Centros urbanos precisam ser remodelados

Cristina Duarte

Alexandre Macedo (ao microfone) afirma que 65% dos resíduos sólidos são gerados nas grandes cidades MARCELO G. RIBEIRO/JC

A discussão em torno das mudanças climáticas e do aquecimento global passa por um ponto nevrálgico: como resolver o problema se a população mundial vem crescendo em larga escala e as ações para reverter o quadro não crescem na mesma proporção? O que fazer para diminuir os efeitos da poluição causados pela emissão dos gases tóxicos, principalmente os emitidos pelos veículos?

Essas e outras questões foram debatidas ontem no 1º Fórum Internacional de Mudanças Climáticas de Baixo Carbono, em Porto Alegre. O secretário-executivo do Ministério das Cidades, Alexandre Cordeiro Macedo, abordando o tema Cidades Sustentáveis, citou o exemplo de uma área na periferia da cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, chamada Mission Bay. O local, segundo o secretário, estava abandonado e foi transformado a partir da sustentabilidade, levando as pessoas a quebrarem um paradigma e a deixarem os grandes centros para morar no subúrbio.

“Claro que o conceito de periferia nos Estados Unidos é bem diferente do Brasil. No Brasil, a gente quer morar no centro, nos Estados Unidos eles querem morar nos subúrbios”, observa.

Para Macedo, é preciso aprofundar a gestão metropolitana reinventando as questões ambientais, econômicas e de desenvolvimento social, afirmando que a população precisa sair da periferia e ir para os grandes centros, deixando, assim, as áreas verdes livres.

“É necessário requalificar e remodelar os centros urbanos, mas com planejamento. Precisamos compactar e não expandir. O aquecimento global está intimamente relacionado à organização. Quanto mais aumenta a população maior é a emissão de gases poluentes”, afirmou o secretário. Segundo ele, 65% dos resíduos sólidos são gerados nas grandes cidades.

“A partir de 2007, 50% das pessoas estarão vivendo nos grandes centros. Em 2050, serão mais de 75%, sendo que dois terços desse número viverão em favelas ou submoradias. No Brasil, a taxa das pessoas que vivem em favelas cresce 25% ao ano e, hoje, 35% da população mundial vive nas favelas.”

O debatedor da mesa, presidente da Comissão de Direito Ambiental da OAB/RS, Ricardo Barbosa Alfonsin, disse que o governo vem incentivando a indústria automobilística, acarretando em um grande número de veículos nas ruas sem o planejamento adequado. Alfonsin questionou o secretário-executivo do Ministério das Cidades sobre a aplicação do Estatuto das Cidades que estabelece normas para regular o uso da propriedade. Macedo disse que vários programas estão sendo lançados e que o planejamento é fundamental para atingir o resultado.

“Não adianta fazer casas para retirar as pessoas das encostas e favelas, é preciso ensiná-las a morar nas casas. É importante o planejamento, mas é mais importante ainda saber a dificuldade de se colocar em prática”, ressalta.

A realidade ambiental no Estado

O presidente da Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler (Fepam), Carlos Fernando Niedersberg, abordou o tema Plano Ar, Clima e Energia do Rio Grande do Sul (Pace-RS), através das mudanças climáticas e seus efeitos nos últimos anos no Estado. Segundo dados da Defesa Civil, no início do ano, 234 cidades decretaram situação de emergência por causa da estiagem. A seca afetou diretamente mais de um milhão de gaúchos. Os prejuízos nos cultivos de arroz, feijão, milho e soja ficaram na casa dos R$ 3,86 bilhões.

“O Rio Grande do Sul vem sendo submetido a uma série de variações climáticas. Os efeitos dessas variações atmosféricas transpõem o efeito estufa. A cada cinco safras de grãos, três são perdidas,” afirma o presidente da Fepam.

