Falta planejamento para Porto Alegre, por Tiago Holzmann da Silva

Sem planejamento se gasta mais e se gasta mal e é fato que isso está acontecendo em Porto Alegre pela ausência de um “Projeto de Cidade”. Acompanhamos pelos jornais as notícias sobre o “reajuste” dos valores das “obras da Copa” na Capital. Em conjunto, o aumento foi de 65% para oito obras previstas para Porto Alegre, todas estas relacionadas à questão viária.

Qualquer cidadão, mesmo que leigo na área da construção chega facilmente à seguinte indagação: se antes de começar as obras algumas já custam o dobro, então, quanto custará no final a execução desta obra? A falta de planejamento e a falta de integração entre as propostas; o foco exclusivo na questão viária; a pressa para realizar “qualquer coisa” para a Copa; os projetos apressados, equivocados ou mal elaborados contratados “notoriamente” ou, muito pior, “doados” pelos empreiteiros ou futuros concessionários dos serviços; a inexistência de participação efetiva da sociedade nas discussões anteriores aos projetos e a arrogância e prepotência de alguns setores da administração são alguns dos motivos que justificam os diversos “reajustes”.

Por outro lado, paradoxalmente, o mundo inteiro derruba viadutos e Porto Alegre constrói (e ainda parecem equivocados, feios e desnecessários). Algo está errado? Ou com o mundo ou com Porto Alegre? Tentamos (mal) copiar os resultados de sucesso, ou os “cases da moda” como as pontes estaiadas, sem entender que estes bons resultados, em outras cidades, são fruto de um processo inteligente de participação e planejamento efetivo realizado por toda a sociedade, técnicos, administradores e agentes organizados.

Não precisamos ser arquitetos e urbanistas para nos darmos conta da importância de Porto Alegre construir um “Projeto de Cidade”, como fizeram os municípios que se desenvolveram com qualidade nas últimas décadas. Somente assim, poderemos ter bons projetos – adequados e necessários e integrados e econômicos e sustentáveis e inclusivos – que permitirá que a cidade seja um exemplo para o mundo e uma satisfação diária para seus moradores e visitantes.

Tiago Holzmann da Silva

Arquiteto e Presidente do IAB RS – Instituto de Arquitetos do Brasil

(enviado pelo próprio)



Categorias:Arquitetura | Urbanismo

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31 respostas

  1. Bom, para apoiar o autor do artigo, na cidade de Oslo, onde vivo, a terceira perimetral inteira da cidade esta sendo colocada debaixo da terra (tunel). Viaduto aqui é algo feito em extrema necessidade e de forma harmonica com a área a ser afetada. A prioridade numero 1 da cidade é o pedestre e o transporte publico. Carros são cada vez mais punidos, pagando pedagios por toda a cidade.

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  2. Fiz um estágio na Metroplan durante o governo Yeda, e chegando lá haviam acabado com o corpo técnico de planejamento metropolitano, e pelo visto a situação no atual governo não melhorou. Isso explica a desorganização do transporte metropolitano, a falta de um terminal pra ônibus executivos vindo da RMPA, a bagunça das 200 linhas da Viamão vazios e sucateados que vão pra todos os pontos de POA, a desorganização da Central, que presta um serviço de má qualidade ao usuário do Vale dos Sinos. Enfim, uma pena esse órgão tão importante estar desse jeito, o blog podia fazer uma reportagem até.

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    • apoiado eduardo…

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    • Há muito tempo a METROPLAN foi sucateada. E da mesma forma o foi a secretaria do Planejamento de Porto Alegre, que nos últimos dois períodos de governo praticamente reduziu-se a órgão avaliador de proposições privadas.
      Sem planejamento, sem propostas, sem meios de avaliar o que é bom ou ruim. Os administradores despreparados sentem-se mais à vontade para tocar obras por outro critério.

