Entidades questionam cercamento eletrônico da Redenção

Rachel Duarte

Prefeitura quer reforçar câmeras de segurança na Redenção; movimentos sociais dizem que medida vai intimidar usuários | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

O antigo debate sobre o cercamento do Parque Farroupilha, conhecido como Redenção, volta à tona. A Prefeitura de Porto Alegre pretende reforçar o número de câmeras de segurança no parque de modo a obter visualização de tudo o que lá acontece à noite. Tradicional ponto de prostituição na cidade, a medida está sendo criticada pelos movimentos sociais por intimidar os usuários e reforçar o preconceito de um local de criminalidade. “O poder público corrobora com o mito da violência exclusiva do parque, conceito defendido por setores moralistas da sociedade. Isto acarretará a inevitável invasão de privacidade dos frequentadores”, defendeu o Grupo Pela Livre Orientação Sexual, Nuances, em nota enviada à Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Segurança Urbana.

Célio Golin: governo quer higienizar a cidade | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Para Célio Golin, coordenador do Nuances, a política do governo municipal é de higienizar os problemas da cidade e não contribuir para uma efetiva segurança da Redenção. “Estamos preocupados com o que será feito com estas imagens que serão capturadas pelo Centro Integrado de Comando. Aparentemente se justifica como um ato para melhorar a segurança, mas não garante que as pessoas que serão filmadas não serão expostas. A justificativa da insegurança é relativa. Temos crimes ocorrendo em todos os cantos de Porto Alegre. A insegurança na Redenção é proporcional a qualquer outro lugar”, alega.

A entidade enviou ofício à Prefeitura no começo da semana e até esta quarta-feira (4) não havia obtido resposta por parte do poder público. Em entrevista ao Sul21, o subcomandante da Guarda Municipal de Porto Alegre, Valter Fernando de Oliveira, explica que o objetivo não é discriminar nenhum tipo de usuário do parque e que o ponto das travestis não sofrerá interferências. Mas admite: “A prostituição no local é um problema”.

O projeto para aquisição de 27 novas câmeras para colocação na Redenção e no Parque Marinha foi enviado à Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp). Se fora aprovado, os equipamentos deverão ser instalados até o final deste ano. A tecnologia de infravermelho permitirá detectar os movimentos no interior do parque e enviar alertas à Guarda Municipal de Porto Alegre. A cobertura na Redenção será quase total. As imagens serão monitoradas pelo futuro Centro Integrado de Comando (Ceic), a ser construído na Rua João Neves da Fontoura e que integrará informações de diversos órgãos municipais.

Já existem seis câmeras em atividade na Redenção; imagens podem virar provas de atos obscenos e coibir prostituição | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

“O que é isso? É um reality show? Não sabemos o que é segurança e o que é cerceamento da liberdade. As imagens poderão virar provas de atos obscenos para condenar a prostituição — que não é crime — , que ocorre no parque. Mas a sexualidade não é motivo de insegurança em nenhum local do mundo. Todos os frequentadores dos locais públicos na madrugada buscam o anonimato para namorar, fazer sexo ou outras intimidades. É um debate político e delicado, mas tem que ser feito”, cobra o ativista Célio Golin.

Atualmente já operam seis câmeras na Redenção, o que não intimida a prostituição no local, afirma a presidente da Associação Igualdade RS, Marcelly Malta. “É complicado para as travestis, mas como elas sabem onde estão às câmeras, não deixam de fazer programa. A Brigada Militar, se vê o que elas fazem, está fazendo vista grossa. Até porque prostituição não é crime”, alega. E complementa: “Não é feito sexo na rua. É dentro do parque, não é explícito. A maioria que vai lá na madrugada vai procurar sexo”.

O subcomandante da Guarda Municipal, Valter de Oliveira, contesta que “o ponto de prostituição não teria problema, mas transar na rua é uma conduta inadequada”. Segundo ele, “não temos o direito de intervir sobre os cidadãos que se prostituem, nem vamos julgar isso, mas muitos usuários deixam de ir ao parque à noite em razão do que lá acontece”.