Para ele, é preciso saber se os acontecimentos climáticos são efeitos próprios do clima ou do aquecimento global. O Estado sofre com as chuvas, que causam enchentes e alagamentos, e também com as secas. Niedersberg afirma que é necessário um plano de irrigação eficiente para o armazenamento da água para os períodos de estiagem.

“Na seca temos escassez, infecções, incêndios, superlotação dos sistemas de saúde. Nas inundações são os acidentes, água contaminada, desenvolvimento da hepatite e outros. Já ocorreu o desaparecimento de espécies de pássaros, répteis e anfíbios.”

Niedersberg falou também sobre o convênio com a Agência Francesa para o Meio Ambiente e a Eficiência Energética (Ademe), que deu o apoio técnico ao Pace-RS. Segundo o presidente, dentre as primeiras ações do programa está a emissão zero de carbono no Palácio Piratini e no prédio novo em que a fundação irá se instalar.

Jornal do Comércio



Categorias:Meio Ambiente

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21 respostas

  1. o problema patente em Porto Alegre está na radical mudança da Zona Extremo Sul, ou Zona Rural, ou Zona Periurbana, que, antigamente era um cinturão verde, hoje está ameaçada pela expansão dos condomínios fechados (de alto luxo) e dos condomínio minha casa, minha vida (de baixo padrão). Logo, não se pode dizer que os ricos ou os pobres são culpados, senão o governo municipal (principalmente o Executivo E Legislativo) que permite uma expansão desordenada para uma região totalmente desprovida de infra-estrutura.
    Porto Alegre é uma das poucas capitais que a população se mantém estável. E Porto Alegre é (ou era!) uma das poucas capitais que mantinha uma boa relação com sua Zona Rural. Logo é de se pensar se realmente precisamos expandir tanto a cidade!
    Estamos falando de um local que poderia ser muito bem aproveitado pela população através de trilhas, passeios naturais, ecoturismo, produção de alimentos (sim, Porto Alegre produz alguma coisa do que consome!). Para mim, essa é a a vocação que deveríamos manter para a zona rural da cidade. A que custo isso se dá? Bom, poderia-se pensar em prédios mais altos em determinadas regiões? Com certeza! Mas também se poderia pensar em reforma urbana, com reaproveitamento de edificações subutilizadas para fins de moradia. Em Porto Alegre já temos exemplo disso..

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  2. Cidades evoluem e mudam ao decorrer do tempo por motivos economicos ou por calamidades seja guerra ou coisas naturais, fora isto, se torna planejamento central, e aparecem as machu-pichus, brasilias e angkor-wats do mundo, sem vida, sem historia e sem motivos duradouros para existirem, sao artificiais. Oque os PC’s* deste forum querem, botar todos vivendo ou em vilarejos tipo indigenos ou vivendo como sardinhas em blocoes tipo apt. sovietico e’ ridiculo e desperdicio de dinheiro e recursos. Aonde que a populacao do mundo esta crescendo tanto assim para tomarmos medidas tao draconianas???? A populacao do RS e BR estao estaveis e decrescendo, assim como todas as outras do mundo. Estas conclusoes de que o universo esta sendo poluido pelas chamines e descargas dos carros nao e’ aceita por pessoas em numeros suficientes para alterar tanto o construct da sociedade. Eu quero morar no campo, nao quero viver em uma cidade quando me aposentar, e agora? eles querem todos abarrotados em cidades, como fica, se eu me mudar para o campo ou periferia, o universo sera destruido de acordo com os palestrantes ai, eu acredito que nao. Qual direito sobrevivera? O meu de “viva e deixe viver”, ou dos esquerdistas, “faz oque eu mando por bem ou por mal”?????

    *Politicamente Corretos

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    • Não sei por que respondo algo tão preconceituoso, mas por mais que a população diminua a frota de carros aumenta. E a poluição de POA vem dos carros. Isso diz respeito a minha saúde então o assunto me interessa sim. E podes ficar tentando polarizar a discussão falando em “planejamento central” mas o fato é que nada está sendo forçado a ninguém.