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  3. De: Luiz Otavio

    Ontem, ouvi na CBN que o Brasil já tem uma medalha de ouro assegurada em 2016: a de saltos “orçamentais”.

    Arq. Luiz Otavio
    IAB-DF

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  4. Se foram melhorias aos projetos beleza, mas que melhorias? O que sei é que POA foi a cidade-sede com maior incremento nos gastos até agora.

    Em relação aos viadutos, até acho que as trincheiras da perimetral são justas. Mas aquela da Bento vai virar um monstrengo em pouco tempo. Viaduto da Conceição 2.0.

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    • As trincheiras na perimetral são justas? Mas elas não vão nem ao menos reduzir o número de sinaleiras, pois os pedestres continuarão atravessando a avenida.

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      • Olha, o render me faz entender que ao menos na Anita (por exemplo) a sinaleira vai sumir.

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        • Vai ter que ter sinaleiras antes e depois da Anita, para que pedestres possam atravessar. Se não tiver logo após a construção da trincheira, vai ter que ter em seguida, pois o fluxo de carros vai aumentar ainda mais.

          Uma obra completamente inútil.

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  5. Ok, o mundo inteiro pode até estar derrubando viadutos (poderia ter dado exemplos) mas provavelmente estão trocando por algo. Santiago por exemplo fez uma nova mega-avenida subterrânea em grande parte, além de investir alto em metrô. Infelizmente não vemos nada nesse porte em POA, e nem mesmo no Brasil, creio (não que tenha sido noticiado ao menos). O que fazer então? Sem metrô e aeromóvel, sobra o que senão andar de carro? E não me venham os bicicleteiros. Estou falando de andar vários quilômetros pra ir ao trabalho, com lombas no caminho e pensando no verão de 40°C de POA.

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    • Muita gente podia usar mais ônibus, e precisamos investir mais nisso e VLT. No Brasil está se fazendo esse tipo de coisa sim:

      http://www.mobilize.org.br/noticias/2532/vlt-uma-luz-no-fim-dos-trilhos.html

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    • High Line, NY: http://www.thehighline.org/
      Perimetral, RJ: http://portomaravilha.com.br/web/sup/serObrMapaPer.aspx
      Minhocão, SP: http://www.youtube.com/watch?v=n-biLjziUpI

      “As razões para a demolição de elevados em todo o mundo variam entre o alto custo para manter estruturas gigantescas e projetos de revitalização para recuperar áreas degradadas pela instalação desses viadutos. O estudo do ITDP aponta que elevados são soluções ultrapassadas e caras. Um dos exemplos da pesquisa é o caso de São Francisco, na Califórnia, que demoliu viaduto de 2,6 Km da região portuária durante revitalização.”

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      • O highline em New York seria demolido, por iniciativa de algumas pessoas a prefeitura resolveu transformar em parque. E New York é uma cidade engarrafada mesmo tendo um excelente serviço de metrô.

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    • Ônibus e VLT, mas a prefeitura não vai investir significativamente em transporte coletivo se não houver demanda. Eles morrem de medo de perder os votos dos motoristas.

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      • Já há demanda, olha quanta gente está abarrotada nos ônibus. Bem ou mal, automóveis ainda não são a maioria.

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        • Os governos municipal, estadual e federal deveriam subsidiar o transporte coleltivo urbano e intermunicipal, dando isenção de impostos e exigindo que o valor dos impostos seja abatido na íntegra do valor da passagem.

          O outro grande problema em Porto Alegre é a mafia do transporte coletivo. As mesmas empresas estão aí há anos, sem licitação, sem nada.

          Também acredito que deviam permitir mais de uma empresa de ônibus operar nas mesmas linhas. Isso geraria competitividade. E claro a Carris tinha que dar o exemplo, cobrando tarifa ainda mais enxutas.

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        • Acho também que deveriam aumentar os impostos sobre automóveis particulares e usar esse dinheiro para subsidiar o transporte coletivo.

