e sem Metrô, eles verificaram que esta variabilidade é espantosa.

No momento que o Metrô para, naturalmente ele é substituído por outros meios de transporte (veículos particulares, ônibus e vans) movimentados por motores de combustão interna que aumentam a quantidade de poluentes no meio ambiente.

O fator mais importante avaliado no estudo foi a presença de particulados no ar, a concentração dos particulados aumentou (PM10) de 41,15mg/m³ para 101,49mg/m³ na greve de 2003 e de 43,99mg/m³ para 78,02mg/m³ na de 2006 (estimou-se que em 2006 a frota estava mais moderna e por isto não aumentou tanto a poluição).

Com estes valores eles estimaram o aumento de problemas cardio-respiratórios, e principalmente as mortes que causam estes problemas, eles atribuíram que das 56 e 67 mortes ocorridas no período por complicações cardio-respiratórias 8 e 6 (2003 e 2006) poderiam ser atribuídas a piora das condições ambientais. No trabalho são mostrados gráficos de monitoramento da qualidade do ar e estes gráficos deixam claro de forma inequívoca a correlação entre a parada do Metrô e a piora da qualidade do ar.

Através de estimativas conservadoras, foram avaliadas perdas econômicas (por diminuição de produtividade e óbitos), mostrando que o uso do Metrô produz uma economia anual entre US$13.000.000.000,00 a US$18.000.000.000,00 por ano (não errei nos zeros, são 13 a 18 bilhões de dólares!!!), só no aspecto de saúde pública. Os autores chamam atenção que as perdas econômicas causadas pelo aumento dos engarrafamentos nem foram levadas em conta, mas se agregassem isto ao estudo, o cenário favorável ao uso do Metrô ainda aumentaria mais.

Chamo a atenção, que no momento que tentam nos empurrar goela abaixo os famosos BRTs para as cidades brasileiras, em contraposição ao transporte por Metrô, VLTs e Aeromóvel, não é levada em conta no cotejamento de soluções os problemas de saúde pública causados pela poluição e gerados pelos motores de combustão interna dos automóveis, ônibus, lotações e BRTs. Em nenhum momento à poluição ZERO dos veículos movidos a tração elétrica (que até podem ser um pouco mais caros) é levada em conta, porém a saúde e a vida da população não tem preço.

Rogério Maestri – Engenheiro, Mestre em Recursos Hídricos e Especialista em Mecânica da Turbulência



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49 respostas

  1. Sem esquecer a opção da bicicleta, que se sobressai em diversos aspectos, dentre eles o menor espaço ocupado em relação todos os outros modais (acho que agora deve acabar o consenso neste tópico!).
    Além disso, pode reduzir à metade a demanda por transporte coletivo, o que é bom para a cidade mas contraria poderosos interesses. Imaginem se uma ciclovia no mesmo trajeto do metrô inviabilizá-lo do ponto de vista econômico. Será que isto é motivo para construí-la ou não construí-la?

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    • Aldo

      Devido ao meu péssimo condicionamento físico, uma bicicleta elétrica para ajudar nas subidas!

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      • Ai tá uma boa chance de conseguir o condicionamento. Mas uma bici elétrica com limite de velocidade em 25km/h é uma beleza para se sair do sedentarismo, comigo foi assim em 2007.

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      • Nada contra, mas se a bicicleta elétrica não for bastante leve, pode ser mais inconveniente que uma comum. Com uma bicicleta de 21 marchas, qualquer um enfrenta subidas. Sugiro que experimente.

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    • Pois é, se é real que uma ciclovia no mesmo trajeto do metrô, o inviabilizaria economicamente, pra que gatar tanto dinheiro construindo um, mas caso não seja que se vincule a construção dele a transformação dos corredores do mesmo trajeto em ciclovia. 🙂

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      • É difícil prever quantos irão adotar a bicicleta no longo prazo. Fico preocupado que esta incerteza seja vista como um fator de risco para o negócio do metrô e, assim, impeçam a construção de uma ciclovia no espaço que hoje é ocupado pelos ônibus.

