Viajar de ônibus virou um desafio no Rio Grande do Sul

Transporte intermunicipal está em xeque

Transporte intermunicipal está em xeque Crédito: Mauro Schaefer

A Secretaria Estadual de Infraestrutura e Logística (Seinfra) lançará um plano diretor para reformular o Sistema de Transporte Intermunicipal no Rio Grande do Sul. A iniciativa será balizada por uma consultoria privada, que será contratada nos próximos meses.

“A meta é corrigir distorções, estabelecer mudanças regionais no serviço de transporte intermunicipal e reformular as linhas”, ressalta o titular da Seinfra, Beto Albuquerque. Segundo ele, o processo seguirá os mesmos moldes do adotado em relação às estações rodoviárias. Somente a partir dos estudos elaborados pela consultoria será aberto o processo de licitação para a contratação das empresas.

Algumas distorções começaram a ser registradas. Em função da redução no número de passageiros — fenômeno identificado nos últimos anos (devido à substituição pelo transporte escolar, a “ambulancioterapia” e, principalmente, à utilização do veículos particulares) —, algumas empresas passaram a diminuir o número de viagens e a alterar rotas. Isso ocorreu ainda para evitar que o valor das passagens tivesse grande elevação.

Nesse processo, porém, foi identificado que serviços de alta qualidade atraem passageiros. Nas linhas que ligam Porto Alegre a Caxias do Sul e a Passo Fundo, alguns ônibus têm um padrão de conforto maior. Houve investimentos em tecnologia que resultaram na oferta de Internet a bordo. “Fica evidente que, se o serviço é bom, o passageiro migra para ele”, afirma o superintendente de Transporte de Passageiros do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer), Saul Sastre.

O Daer passou a fazer levantamentos específicos por região para verificar onde há maior demanda ou não de usuários do transporte coletivo. Segundo Sastre, a ociosidade refletiu diretamente na redução de linhas e rotas, como já está ocorrendo, afetando diretamente a economia dos municípios de pequeno porte, que acabam ficando isolados.

Os setores mais afetados são comércio e serviços. O transporte de produtos e pequenas cargas, que também é feito por meio dos ônibus, está prejudicado ou encarecendo as operações. Entre as regiões, o problema pode ser constatado em Ijuí e cidades próximas, no Oeste do Estado, em Santa Catarina e Paraná.

O presidente da Federação Gaúcha de Associações de Moradores, Valério Lopes, acredita que o baixo patamar resulta da falta de mobilização da população. “É preciso haver um instrumento efetivo para que os usuários possam fazer as reclamações e terem retorno prático.” Uma das críticas é a baixa efetividade da fiscalização.

O transporte coletivo intermunicipal é um serviço público oferecido por empresas por meio de contratos. Segundo o Daer, existem 257 empresas operando em 325 estações rodoviárias, com 1.659 linhas, em 12 mil horários, utilizando 3.384 veículos. Os ônibus realizam anualmente 1,7 milhão de viagens, transportando 55,8 milhões de passageiros e movimentando R$ 600 milhões.

Falta conexão direta entre cidades

Um dos problemas que mais se agravou nos últimos anos em relação ao transporte intermunicipal foi a redução das rotas e dos horários das viagens. A situação é mais drástica entre as cidades do Interior. De acordo com o presidente da Federação Gaúcha de Associações de Moradores (Fegam), Valério Lopes, os serviços tiveram uma grande queda na qualidade a partir de 2000. “Houve uma redução drástica na regularidade das viagens e mudanças nos trajetos. Em muitos casos, não há uma conexão direta entre as cidades e muitos passageiros precisam se deslocar até a Capital para depois seguirem até o município desejado”, explica Lopes, citando ainda que a maioria dos veículos não passou por adaptações a fim de assegurar a acessibilidade universal.