Ocupar o espaço público é uma forma de inibir a criminalidade para alguns especialistas em segurança pública e compartilhado pelo guarda municipal. “Nossa principal atuação será coibir o tráfico de drogas que predomina nos parques da cidade e devolver a convivência aos usuários. Começaremos pela Redenção e pelo Parque Marinha, mas nossa intenção é expandir para outros pontos. Não queremos retirar a liberdade de ninguém e também fazemos a leitura de que o crime e os problemas sociais podem migrar, mas trata-se de um projeto piloto”, fala sobre futuras intervenções da Prefeitura de Porto Alegre.

Além das câmeras, será disponibilizada uma guarnição da Guarda Municipal de Porto Alegre para atender as ocorrências detectadas pelas câmeras do parque. Durante o dia, além da viatura, duas motos também atuarão na Redenção. “Mas apenas a Guarda Municipal não dará conta dos problemas dos parques municipais. Teremos que ter atuação conjunta com outros órgãos. A discussão sobre isso será feita após a instalação das câmeras”, diz.

“Não é feito sexo na rua. É dentro do parque, não é explícito”, argumenta presidente da ONG Igualdade-RS, Marcelly Malta | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Marcelly diz que está atenta para possíveis intervenções da entidade no projeto da Prefeitura, caso surjam abusos para com as travestis. “Entendo que existem práticas criminosas também nos parques e na cidade em geral. Isso acaba colocando em risco as próprias travestis e pessoas que trabalham na noite. Sou a favor de mais segurança. Mas somos contra o cercamento do parque. É um local público, tem que ser livre ao uso público”, afirma.

Já Célio Golin estuda junto a outras entidades o envio de ofício questionando a invasão da intimidade dos usuários do parque com o cercamento eletrônico ao Ministério Público do RS.

SUL 21

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Categorias:Parques da Cidade, vandalismo, violência

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49 respostas

  1. Tem que cercar sim, tem que instalar cameras sim, a cidade está se tornando territorio sem lei, sem ordem. Nós que pagamos nossos impostos queremos o direito de ir ao parque com nossa familia, com nossos filhos e amigos sem ser surpreendido por cenas bizaras de criaturas estranhas em atitudes mais que suspeitas. Até quando vamos ficar vendo a cidade se tornar um lixão.

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  2. A Redenção deve estar livre e aberta. Fechada em lugares perigosos ao usuários. Tem instalar câmeras. E o poder público “bunda mole” tem cuidar da segurança desta praça. Eu quero ir em qualquer hora na Redenção, dia ou noite.

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  3. Chegou a ser discutida a construção de uma cerca “de verdade” (um muro baixinho com grades, bonita e bem feita, por favor) ao entorno de todo o parque?

    Com 4 ou 5 portões de acesso (ou mais, que seja), apenas a ENTRADA / SAÍDA dos parques poderiam ser constantemente monitoradas por câmeras, além de seguranças da Brigada em cada portão.

    Isso não inibe a privacidade dentro do parque e inibe a ação de criminosos que, se quiserem incomodar lá dentro, saberão que, ao entrar e sair, serão filmados e terão que passar por um segurança.

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    • Pelo visto isso já foi discutido. Eu até procurei nos comentários a palavra “cerca” com a função “Ctrl+F”, mas não achou nada, não sei porque. Desculpem-me.

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  4. Quem não deve não teme. Por mim podem colocar câmeras em todas as ruas, todas as praças e em todos os lugares em Porto Alegre. Seria muito bom, assim talvez acabassem as pichações, os assaltos e as bandalheiras que alguns insistem em fazer. As minorias atualmente tem mais poder que a maioria.

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  5. Por mim, cercava com grades mesmo! O Jardin des Tuileries em Paris é todo cercado e nem por isso deixou de ser visitado ou de ser bonito…

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    • Em Paris, os parques cercados fecham à noite. Não sei se o fechamento à noite seria o caso da Redenção, mas:

      Com 4 ou 5 portões de acesso (ou mais, que seja), apenas a ENTRADA / SAÍDA dos parques poderiam ser constantemente monitoradas por câmeras, além de seguranças da Brigada em cada portão.

      Isso não inibe a privacidade dentro do parque e inibe a ação de criminosos que, se quiserem incomodar lá dentro, saberão que, ao entrar e sair, serão filmados e terão que passar por um segurança.