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      • Não sei de onde tiraram isto, Paris tem ciclovias e bicicletas públicas (de aluguel) e o metrô continua firme. São públicos diferentes e tempos diferentes.

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  2. Bom, mas bom mesmo, seria se todo transporte motorizado, inclusive o de carros, fosse elétrico e subterrâneo! Ai a cidade seria um paraíso na superfície!

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  3. Rogério Maestri, teu artigo foi um sucesso! Formou-se consenso, muitos comentários ‘positivados’ e foi bem discutido, apesar do blog publicar uma série de outros artigos em seguida.

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  4. Excelente artigo Rogério.
    Quando criança usei muito o bonde, que foi eliminado por algum especialista em transporte urbano, como os que existem hoje na EPTC.
    Triste ver o caos, a poluição e a insegurança gerados na sequência.
    O metrô (subterrâneo) complementado por VLT de superfície seria modal de primeira ordem.
    Que tal fazer pressão sobre os candidatos a vereador, por exemplo?

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  5. No Brasil, investe- se pouco em trens (e consequentemente em metrôs) pelos mesmos motivos que não fazem as reformas estruturais (previdência, fiscal, tributária, trabalhista…) que precisamos para finalmente alcançarmos um bom nível de desenvolvimento: o retorno dessas medidas se dará a longo prazo e, para a política brasileira, é preciso mostrar serviço a curto prazo – as próximas eleições.

    Ou seja, basicamente todos sabem o que tem de fazer (aumentar a eficiciência estatal, desburocratizando os processos e exigindo resultados; investir em educação e infraestrutura; aumentar a poupança interna para reduzir juros e aumentar os investimentos, etc), mas tudo é deixado para depois em nome de uma necessidade urgente de alcançar e manter o poder sobre o Estado.

    Resumidamente: temos politiqueiros demais e não temos políticos estadistas.

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  6. Alguém podia fazer um resumo e lançar algo como manifesto ou abaixo assinado, propondo um estudo mais conseqüente dos outros modais, que aqui falamos, em relação ao BRT.

    Parece que as colaborações só somaram, está completo.

    Parabéns para nós todos, agora falta, por exemplo, o Simon (escrevi com N) tomar peito desta causa.

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    • Isso esbarra em dois problemas:

      1. Achar que essa atitude beneficiaria a Manuela. De fato isso é ingenuidade, pois o que beneficia a Manuela são as mancadas do Fortunati. Garanto que se falassem o que realmente acontece ele não pisaria tanto na bola.

      2. “Amizades” com CCs da prefeitura… Há CCs bastante sensíveis a sugestões e acham que isso é “sacanear um amigo”.

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      • Pablo

        Não é necessário fazer algo impositivo e desaforado, é só fazer algo que obrigue tanto o prefeito atual como os outros candidatos olharem neste sentido.

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    • O fato é que o BRT vai ser implementado. Antes de compará-lo a outros modais, o cidadão de Porto Alegre deveria ser informado das características do sistema que se pretende instalar aqui. Dependendo delas, O BRT pode ser muito bom ou um desastre. Por exemplo: para um mesmo fluxo de pessoas, pode-se especificar uma velocidade alta associada a uma certa quantidade de ônibus ou uma velocidade menor com um número maior de ônibus. A segunda opção custa um pouco mais, mas reduz os acidentes e facilita a circulação de pedestres e ciclistas.
      Há um bom manual com estas informações e muitas outras mais em
      http://www.ctsbrasil.org/node/565

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  7. Primeira vez que vejo todo mundo concordar, incluindo o pessoal das bicicletas com o resto…

    Nós sabemos, os especialistas em transporte sabem, o pessoal que comanda as empresas de transporte sabe, o pessoal que planeja o transporte na cidade sabe também que metrô é a solução e VLT é a unica saída coerente na superfície. A implantação dos metrôs está destravando pois está ficando difícil negar sua necessidade, mesmo com loucos como o prefeito de bogotá por aqui. Vejo dois problemas principais ainda:

    1) Ainda não temos consciência de que metrô NÃO é caro, na medida em que ele se paga muitas vezes mais que outros modais. Isto é, ainda não está na firme na consciência da população que opina a capacidade de não se surpreender com o numero frio do valor do investimento (ex. 2.3 bilhões). Uma vez tendo essa consciência, será possível termos metrô em outros troncos de deslocamento que todos sabemos poderiam usar um transporte de massa eficiente. Isto é, mais de uma linha de metrô. Por exemplo, cidades alemãs de apenas 700 mil habitantes tem normalmente duas ou três linhas de metrô. Afinal, o metrô na assis brasil não vai ter efeito nenhum na azenha por exemplo.

