ARTIGO: Por que as papeleiras VCP e Fibria não se instalaram no RS, por Marcelo Nogueira

No ano de 2004, a Votorantim Celulose e Papel (VCP) anunciou a implantação de um projeto denominado Projeto Losango, envolvendo, em um primeiro momento o plantio de 140 mil hectares em 14 municípios, sendo aproximadamente 120 mil hectares da base florestal em terras próprias e o restante através do Programa Poupança Florestal, em parceria com produtores locais. Em seguida foi anunciada a instalação de uma fábrica para processar esta celulose e exportá-la, utilizando o Porto de Rio Grande.

 A Metade Sul do Estado do Rio Grande do Sul apresentava inúmeras vantagens competitivas que colaboraram para a escolha da VCP: a rede de transportes multimodal, que envolvia a confluência de quatro grandes rodovias (BR 471, BR 293, BR 392 e BR 116), a proximidade com o Porto de Rio Grande, segundo maior porto do Brasil em movimentação de cargas (2010), com condições de navegabilidade que proporcionavam o envio de cargas a baixo custo a qualquer lugar do globo terrestre, uma rede ferroviária, administrada pela América Latina Logística (ALL), passando por alguns dos mais importantes municípios da região, como Bagé, Pelotas e Rio Grande, terminando em frente ao Porto de Rio Grande. A região também apresentava condições climáticas favoráveis para o cultivo do eucalipto e disponibilidade de terras a preços acessíveis.

 Entre 2003 e 2005 a Votorantim investiu R$ 310 milhões em atividades ligadas ao Projeto, especialmente na compra de áreas. Foram gerados 3,4 mil empregos diretos e indiretos com a implantação da sua base florestal.

 No dia 04 de Novembro de 2005 em uma cerimônia com muita pompa, no Palácio Piratini, em Porto Alegre, foi anunciado o início do processo de licenciamento para a implantação da unidade fabril. Foi assinado convênio de compartilhamento do Valor Adicionado (VA) para o retorno do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Metade do valor recolhido seria do município onde a fábrica estivesse localizada, e a outra metade seria dividia entre 26 municípios da região. A ideia era iniciar a produção em 2011.

Influências de fatores externos e internos no mercado do setor de celulose e papel:

 1) Valorização rápida e brusca do dólar ocorrida em decorrência da crise mundial de 2008. A VCP perdeu cerca de R$ 2,2 bilhões com operações de derivativos cambiais. A Aracruz também teve grandes perdas, de cerca de R$ 2 bilhões com o mesmo tipo de negociação. A intenção de realizar operações com derivativos cambiais é proteger a empresa contra a desvalorização do dólar. Além disso, as maiores empresas de celulose e papel tinham grandes dívidas em dólar, fruto de empréstimos para ampliar a capacidade produtiva.

 Tabela 1 – Cotação do Dólar em relação ao Real.

 

2) Queda na demanda de celulose. A crise global de 2008 fez com que o PIB dos principais países da economia global fosse afetado, entre eles os maiores consumidores de celulose e papel, como EUA, Japão e os países da União Europeia. Lei da oferta x demanda. Menor demanda, menor valor de venda, menor receita da companhia.

Tabela 2 – Oscilação do valor da celulose (US$/T (Dólares por Tonelada))

 

3) Fusão entre VCP e Aracruz. No dia 01 de setembro de 2009 foi apresentada, oficialmente, a nova empresa do ramo de celulose e papel. Denominada Fibria, foi resultante da incorporação da Aracruz pela VCP. Ao criar uma nova empresa, modifica-se toda estrutura, a VCP deixa de existir. Há mudanças significativas na Diretoria e Conselho de Administração da Fibria, agora com maior participação do BNDESPar, além de uma nova disposição dos ativos florestais, fábricas e projetos.

Futuro do Projeto Losango      

Em Dezembro de 2006 foram concedidas as licenças ambientais para a construção em Três Lagoas/MS de duas fábricas integradas, um projeto da VCP (posteriormente Fibria) e da International Paper (proprietária da marca Chamex, que garante a compra de 160 mil toneladas por ano da celulose produzida pela VCP nesta planta fabril). Depois de duas décadas, saia do papel o Projeto Três Lagoas.