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        • Concordo com o primeiro post, mas acho que o segundo de nada adianta. Já pagamos um valor absurdo para ter carro particular e as pessoas compram igual. Temos que convencer as pessoas que o transporte em massa é melhor.

          Uma coisa que eu acho é que o estacionamento em todo grande centro devia ser zona azul, e em muitos lugares devia ser proibido estacionar para abrir espaço para ciclovias ou pista de ônibus/BRT.

          Mais veículos, ar condicionado, mais pistas exclusivas… e tudo aquilo que falaste.

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  6. quanto a planejamento, minha opiniao é: planejamento …planejamento …planejamento …mas pensando ja para os proximos 30 anos…

    A Metroplan -Fundação Estadual de Planejamento Metropolitano e Regional- nao tem um papel ai que nao está cumprindo? Nem o site deles está no ar esses dias…

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  7. Realmente a manchete na ZH era essa:
    Obras para a Copa na Capital atrasam e estão 65% mais caras

    Mas se vc vai ler a matéria, o secretário de Gestão e Acompanhamento Estratégico do municipio diz que o governo federal lberou uma nova linha de financiamento para as contrapartidas dos munícipios, segundo ele o aumento se da porque foram incluidos no projeto benefícios que nao estavam previstos inicialmente. O mesmo aconteceu em outras sedes da Copa.

    Bom, é uma alegação dele, minha pergunta é bem específica: existe alguma prova ou indício ao menos que o fato de haver elevação do custo inicial seja devida a alguma improbidade pública? Em que obras? Existe algum indicio que se deva a falta de planejamento como defende o texto? “se antes de começar as obras algumas já custam o dobro, então, quanto custará no final a execução desta obra?”

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    • Se os aumentos significam apenas aumento de benefícios, acho ótimo aproveitar que existe esse financiamento por causa da copa para fazer mais coisas pela cidade agora. Algum prefeito, de qualquer partido, não faria o mesmo?

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    • Não será “improbibade” a “doação” de projeto pelos futuros concessinários do serviço??? Ou pelos executantes da obra?

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      • desculpe mas realmente nao entendi.

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        • Sr. Piqué, o Projeto é o elemento definidor de custos de uma obra, e pode definir muito mais coisas. Além definir que uma obra terá um custo maior ou menor em manutenção e execução, também pode trazer maior ou menor valorização de um imóvel e pode trazer um grande benefício ou um enorme malefício ao desenvolvimento de cidade. Quem planeja obra define seus custos. Doar projeto é um truque velho de arquitetos e engenheiros desonestos, que oferecem o projeto “de graça” ao trouxa, digo, cliente, que iludido pela irrisória economia inicial não percebe que os custos desse serviço são proporcionalmente baixos. A Lei de licitações PROÍBE que se contrate para executar uma obra o autor de seu projeto. Como não fala em doações, essa brecha permite que entidades e empresas apliquem tal falacia sobre os administradores despreparados.

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    • Jorge, você tirou as palavras da minha boca. As pessoas comentam, escrevem “artigos” com supostas informações, mas não vão atrás da informação real. Ontem, no debate, foi um assunto bastante comentado e ficou claro que os atrasos eram relativos à problemas de gestão a nível federal (não municipal). Além, é claro, dessa questão de serem atingidos novos benefícios e, por isso, os valores terem aumentado.

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  8. Gostaria de ver os projetos da copa das outras cidades-sede pra ver se estamos tão loucos assim construindo viadutos (não que eu goste deles).

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  9. Excelente comentário. Acho que teríamos que ter uma Secretaria de Planejamento com técnicos concursados, com quadro reduzido e com salários atraentes, para estímulo de ótimos profissionais. Uma espécie de agência portoalegrense de planejamento, formando um capital humano preparado e apto para porpor soluções para a cidade. Há, nesse exemplo, se forem nomeados CC´s aí deixa assim como está, pois só haveria aumento do custo da pesada máquina pública.

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