Artigo: Os políticos somos nós, por Marco Lovatto

Resumo: Nossa sociedade está mergulhada numa angustiante descrença nas instituições representativas, o que é compreensível. Entretanto, é ilusão procurar por pessoas que serão, sozinhas, solucionadoras de problemas. Afinal, quem constrói esse mundo somos nós, com as nossas atitudes.

Marco Leonardelli Lovatto

Concordo que a existência de corrupção entre os representantes políticos seja um problema gravíssimo. Entretanto, isto é apenas o reflexo do que a própria população tem buscado: escapar de um mundo ineficiente e individualista, priorizando o conforto próprio sem saber diferenciar o que é justo do que é correto. Pedir exímia conduta dos nossos governantes exige modéstia dos próprios cidadãos e colocar em dúvida as práticas atuais é a melhor maneira de começar a mudar. Afinal, cada um de nós é ruim na pretensão de ser o melhor [1].

Defendo que a transparência e a extinção do voto secreto e da imunidade parlamentar sejam, sim, bons caminhos para combater a corrupção na sua forma mais conhecida. Ora, se a função de um governante é representar um povo e suas necessidades de maneira exemplar, suponho que sua conduta deva ser visível e sem beneficiar de regalias.

Mesmo assim, fazer tais afirmações exige modéstia e que coloquemos em dúvida as práticas dos próprios cidadãos.

Perguntamos com frequência: quanto o governo roubou? Mas esquecemos de perguntar: quanto o cidadão não foi correto com alguém, pois tirar vantagem foi exclusivamente o que ele pensou?

Perguntamos com frequência:
quanto o governo roubou?
Mas esquecemos de perguntar: quanto de imposto
o cidadão sonegou? O quanto ele pirateou, ou o
quanto não foi correto com alguém,
pois tirar vantagem foi
exclusivamente o que ele pensou?

A aquisição não-paga (ou mal-paga) de produtos digitais protegidos por direitos autorais é um bom exemplo, incrustado na nossa cultura desde que a tecnologia passou a permitir. A tecnologia, não os autores das obras. Estes não necessariamente deram-nos a liberdade de disseminação de cópias gratuitas, da mesma forma que nós, eleitores, não demos aos governantes a liberdade roubar.

Habitualmente, quem costuma baixar música protegida sem conhecer a fonte da cópia original argumenta que “é até melhor” para o artista, pois é um meio de “marketing gratuito”, promovendo-o em shows e publicidade de marcas. Concordo que disponibilizar músicas gratuitamente poderia até ser uma boa estratégia; no entanto, apenas o artista e o produtor têm o direito de decidir a respeito disso. Quem disse que uma banda deseja fazer grandes turnês mundiais para rentabilizar sua arte? Já falando de download de softwares, filmes e livros, nem sequer se pode fazer shows com eles.

O cético vai insistir: “os produtores não vão ficar mais pobres, pois já têm o suficiente”. Novamente, cabe unicamente ao produtor fazer tal afirmação. Lembre-se: se você trabalha, você também produz. Você já tem o “suficiente”?

No contexto das obras digitais, é muito comum confundir liberdade com viabilidade. O cidadão que deixa de pagar por um produto protegido não o faz porque ele é livre, mas porque é uma ação viável. Eu tenho o pesar de lhe informar, mas o dever de lhe dizer: este cidadão pensou exatamente da mesma forma que os políticos de quem gostamos de reclamar. A apropriação indevida foi considerada viável, possível e, por alguma razão, foi considerada justa.

O cidadão que deixa de pagar por um produto protegido não o faz porque ele é livre, mas porque é uma ação viável, e ele pensou exatamente da mesma forma que os políticos de quem gostamos de reclamar.

Um argumento típico ao se comparar as duas situações é o nível de gravidade, mas ela não elimina a existência de irresponsabilidade, qualquer que seja o caso.

O conforto das pessoas vem dos bens e serviços que elas consomem, e a produção desses produtos consome energia. Portanto, quanto maior o conforto, maior a energia consumida. Esta energia está embutida no valor de todo e qualquer produto, e parte dela é trabalho humano. O cidadão que não paga por um produto protegido, físico ou digital, não está contribuindo para a remuneração das pessoas que trabalharam para lhe oferecer aquele conforto. Portanto, ele não é correto com o produtor e de forma totalmente análoga a qualquer outra forma de corrupção.

Pergunta-se, então: onde está a tão aclamada “justiça”?

É comum ouvir dizer que não precisamos ser justos enquanto somos injustiçados. Seria algo como: “primeiro os governantes deixam de roubar, depois eu me preocupo em declarar todas minhas fontes de renda”. Entretanto, isso é responder ao egoísmo com egoísmo, ao desrespeito com desrespeito: fonte das mais graves ineficiências da sociedade, pois se está retroalimentando um ciclo doente.

Existe uma grande diferença entre ser justo e ser correto. Ser justo é responder em igual natureza e intensidade. Ser correto é responder com sua definição pessoal do que é o bem. Assim, a liberdade de cada um está na escolha entre (1) pisar na vida que te pisa e (2) mostrar o caminho certo para os que te pisam. Quem escolhe o primeiro mostra-se alinhado a uma sociedade extremamente doente, o que não pode ser louvável, pois é sinal de que se está tão doente quanto ela.

Existe uma grande
diferença entre ser justo e
ser correto.
Ser justo é responder em igual natureza
e intensidade. Ser correto é responder
com sua definição pessoal do que é o bem.

Assim, a existência de corrupção entre os governantes é tão unicamente o reflexo da própria população, pois todos ainda compartilham do mesmo mundo competitivo e individualista, o que nos leva a priorizar o conforto próprio, custe “quem” custar, sem saber diferenciar o que é justo do que é correto. Estamos promovendo, sem dar-nos conta, o mesmo mundo ineficiente do qual se quer escapar. Infelizmente, a corrupção é de mão dupla.

Normalmente, preferimos aderir à opinião pública e à forma da maioria agir, pois isso nos dá conforto, já que não precisamos ser ousados. Entretanto, apontar para um criminoso e dizer “esse é um cara mau” não faz de você uma pessoa boa. Principalmente quando o melhor que se sabe fazer é culpar os “políticos” enquanto se esconde sobre diversos andares entre grades e cercas elétricas. Não. Isso definitivamente não nos torna bons.

Apontar para um criminoso e dizer
“esse é um cara mau”
não faz de você uma pessoa boa.

Cada um de nós é ruim na pretensão de ser o melhor e, se estivéssemos fazendo o melhor, então estaríamos melhores. A maioria não é modelo de sucesso [2] e colocar em dúvida as práticas atuais é a melhor maneira de começar a mudar.

Por enquanto, apenas votar nas eleições é a coisa mais preguiçosa que podemos fazer. Sempre precisaremos de instituições representativas, mas é ilusão procurar por pessoas que serão, sozinhas, solucionadoras de problemas. É hora de quebrar paradigmas: quem constrói esse mundo somos nós, com as nossas atitudes.

Os políticos somos nós.

 

[1] Frase inspiradora de Pe. Marc Lambret.

[2] Frase inspiradora de Roberto Shinyashiki.

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Obs.: Artigo enviado pelo autor.



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