Em 2009, a chilena Companhia Manufatureira de Papéis e Papelões (CMPC) fechou acordo com a Fibria para a compra da unidade da Aracruz em Guaíba/RS. A Fibria também anunciou a venda do seu último ativo de papel, localizado em Piracicaba/SP. A transação demonstra que, cada vez mais, a companhia quer focar o seu negócio em celulose de mercado, negociando suas fatias em plantas focadas na produção de papel, como já havia feito com na Conpacel (Consórcio Paulista de Papel e Celulose) e na distribuidora de Papel KSR.

 Decisões sobre questões relativas a um investimento da magnitude do Projeto Losango não são tomadas por apenas um motivo. Cada passo a ser tomado em vultuosos negócios comandados por grandes corporações são acompanhados de análises, estudos e projetos. Além disso, o setor de celulose e papel é um segmento industrial extremamente volátil aos movimentos da economia global, o que só aumenta a cautela necessária antes de cada nova decisão.

 Não acredito que a demora na liberação de licenças ambientais possa ter contribuído para o adiamento do projeto. A quantidade de licenças necessárias, pelo tamanho do empreendimento e pela variedade de áreas da empresa, com as mais diversas peculiaridades, fez com que houvesse uma demora, natural, na liberação de licenças. Entretanto, é fundamental ressaltar que a empresa obteve todas as licenças que esperava receber, tendo liberadas para plantio a totalidade da área pleiteada.

 A desconfiança de parte do povo gaúcho, e a contrariedade de movimentos organizados, como MST e Via Campesina não colaboraram para o adiamento do projeto. Nos anos seguintes esses movimentos perderam consistência e diminuíram drasticamente de tamanho, o que leva a crer que, caso outros fatores não tivessem interferido no Projeto Losango, não seria este um empecilho ao segmento do mesmo.

 Quando do início do Projeto Losango, a então Votorantim Celulose e Papel não escolheu a Metade Sul do Estado do Rio Grande do Sul por acaso. Os principais motivos que a trouxeram até a região ainda existem. A questão logística, a qualidade do solo propícia ao desenvolvimento pleno do eucalipto e o baixo valor da terra permanecerão por um longo período.

Também é importante salientar que, depois de investir valores substanciais no Projeto Losango, a Fibria, resultante da incorporação da Aracruz pela VCP, não irá simplesmente abandonar os investimentos realizados. Seja a retomada do projeto, a utilização do ativo florestal para outros fins, ou a venda deste ativo para outra companhia; o certo é que alguma coisa será feita e, novidades virão, movimentando novamente o setor florestal da região.

* Marcelo Nogueira é Engenheiro da Universidade Federal de Pelotas / UFPel
Blog Caminhos da Zona Sul

 



Categorias:Economia Estadual

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9 respostas

  1. A reportagem justifica o investimento em derivativos dizendo que as empresas estavam se protegendo de uma variação do dólar, é uma desculpa surreal. Você não se protege do dólar apostando em um papel ainda mais arriscado.
    A maior parte das empresas que sofreram descapitalização direta na crise de 2008 foram gulosas: pegavam dinheiro a juros baixos ou até subsidiados e aplicavam em fundos de papéis derivativos para alavancar seus ganhos.
    O projeto está ameaçado porque as empresas se descapitalizaram e as empresas se descapitalizaram por quererem lucro rápido operando no mercado financeiro longe de sua atividade principal.

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  2. Responde RBS!!
    Se entregou as papeleiras do DESERTO VERDE e se fu***.

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  3. Achei interessante os gráficos da cotação do dólar e do preço da celulose. Acho que isso, somado a compra da Aracruz pela VCP tenham mudado todo o rumo do projeto.

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  4. Tudo isso para dizer que “A desconfiança de parte do povo gaúcho, e a contrariedade de movimentos organizados, como MST e Via Campesina não colaboraram para o adiamento do projeto.”

    Podia ter escrito isso no início do texto, daí não perderia meu tempo.

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  5. Acho que também a pressão do movimento “Via Campesina” e “MST” sobre os laboratórios de pesquisa (destruição do laboratório da fazenda Barba Negra na Barra do Ribeiro) e sobre as fazendas (hortos) de plantação de eucalipto também pesaram na desistência destes projetos.

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  6. Off-topic: Há notícias muito interessantes na Zero hora sobre o Catamarã para a zona sul e a pesquisa “Pesquisa revela obstáculos às bicicletas em Porto Alegre”

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