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      • “”Não sei por que respondo algo tão preconceituoso, mas por mais que a população diminua a frota de carros aumenta””

        Isso chama-se poder aquisitivo, que advem do crescimento economico, mesmo que lento, as pessoas querem realizar seus sonhos consumo. Vais impedi-los????

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      • Não Phil. Eu mesmo tenho carro. Mas hoje (dia de chuva) vim para o trabalho de ônibus e em dias de sol venho de bicicleta. Faço isso para ter uma vida mais ativa (bicicleta) e colaborar para minha cidade ficar mais agradável (menos tranqueira, estresse e poluição). Acho que o certo seria todos fazerem isso, mas não vou forçar. Mas eu quero ter o direito de andar com minha bicicleta com segurança e ter conforto no ônibus.

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      • Podes achar que não, mas eu entendo. A maioria das pessoas tem uma relação de vício com seus carros. Não notam quanto dinheiro eles custam, nem como as vezes se estressam tanto em achar vaga de estacionamento, com panes ou congestionamento e mesmo assim continuam usando.

        Isso e o fato que a gasolina é subsidiada, espaços públicos enormes são reservados para carros usarem gratuitamente, e por aí vai.

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    • O que se fala é dar espaço para quem quer seguir um estilo mais sustentável. Hoje o transporte público é tosco e as pessoas tem medo de andar de bicicleta. Isso por que o que vale é a lei do forte no trânsito, e os espaços historicamente são exclusivos dos carros.

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      • “”Hoje o transporte público é tosco e as pessoas tem medo de andar de bicicleta. Isso por que o que vale é a lei do forte no trânsito, e os espaços historicamente são exclusivos dos carros”” Nao pares ai, continue; carros sao confortaveis, convenientes, e’ liberdade de locomocao. e’ independencia e muito mais pratico. Da mesma forma que os “carrolatras” aceitam sua paixao por transporte publico e bicicleta, tu deverias respeitar a dos outros que nao querem fazer isto todos os dias. O que vcs querem e’ impraticavel em grande escala. Ate’ NYC e’ cheia de carros.

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      • Phil, os carrólatras não aceitam e não respeitam. Não querem a construção de corredores de ônibus ou ciclovias pois querem todo espaço para eles. Acham que ciclovia feita nas cochas tá mais do que bom. E jogam os carros por cima de mim quando pedalo.

        E ddaí que NYC é cheia de carros? Desde quando os EUA são modelo de urbanismo? Dá uma olhada em Paris para tu ver um bom exemplo de convívio entre todos modais.

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  3. Quanto mais proximos os prédios (no sentido de ter 10 prédios de 50 andares, e não 50 de 10 andares), menor a distancia para percorrer de carro, muitas pessoas poderiam ir de onibus ou a pé para o trabalho, ja seria uma sra diferença.

    Mas as pessoas não querem ver isso né…

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    • O problema é que em POA temos regiões ultra densas, com um prédio do lado do outro, e ainda assim as pessoas vão de carro, no bairro do lado. Mesmo tendo lotação passando quase na frente de casa. É a densidade da densidade. Por isso aquele trânsito no Moinhos, por exemplo.

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      • sim, enquanto tiver que pegar onibus lotado pra andar meio quilometro, as pessoas vão ir de carro.