Para ele, os problemas são resultantes da falta de fiscalização e do descaso com o transporte coletivo. “Ao invés de ser incentivado, é desprezado. Assim, o passageiro acaba optando por fazer a viagem de carro”, afirma. Segundo ele, uma passagem de Porto Alegre a Uruguaiana tem custo alto. “O custo da tarifa executiva fica em R$ 160. Duas pessoas gastam muito menos para fazer o mesmo trajeto em um automóvel”, compara.

Uma das alternativas para melhorar a situação, acredita Lopes, seria por intermédio de uma concorrência pública, que ainda não tem data para ocorrer. Existe grande preocupação com a qualidade do transporte intermunicipal, já que é a principal modalidade de movimentação coletiva de usuários entre as cidades. Assim, tem grande impacto econômico.

A importância do tema fez com que a Assembleia Legislativa instalasse uma Comissão Especial. Os trabalhos, que ocorreram ao longo de 2010, foram presididos pelo então deputado Luis Augusto Lara, que atualmente é secretário estadual de Trabalho e Desenvolvimento Social. Ele lembra que o chamamento para o debate se deu em consequência do volume de reclamações dos usuários e da precariedade de alguns serviços prestados. Um dos pontos mais importantes que resultaram dos debates foi a necessidade urgente da realização de licitações para definir as concessões.

“O modelo que existe se mostrou ineficiente e defasado. Por isso, a urgência de que haja um ajustamento que leve, principalmente, em conta as características regionais e municipais”, afirma o ex-deputado Lara, lembrando que em algumas cidades do interior do Estado a situação é de total abandono.

Má conservação de ônibus e atrasos

Atrasos, qualidade dos veículos e alterações nas rotas são algumas das falhas relatadas pelos usuários em reclamações formalizadas à Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do RS (Agergs) nos primeiros meses deste ano. “Com fiscalização e multa adequadas o serviço poderá melhorar efetivamente”, diz o vice-presidente da Agergs, conselheiro Luciano Schumacher Santa Maria.

Apenas nos primeiros quatro meses deste ano, a Ouvidoria da Agergs recebeu 201 reclamações relacionadas ao transporte intermunicipal de longo curso e suburbano. Dessas, 36 estavam relacionadas à conservação dos ônibus, 28 à superlotação e 24 a atrasos. Problemas com itinerário e oferta de horário totalizam nove reclamações. O transporte é o segundo serviço que mais recebeu reclamações, seguido por energia elétrica.

Segundo Santa Maria, a fiscalização é feita constantemente, com equipes apurando as denúncias in loco ou realizando vistorias periódicas, mas não avança por falta de poder de punição ou de multa. Explica que a Agergs recebe as reclamações por meio dos canais de comunicação e audiências públicas, mas não tem capacidade de exigir mudanças às empresas. “Não podemos multar ou tomar outro tipo de providência mais firme que faça com que a postura das empresas mude”, afirma, lembrando que todas as reclamações são repassadas às empresas.

Correio do Povo



Categorias:Meios de Transporte / Trânsito

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22 respostas

  1. Concordo que o transporte ferroviário em distâncias médias no RS é pra ontem. Temos em Porto Alegre nossa estação ferroviária na FRENTE do Aeroporto Internacional (que o anêmona do Beto Albuquerque quer levar pra Portão), e que com 4 linhas tronco teríamos um excelente sistema de transporte no interior.
    -POA-S.Maria (já existe a linha, poderia ser modificada e passar por Sta.Cruz, e acho que com algum esforço seriam viáveis alguns horários irem a Uruguaiana, já que a linha até lá também já existe e o ônibus é absurdamente caro)
    -POA-Caxias (pode-se aproveitar o trecho existente até Montenegro, e depois construir uma mais direta, o problema é o relevo, que vai encarecer bastante)
    -POA-Rio Grande (tem que construir inteira até Pelotas, o trecho Pelotas-Rio Grande já existe, e seria um trecho que já daria lucro por si só)
    -POA-Torres (construir inteira, teriam alguns trechos complicados dentro da RMPA (bairro Anchieta, Alvorada, Gravataí…), mas o litoral é plano, e teria lucro certo. No sul de SC temos a Ferrovia Tereza Cristin, uma linha bem interessante de Laguna a Criciúma, que talvez fosse viável ligar com essa linha também)
    Enfim, desses pontos poderiam sair linhas de ônibus pra municípios menores também, mas pra isso realmente funcionar precisa-se quebrar muitos interesses e monopólios.