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  6. Há duas coisas bem distintas que até agora os representantes das entidades de apoio aos movimentos GLT estão tentando não separar, a prostituição e o uso do parque para esta. Digo não estão tentando separar, porque na realidade eles reclamam uma coisa e o motivo é outro.

    Como foi bem lembrado, no Brasil a prostituição não é crime e nem contravenção, entretanto a exibição de atos sexuais em áreas abertas para homo ou heterossexuais é interditado , sejam eles por dinheiro ou por afeição do casal.

    Então o qual o motivo de todo o protesto. O não é moral ou defesa de direitos constitucionais, o motivo é puramente econômico (medo de perda de receita)!

    O que leva esses cidadãos a exigirem a não fiscalização do parque via câmeras de vigilância, é o medo de parte da clientela se sentir intimidada e não utilizar mais este os seus serviços. Podemos demonstrar que o medo da perseguição ou da exposição dos Travestis não é verdadeiro. Vejam, quando se passa por outras regiões da cidade, por exemplo a Avenida Farrapos, vê-se que os únicos profissionais que não tem o mínimo pudor de se mostrarem são eram os travestis. Se esses travestis não tem pudor para se mostrarem, também não terão para serem filmados (aumentando a sua segurança pessoal contra ladrões e assassinos!).

    Quanto em reação da clientela desses profissionais, a situação modifica, me parece que estes sim, retirados de um possível anonimato, terão falsos pudores, ou até medo de posterior chantagem no uso das imagens desses vídeos. Logo, no momento em que forem colocadas câmeras na região, naturalmente o movimento dos senhores que pagam pelos préstimos profissionais dos travestis, terão um motivo suplementar de preocupação, a de serem flagrados em situações que lhes podem trazer problema .

    O que me levou a esta conclusão? É simples, se o parque for monitorado, teoricamente os prestadores de serviço, poderão consumá-los em locais adequados como motéis, que seria, como se diz, uma melhoria nas condições de trabalho! Embora em local mais confortável, mais seguro e mais higiênico, os clientes mais temerosos de sofrerem danos pela identificação provavelmente, restringirão em muito a sua frequência, causando danos econômicos aos vendedores de serviços.

    Para mim é simples, não devemos deixar de tornar segura uma área pública para simplesmente favorecer o uso privado desta mesma. Argumentos como os empregados pelos profissionais do sexo, não são consistentes, e pior escondem atrás de si interesses comerciais e privativistas, que vão contra a população, como um todo, que tem direito do uso desta área a qualquer hora que seja.

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  7. Como visitante chegamos a POA cheios de expectativa e vamos embora decepcionados e sentindo vergonha alheia, além de profunda lástima pelo deplorável estado de abandono do centro, tomado pela mendicância e malandragem. Acho que este cidadão Célio Golin, deveria mobilizar pessoas que comugam com suas idéias de hiperliberdade irrestrita, a fim de acolhererem os desvalidos em suas casas e de cederem seus quintais para que as pessoas possam fruir seus desejos sexuais tranquilamente.

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    • Como Guia de turismo MTurismo, fazer City Tour em Poa, é não só conhecimento mas sim um grande jogo de cintura para um roteiro onde as mazelas da Cidade não estejam expostas e “tentar” mostrar só o lado aceitável. Pq francamente já tivemos melhores dias….. e com ref à redenção, ninguém viaja, lê jornais, revistas, vê filmes onde grandes parques no exterior são`abertos à população e muito bem usados por famílias, namorados (se beijando), pessoas andando de bici, servindo de academia e fazendo Pi-nic. Será que não podemos voltar a ser civilizados mesmo que no início seja com a ajuda da Polícia, como foi por lá. Todas as áreas verdes teriam que ser usufruidas pela população, pq pagamos pora isso…Não é justo que a maioria pague para que meia duzia use de forma incorreta…por isso, cada vez mais os Ed. com estruturas sociais e a população se fechando em empreendimentos que dão ãlém da moradia, segurança e lazer…quando faço City tour com as Escolas, noto a perplexidade de crianças que nunca viram determinados locais da Cidade onde nasceram. Acho que êsse processo tinha que ser revertido..

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