Artigo: Uma nova visão sobre o incidente do Tatu Bola, por Rogério Maestri

O Mascote da Copa “Tatu-Bola”, ainda sem nome oficial, antes de ser estourado numa manifestação no dia 4 de outubro, no centro de Porto Alegre. Foto: Gilberto Simon – Porto Imagem

Fomos agraciados na nossa cidade com uma manifestação pública que terminou numa ação policial que poderíamos dizer truculenta. Há espanto de ambos os lados, daqueles que demonizam as brutalidade da nossa polícia militar e outros que crucificam os manifestantes de arruaceiros e desordeiros passíveis de sofrer dura e forte ação policial.

Toda esta situação me parece enigmática devido a fortes componentes sociais que ela implica, e procurarei escrever algo que bem no fim talvez surpreenda a muitos.

Alguns escrevem que a Brigada foi agressiva em excesso, mas nada disto deve nos surpreender, pois uma das características de nossas forças policiais, reconhecida INTERNACIONALMENTE, é a truculência e o uso da violência como forma de trabalho.

Isto é um defeito da nossa Brigada Militar? Da nossa polícia civil? Ou é uma característica do povo brasileiro? Temos que ir mais longe para entendermos todo este problema, e temos que ir às raízes histórias de nossa nação e na continuidade que os malefícios destas raízes nos trouxeram para os dias de hoje.

Fomos o último país da América em acabar com a escravidão, e além deste fim tardio da escravidão, nenhuma ação para indenizar ou ao menos dar as mínimas condições para a cidadania de negros, índios e mestiços que restaram no fim do Império. Nada foi oferecido a este grupo de homens que criou a riqueza deste país nos séculos que antecederam a lei áurea. Com isto se formou um imenso contingente de descendentes destes, que tiveram que passar a ocupar o espaço urbano, porém sem o julgo do senhor.

O governo do fim do Império e início da República, para evitar que este imenso contingente de filhos, netos e bisnetos passassem a reivindicar direitos ou indenizações, lançaram a mão de duas ações, uma política de branqueamento da população importando o excedente populacional da Europa, e a montagem de forças de ordens, verdadeiros capitães do mato, que procurariam colocar estes todos no “seu devido lugar”. Estas forças de ordem serviam não para defender qualquer cidadão, serviam mais para proteger o patrimônio dos mais abonados e reprimir qualquer movimento que procurasse uma identidade que unisse estas classes menos favorecidas.

Para dar um exemplo clássico desta repressão foi um dos primeiros atos da “jovem” república brasileira que constava do seguinte decreto: Decreto Lei 487 do Marechal Deodoro da Fonseca, primeiro presidente da República do Brasil:

“A partir de 11 de Outubro de 1890 todo capoeira pego em flagrante seria desterrado para a Ilha de Fernando de Noronha por um período de dois a seis meses de prisão. Parágrafo único: É considerada circunstância agravante pertencer o capoeira, a alguma banda ou malta, aos chefes impor-se-á a pena em dobro.” (valeu até 1933).

Nascia assim na nossa república não forças de ordem, nem forças de proteção ao cidadão, mas sim forças de repressão, não só a reivindicações sociais ou políticas, mas mesmo a tentativas de auto-identificação do povo brasileiro como a música ou a capoeira.

 Aliada a uma origem sem recursos, uma educação pública deficiente e um sistema que até excluía do voto o analfabeto (a maioria da população pobre brasileira) estas classes sociais menos favorecidas foram contidas pelas forças de repressão. Esta repressão não era só uma repressão meramente partidária-política era mais um mecanismo de contenção social!

Passado os anos está desigualdade foram, por meio do coronelismo e do beneficiamento do dinheiro público as classes mais favorecidas, conservando grande parte da miséria no nosso país. Mas apesar da falta de tudo em termos de infraestrutura para estes miseráveis do nosso país, eles construíram umnovo país e o país cresceu. Cresceu, mas cresceu desigual, tornando o Brasil num dos países de MAIOR DISPARIDADE SOCIAL DO MUNDO. Para não dizer que isto é coisa de esquerda, podemos nos basear na reportagem de 2010 do Estado de São Paulo, um dos jornais mais conservadores do Brasil, que pontua o nossopaís no ranking mundial no 3° lugar de maior pior desigualdade econômica (http://www.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-tem-3-pior-indice-de-desigualdade-no-mundo,585341,0.htm).