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    • A Estrada de Ferro Tereza Cristina, além de possuir bitola estreita, atravessa trechos urbanizados, impossível para uma velocidade maior!

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  2. Pois é, utilizo a Unesul pra ir de POA a Erechim (via Passo Fundo), ótimos ônibus, mas poucos horários de semi-direto que não levem mais de 6 horas (tem várias linhas que passam por Nova Prata, levam 9 horas pra chegar), especialmente em horário de pico. Descobri que a Ouro e Prata dá até 40% de desconto nas passagens antecipadas para estudantes, porém elas não podem competir, apesar de ambas viajarem ao planalto central, mas esta última vai ao noroeste (a partir de Soledade, Carazinho, etc). Ou seja, mais da metade do caminho é o mesmo (via BR 386), sendo que a Ouro e Prata poderia competir com a Unesul pelo menos até Passo Fundo, que tem bastante demanda. Se eu compro passagens 1 dia antes, preciso ter sorte para encontrar 2 ou 3 lugares vagos…

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  3. Essas rodoviárias Brasil a fora são a cara da decadência do transporte por ônibus.

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  4. Grande novidade. Enquanto não se quebrar o monopólio das empresas sobre zonas do estado vai continuar custando 45 pilas pra ir a Pelotas, e 55 pra IR E VOLTAR de “excursão”!!!

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  5. O DAER, DNIT, são um porcaria de funcionários com cerébro de camarão e o Brasil é que paga pela incompetência do estado.

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  6. O problema não é a falta de exigências do DAER às empresas… o problema É o DAER!!!

    Para quem nunca olhou a legislação, o DAER restringe ao máximo a concorrência, habilitando somente 1 ou 2 empresas para cada linha intermunicipal. E ainda por cima estabelece preço MÍNIMO na passagem, proibindo as empresas de oferecer descontos (>10%) em bancos vagos ou viajantes frequentes.

    Além disto, proíbe o embarque fora da rodoviária, obrigando as empresas a pagarem 11% do preço da passagem a esta (que por sua vez costuma ser ou municipal ou concessão, sem concorrência).

    Para piorar, regulamenta o serviço de excursões o máximo possível para impedir a concorrência com as linhas regulares. Excursões somente pode ser de grupos homogêneos (estudantes, empresa ou turismo), tem de ser de ida e volta, sem embarque/desembarque no meio do caminho, lista de passageiros antecipada e a nota não pode ser emitida individualmente, somente para o ônibus inteiro.

    Ou seja, na prática não há concorrência alguma e incentivo algum para melhora constante dos serviços e diminuição dos preços.

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  7. Realmente. É um absurdo levar 4h de Bento a Porto Alegre. Não existe a possibilidade DIRETO.

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  8. Gilberto, uma boa notícia para os altos, como eu: a empresa Santa Cruz (que faz ligação centro do RS ao litoral catarinense), passou a utilizar novos ônibus com poltronas mais espaçosas e ergométricas. Não viajo mais com o vizinho da frente, em cima de meus joelhos. Como vês, nem tudo é só lucro!

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  9. Sou muito mais favorável a começar com linhas ferroviárias de longa distância. Pelo menos interligar Santa Maria, Caxias e Rio Grande a Porto Alegre. Nem precisa ser trem-bala.

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    • Não precisa ser trem-bala não… NÃO PODE SER trêm bala!