    2) O VLT é encarado como algo exótico. O que o fortunati falou sobre o biocombustível foi só para confundir e trocar o foco. É claro que ele sabe que biodiesel não se compara com eletricidade de hidroeletrica. Se quisessem onibus a biodiesel poderiam ter comprado toda a última frota com essa possibilidade. Então o real bloqueio em relação ao VLT não foi mencionado ali. Assim como o metrô, ele obviamente se paga, pois se paga no resto do mundo. Por que não se pagaria aqui? Obviamente então o bloqueio ao VLT é causado por interesses, que só podem vir da ATP e outras empresas de transporte, que estariam fadadas a desaparecer. A pergunta a seguir é como essas empresas conseguem engessar a administração publica de Porto Alegre para que ela não pense em VLTs? Logo, para temos VLTs teremos que quebrar a influência da ATP na administração pública, e para isso temos que descobrir exatamente como ela influencia a administração pública primeiro. Talvez o MP possa nos ajudar nisso.

    Outras questões são:
    1) a gestão pública (prefeitura, EPTC) tem estatísticas sobre volumes de deslocamento, destinos, etc? Se tem não divulgam em nenhum lugar. Meu chute é que eles tem estatísticas muito rudimentares, tal qual contagem anual do fluxo de carros nas principais avenidas.
    2) Qual a proposta da prefeitura em relação as diretrizes do transporte publico divulgadas pelo governo federal? Eu não vi e não sei quais pontos a prefeitura pretende priorizar e meu chute é que a prefeitura está estudando isso ainda num projeto que vai acabar só lá por 2016.
    3) Quais os empecilhos para que se melhore o transporte em ônibus? Lotação, informação, pontualidade, racionalidade das linhas, etc… Por exemplo: por que ainda se compram 60% dos ônibus sem ar condicionado?
    4) Por que o site poatransporte.com.br ainda não calcula rotas como o poabus (criado por um guri) fazia?
    5) Por que os congestionamentos em Porto Alegre não são monitorados em tempo real e divulgados diariamente em tempo real para que os motoristas possam usar rotas alternativas? É um procedimento simples que pode ser feito com tecnologia mais barata e simples que um pardal.
    6) Por que a secretaria de transporte (SMT) não tem uma pagina no site da prefeitura? http://www2.portoalegre.rs.gov.br/smt/ ????

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    • Já procurei essas estatísticas e simplesmente não encontrei. Só há estatística de acidentes e acidentados.

      Há o site “Observa PoA” http://www2.portoalegre.rs.gov.br/observatorio/default.php que é muito bonitinho, mas estatísticas de verdade não existem!

      Um dado interessante que garimpei junto a CEEE é que dividindo PoA na Ipiranga 70% de PoA é Zona Sul onde residem 30% da população. 30% é Zona Norte, onde residem 70% da população.

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  8. Uma pessoa tem que ser muito tonta para achar que BRT e afins sao solucao.
    Solucao é metrô. É só morar meia hora nos EUA para notar isso.

    Se pegassem o corredor de ônibus da 3a perimetral por metro elevado ou subterraneo, fazendo conexoes com o trensurb, seria bem bacana. Fora que o proprio corredor poderia ter ciclovias, e enfeites que valorizassem mais ainda a area.
    Esses numeros so provam que o gasto do metro seria uma mixaria, ótimo a longo prazo.

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  9. O mais surpreendente é que neste blog em que se discute tudo e nunca há consenso (o que é muito saudável), só há uma coisa que todos concordam, os veículos elétricos, será que o nosso executivo municipal é de outra cidade? Ou nós todos somos ETs?

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