Como consequência deste crescimento desigual, vemos hoje o país envolto num índice de criminalidade dos mais altos do mundo. Criminalidade que tem por origem a disparidade social e não o grau da pobreza que vive parte da população brasileira, há muitos países mais pobres do que o Brasil em que a criminalidade é muito mais baixa, pois a criminalidade está relacionada mais com a desigualdade do que com a pobreza. Visto isto, muitos dizem até com alegria que o povo brasileiro apesar de pobre não é violento, pois a situação ainda poderia estar pior. Porém isto não é verdade, o que há no Brasil é uma força de contensão social, que para executar a sua tarefa é necessário que nossas forças policiais ajam fora da lei. Esta ação fora da lei é feita com a anuência de grande parte da população. Quando se tratam pessoas mais desfavorecidas com atos ilegais, como as famosas “pedaladas” nos barracos e sub-habitações, há tolerância contra isto, quando revistas ilegais são feitas em pessoas que tem como único crime estar em locais que não deveriam estar, por exemplo, jovens pobres e negros andando em bairros de classe média ou alta, achamos que a polícia está fazendo o seu papel.

O Brasil é um dos poucos países do mundo em que o cidadão tem que andar com seus documentos para provar que não é criminoso. Prender alguém, cujo único crime é não estar devidamente identificado e levar até uma delegacia, para muitos parece normal. O trabalhador durante muito tempo tinha que andar com sua “carteira do trabalho” para identificá-lo como um membro da sociedade, um membro menor que tem direito de trabalhar, mas não tem direito de andar pela rua sem provar isto. Estas e outras arbitrariedades são as formas que os 20% mais ricos se defendem dos 50% mais pobres.

Há cidadãos e cidadãos no nosso país, aqueles em que a cidadania é plena e, aqueles que têm que provar que são cidadãos. Há aqueles que devem ser defendidos e aqueles que até podem, em situações especiais, serem defendidos.

Neste fim de semana vi uma manifestação na rua 24 de outubro em pessoas da alta classe média cobravam da justiça, maior rigor com um assaltante que baleou uma médica. Acho isto importante e correto, mas lembro de que dezenas de cidadãos são baleados em nossa cidade por semana, mas nenhum desses casos atingem e comovem as classes mais favorecidas. Este caso é tão sintomático que o próprio juiz a acusado de leniência frente ao assaltante, fez a seguinte declaração no jornal Zero Hora do dia 6 de outubro deste ano:

“Naquela noite foram 14 flagrantes e em nenhum deles houve manifestação do MP requerendo prisão. Todos tinham sido comunicados pela autoridade policial ao MP. Naquela noite soltei outras pessoas que haviam assaltado pessoas pobres, e quanto a isso não há indignação popular.”

Em algumas cidades da grande Porto Alegre faz-se estatística as segundas feiras de quantos morreram no fim de semana, não são reportagens do tipo, fulano de tal, trabalhador da indústria da construção civil, foi vitimado por… mas sim foram achados 5 corpos no fim de semana no bairro tal, mais 3 no outro, perfazendo tantos mortos, dois a mais que no último fim de semana, mas dois a menos do que no anterior, banalizou-se a morte dos pobres. O máximo que se faz em termos de reportagem é dizer que TALVEZ os assassinatos fossem devidos a guerras de gangues pelo tóxico.

Precisou o atual governador e um delegado de polícia terem sido ameaçados para que um “pelotão da morte”, que já agia a algum tempo ser colocado em julgamento. Diga-se de passagem que este pelotão de morte era constituído também por membros das nossas “forças de ordem”! Agora alguém pode perguntar. Qual a relação de tudo que está escrito com o caso dos jovens que sofreram a violência da Brigada Militar, afinal de contas eles não eram pobres nem pretos? Aqueles rapazes, na sua maioria filhos de boas famílias, sofreram o braço de ferro da repressão, como qualquer pessoa da vila.

Vamos então analisar pelo lado do soldado da polícia de choque que não tiveram a mínima vergonha de bater em meninas cuja única arma era uma câmera fotográfica!

Na tipificação daqueles que protestavam está à origem da violência. As mesmas “forças de ordem” que são mal pagas para reprimir os 50% mais pobres, estão mais próximas desses do que dos 20% mais ricos que exigem a sua segurança.

Os agentes da lei, que sabemos ganhar um salário irrisório, levam em si à mesma semente de revolta que os 50% mais pobres do nosso país. Vivem nas mesmas regiões, ganham salários aviltantes, tem os mesmos problemas de sobrevivência que dos 50% mais pobres e outros problemas que não são partilhados pelos mais ricos.