      Trêm bala é a coisa mais absurdamente cara que existe… a passagem sem subsídio costuma ser mais cara que de avião e dificilmente dá lucro, ou seja, sobra para o contribuinte.

      Tem que ser trem normal entre 100-150km/h

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      • Podem me negativar! O que adianta ter trêm bala e ninguém usar pois sai mais barato ir de taxi/avião/onibus/(ponha aqui o que você quiser)… no fim será apenas mais um elefante branco ocupando espaço e que ninguém usa.

        Eu viajo toda a semana de Rio Grande a POA e jamais pagaria mais de 20% para chegar antes… em se tratando de trem bala o preço será pelo menos o dobro ou triplo.

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        • Concordo. O trem-bala é mais um fetiche que estão tentando empurra goela abaixo dos brasileiros.
          Uma malha ferroviária com trens normais seria ótimo.

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      • Por isso o Fmobus falou que não precisa ser trem bala. Trem bala é compatível com trechos de média distância e entre 2 grandes cidades ou metrópoles (Ex.: Sampa-rio – lá o problema é outro, uma serra no meio do caminho, que encarece o projeto).

        Para ligar as cidades médias do RS com sua capital, trens andando a média de 150 km/h, por exemplo, fariam esse serviço perfeitamente bem.

        Só que já usou bons sistemas de trens sabe como eles são muito melhores do que taxi/avião/onibus.

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      • A ideia dos trens de alta velocidade é competir com os aviões (http://www.revistaferroviaria.com.br/index.asp?InCdNewsletter=6768&InCdUsuario=26609&InCdMateria=16099&InCdEditoria=1) e a dos trens de média e baixa velocidade é substituir ônibus e automóveis por um transporte mais racional.

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    • Exatamente, Fmobus, para começar o RS precisaria de 4 linhas de trens de passageiros apenas: Poa-Rio Grande, Poa- Caxias, Poa-Santa maria e Poa-Torres (aproximadamente 900 km de linhas de trem).

      E, por uma questão de racionalidade, todas as concessões de linhas interregionais de ônibus deveriam terminar nessas cidades bases ou em outras no caminho do trem.

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  10. E o preço? Desde que me conheço por gente é mais barato ir de carro com duas pessoas nele que pagar duas passagens, sem falar no conforto.

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    • É mais caro até que avião em muitos caso!

      Como pode ônibus ser mais caro que avião? Avião é mais rápido, gasta 4 vezes(*) mais combustível que carro, precisa de mão de obra mais especializada, infraestrutura mais complicada, normas de segurança mais rígidas… Não dá para negar as destorções econômicas! E tem gente que ainda acredita na mão invisível.

      (*) Para o mesmo trajeto um avião gasta 4 vezes mais combustível por pessoa do que um carro percorrendo a mesma distância com apenas uma pessoa.

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      • Mão invisível no transporte público intermunicipal? Quando houve?

        É tão regulado que até a aviação (ligeiramente menos regulado) consegue competir em preços.

        O problema não é falta de estado, é excesso deste! Meu cunhado tem uma empresa de ônibus e adoraria concorrer com a Embaixador e Planalto em algumas linhas… só o Big Brother o proíbe!

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        • O problema é que essa mão invisível que regula tudo regula o estado para em seu benefício. Simples assim.

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      • Acho que você se enganou… para a mesma distância o avião gasta aproximadamente a mesma coisa que um carro com uma pessoa. O carro só gasta menos se estiver com mais gente.

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        • Usando a média de passageiros em aviões e média de passageiros em automóveis, os aviões são mais eficientes. Mas isso é porque os aviões simplesmente não decolam se houver poucos passageiros. Eles cancelam, remarcam em outros voos ou em outras companhias ou ainda pagam para esperar. Isso eleva a lotação média das aeronaves.

          Agora comparando gasto de combustível por assento, carro é mais econômico.

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