ARTIGO: Orgulho gaúcho, só que ao contrário, por Marcelo Carneiro da Cunha

Semana passada, em pleno tiroteio e massacre numa sala de cinema nos Estados Unidos, um veículo da imprensa aí do nosso estimado Rio Grande, que não terá o nome citado nessa coluna, criou uma matéria que repercutiu, e muito, no mundo vasto mundo acima do Mampituba, onde, por causas que não cabem aqui elaborar, eu vivo.

Na matéria, estimados leitores, é entrevistado um sujeito que estava em uma sessão de cinema vendo o mesmo filme do Batman que assistiam as vítimas de mais um terrorista sem causa americano. Isso, todos concordam, até poderia ser assunto, se o entrevistado não tivesse assistido ao filme em uma sala no Michigan, estado do Centro-Oeste americano, a 1200 quilômetros do lugar da chacina, que aconteceu no Colorado.

>Mas, claro que em se tratando do tal veículo da grande imprensa aí do RS, o que justificava a entrevista, não era o fato de o tal sujeito estar praticamente em outra galáxia, ou ter visto o mesmo filme. O que tornava tão natural a presença desse sujeito na matéria era o fato de ele, não mais, não menos, ser gaúcho.

Um gaúcho a 1200 quilômetros de distância de um evento é referência para o que quer que aconteça. – muito mais do que um guatemalteco, americano ou mexicano sentado a dez metros do atirador maluco, claro. O que dá ao observador o direito de ser entrevistado, para o que quer que seja, é a nacionalidade rio-grandense da opinião que ele possa ter sobre qualquer coisa.

A matéria foi ao ar e em segundos se tornou motivo de galhofa, em nível nacional. O que todos passaram a dizer, dizendo ou não, foi: esses gaúchos não percebem o ridículo do que cometem.

Errado. Muitos percebem, e muito. Mas o tal veículo da grande imprensa não está dando a mínima para o que eu, você, o senhor aqui ao lado pensemos sobre o assunto. E a pergunta é: para quem eles dão a mínima? A quem eles atendem, a quem satisfazem com essa gauchocentrismo constrangedor para quem seja dotado de algum bom senso e um mínimo de distanciamento crítico?

O público leitor no RS é assim? É isso que ele deseja? É isso que interessa? No meio de uma tragédia de proporções bíblicas, no Japão, no Chile, na China ou Estados Unidos, o que ele busca é ver se existe alguma camisa do Grêmio ou do Inter entre as vítimas?

>No evento anterior a esse, o naufrágio do Costa Concórdia, eu acredito que a manchete foi “Drama Gaúcho”. O mundo afunda, o drama, para ser drama, tem ter gaúcho no meio.

Quem naufraga nessas horas é a nossa imagem, a nossa reputação diante de desconhecidos, o que quer que a gente seja de fato, diante dessa visão absolutamente distorcida do que seja ou não importante no mundo.

A pergunta é: o tal veículo apenas abastece com drogas um mercado disposto a consumi-las, ou fideliza um mercado, alimentando continuamente a um ego social ávido por compensações para o que talvez sinta seja a sua realidade real? Sabedores de que não estamos com essa bola toda, nos dispomos a ser enganados em troca da compensação emocional que esse engano nos oferece? Gratos a quem nos alimenta com essas ilusões, nos dispomos a fazer dessa empresa o banco de nossos sonhos frustrados e emoções incumpríveis?

Eu simplesmente fico estarrecido e não sei o que dizer. O nosso chauvinismo já é bastante embaraçoso quando produzido e consumido aí mesmo. Quando ele passa fronteiras, só mesmo o Bairrista para transformar em limonada esse limão azedo.

A sensação que tenho é a de que seria importante, essencial, se iniciar uma boa conversa nesse momento de inverno, em que o povo deve estar reunido em torno de fontes de calor. Acho que seria ótimo fazermos uma grande análise coletiva já. Seria ótimo a gente parar para pensar melhor e listar algumas coisas que possam dar suporte para essa impressão que o RS adora ter de si mesmo. Quais foram as nossas realizações nos últimos 30 anos que justifiquem um espaço no imaginário nacional brasileiro? O que efetivamente fizemos e fazemos que justifique um orgulho do tamanho do que é expresso em pensamentos, palavras e, infelizmente, matérias na imprensa?

Após essa contabilidade essencial, talvez a gente descubra que temos mesmo fundos em caixa. Talvez a gente se dê conta, não sei, de que estamos mais para bancos gregos ou espanhóis, nos recusando a ver o tamanho do rombo.

O que é real eu não sei, e suspeito que ninguém saiba. Mais um motivo para que esse debate comece já, quem sabe aqui mesmo.

Marcelo Carneiro da Cunha é colunista do SUL21

 

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A matéria / entrevista do veículo de imprensa citado no artigo:

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32 respostas

  1. Bah, lamentável, a ZH se puxou no lixo. A prova de que a m*rda foi grande é terem tirado o link do ar. Se não fosse embaraçoso, eles teriam deixado lá. Simplesmente ridículo. Concordo 100% com todos que disseram que esse bairrismo ridículo é o principal motivo de atraso de POA e do RS como um todo. Todos os nossos índices estão piorando em relação ao Brasil, há décadas vemos ínuteis se candidatando e sendo eleitos para nos governar, mas na visão bairrista do nosso povo, o RS continua ótimo e lindo, não vêem que é um estado parado no tempo. Eu já tive orgulho de POA quando era pequeno e a cidade era o meu mundinho… mas qdo se expande os horizontes, e se faz uma reflexão verdadeira, se vê que POA está completamente atirada às traças. Não comparo POA a cidades da Europa, EUA ou Japão. POA é atrasada em relação até mesmo a cidades brasileiras, como Curitiba. E falo até de coisas simples, como a limpeza das ruas, trânsito ou conservação de praças e parques, onde se vê diferenças gritantes. O pior bairrismo é o tipo de comentário do tipo “não tá satisfeito? se muda pra Curitiba!”. Além de não aprender com os próprios erros (que são muitos) os gaúchos são orgulhosos demais pra aprender com os bons exemplos que vem de fora. Infelizmente não vejo futuro melhor pra cidade que eu tanto gostava, nem pro nosso estado abandonado na saúde, segurança, sistema prisional, educação, estradas, malha ferroviária, habitação, saneamento, …

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