        Eu só vou a pé se tiver que ir no mercado que fica a duas quadras de casa, a parada fica perto tambem, ae quando vou pro centro trabalhar, vou de onibus, apesar de ser uma desgraça, sempre lotado….
        Agora ir da casa da minha mãe pra Puc aos sabado de manhã, bom, menos de 500 metros, eu ia de carro por que pegar um onibus era uma desgraça, lotação era normal assaltarem e a pé é suicidio…

        E a ida e volta de bus sairia mais caro que a gasolina + estacionamento que eu gastava na voltinha…

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  4. A questão é muito mais complexa que 50 em 10 ou 10 em 50. A cidade não é só área verde, senão também uma rede social complexa que transita e tem relações nas ruas Um dos precursores do urbanismo propos uma cidade que se assemelha muito a tua ideia: http://www.brianmicklethwait.com/culture/VilleRadieuse.jpg
    Hoje se sabe que simplesmente criar áreas verdes a esmo pode significar num aumento da insegurança. Assim como simplesmente jogar todo mundo pras nuvens (prédios muito altos), pode também aumentar a insegurança na cidade, pois não existirá uma interação entre pessoas em apartamentos altos e as pessoas nas ruas.
    Logo, tem o lado do meio ambiente, o lado social, o lado econômico, o lado político, o lado das empreiteiras, o lado dos ambientalistas e por aí vai.

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    • Le Corbusier?? Nãããão

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    • Bom, não era exatamente assim que eu imaginava. Nessa imagem se vê claramente que os edifícios isolados deixam a cidade sem “vida”.
      Eu pensava em algo mais integrado, infelizmente eu não tenho habilidade para ilustrar graficamente.

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  5. Tem gente que prefere 50 prédios de 10 andares do que 10 prédios de 50 andares.
    Ao meu ver prédios mais altos MAS COM UM MAIOR ESPAÇAMENTO entre si são muito melhores, pois assim da para criar áreas verdes entre eles.

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  6. “Precisamos compactar e não expandir.”

    Concordo, mas esse parece não ser o pensamento dos ecologista e esquerdistas de porto-alegrenses, pois cada vez que se fala em aumentar a altura dos prédios tem chiliques, acusando a medidade de provocar aquecimento urbano e a especulação imobiliária.

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  7. Tava vendo uma noticia agora a pouco, um Audi R8 v10 com quase 600 cv de potencia faz 7km/l com o uso misto, nossas carroças 1.0 com 80cv fazem isso na gasolina.

    Pqp… haha
    Se o Brasil realmente se preocupasse com isso, ja teria feito algo com nossas montadoras que se aproveitam da ignorancia do povo e vendem lixo por preço de ouro.

    E nosso combustivel tambem teria de ter uma boa qualidade, mas é oficialmente uma mistureba, isso só aumenta o consumo, e o governo adora.

    Um v8 americano é mais economico que nossos 1.0, e ainda falam mal dos americanos.. asuhssahuuhas

    Junta isso aos impostos mais altos para carros novos, ao contrario do mundo, onde quanto mais novo, menos “ipva” se paga para incentivar a compra de carros novos, mais modernos, menos poluentes e mais economicos.
    hahaushsahsahusahuas

    E tem mais a mafia dos onibus, acho que toda grande cidade brasileira ta envolvida nisso… falta de trens, e ta feita a festa.

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    • Teu post mostra bem o problema do ganho de eficiência no uso de energia. Historicamente o que acontece é que ao ganhar rendimento, em vez de fazermos um carro que ande 50km com um litro, fazemos um Audi com 600 cv para andar dentro da cidade, um monstrengo.

      Se bem que a Ford andou lançando um motorzinho interessante lá fora, há esperança.

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      • Ai é que ta, la fora eles fazem carros com 150cv que fazem 18km/l, aqui não fazem metade disso com um 1.0.
        Claro, isso é só uma questão, mas imaginem a diferença que ja não seria para as cidades brasileiras?

        A Ford tem um motor de 3 cilindros, baixa cilindrada com um turbo, rende uns 100 e poucos cavalos, anda bem e bebe pouco, a VW tem o 1.4 TSI, a BMW junto com a Peugeot tem o 1.6 turbo que equipa o 408 e o 3008, entre outros..

        O governo até meteu umas regras para as emissões, mas as montadoras ja começaram a chorar, quero só ver no que vai dar.

        Claro que tem muitas outras coisas pra melhorar, mas acho que isso ja seria uma grande mudança.

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