Com tudo isto que foi referido, inconscientemente quando enxergam os filhos daqueles que tem que proteger, vêem a possibilidade descarregar a sua revolta sobre estes “provocadores de classe média”, a mesma truculência que deve ser empregada contra seus vizinhos ou até parentes. Parece paradoxal, porém é verdade, jovens de classe média ou de classe média alta, que pensam estar lutando pelos mais desfavorecidos, são surrados pelos membros da classe dos mais desfavorecidos! Quantas vezes aquele policial, que ganha um salário baixo para proteger os que ganham muito mais do que eles tiveram que ouvir afirmações do tipo: “Você sabe com quem está falando?” ou “Sabes que meu pai é isto ou aquilo”?

A possibilidade de extravasar o seus rancores de oprimido contra os opressores, talvez mostre as verdadeiras razões destes soldados do grupo de choque. Eles tem que se expor o dia todo a violência, a longas jornadas de trabalho nos dias quentes ou nos dias frios, sendo ainda estigmatizados pela população, tanto por aqueles que ele reprime como aqueles que fazem ele reprimir.

Alguém até poderia tipificar isto como uma tradicional “luta de classes”, não aquela que os que protestam acham que estão vivenciando, mas a luta de classes de um oprimido por representantes dos opressores.

Mas que “luta de classes” mais bizarra, uma luta de classes daqueles que pertencem a burguesia e pensam em estar defendendo os valores socialistas, contra aqueles que pertencem a classe dos oprimidos, mas estão defendendo a classe dos opressores?

É, senhores, este é o Brasil, e antes de dizerem, “Baixem o cacete contra este bando de maconheiros, desocupados e filhinhos do papai”, procurem saber de onde vem esta raiva toda!

Rogério Maestri – Engenheiro, Mestre em Recursos Hídricos e Especialista em Mecânica da Turbulência



Categorias:COPA 2014, segurança, vandalismo, violência

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153 respostas

  1. Existe um pré-conceito muito grande contra aqueles que questionam as práticas atuais: muitos dos que acreditam em mudanças são imediatamente taxados de comunistas ou esquerdistas, enquanto suas ideias não passam nem perto de qualquer princípio encontrado no século 20.

    Sim, estamos no início de um mundo auto-organizado de responsabilidade compartilhada, onde “podemos alcançar uma nova era de promessas cumpridas se todos nós nos envolvermos”. Basta cada um de nós se engajar, como nos exemplos que apresento nesse texto:

    Nem direita, nem esquerda: você mesmo – http://trilhos.maodupla.org/2012/10/23/nem-direita-nem-esquerda-voce-mesmo/

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  2. Sou manifestante e não sou classe média e muito menos alta, sou bem pobre mesmo. E muita gente que tava lá também é da classe baixa. Gente que tá perdendo suas casas por culpa dessa Copa que só vai beneficiar alguns. A manifestação é para mostrar para esse povo que o que está por trás de um aparente “bunitinho” boneco tem muita violência contra o povo, muitas exploração desse povo. Infelizmente poucas pessoas conseguem ver para além das aparências. Policial é do povo? Mas escolheu bater nesse povo para defender empresa privada. Fez uma opção que tem implicações éticas, e todo dia continua optando por isso, o que é lamentável. Abaixo vídeo que mostra o que a Copa tem feito por sua população:

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  3. me desculpa mas eu acho que o mal da nossa sociedade é encontrar justificativa para tudo. é buscar raízes sociais para passar a mão na cabeça dos delinquentes.
    na minha opinião as pessoas tem direitos e deveres, e quando infringem as regras para se viver em sociedade, deve haver punição sim. se não for dessa forma, a anarquia estará instalada.
    eu não posso sair por aí depredando o patrimônio público ou privado. não há justificativa para isso. não há nada no passado que endosse o vandalismo no presente.
    essa condescendência excessiva é que nos torna tão vulneráveis a todo tipo de violência e transgressão.
    a polícia está lá sob pressão. qualquer pisada em falso, a baderna está instalada. é muito fácil julgar a polícia. mas quero ver estar lá tendo que contornar uma situação daquelas, limitados pela condenação da opinião pública e tendo que reestabelecer a ordem pisando em ovos…
    ou eu estou muito errado, ou é a inversão total dos valores.

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    • Concordo contigo, Pedro. Mas não se trata de passar a mão na cabeça dos delinquentes, e sim nos perguntarmos POR QUE eles são delinquentes. As pessoas gostam muito de ter certeza das coisas e julgar precipitadamente, mas não é a certeza que faz o progresso social, e sim a dúvida. E falando em inversão de valores, te recomendo: http://trilhos.maodupla.org/2012/09/18/a-crise-nao-e-economica/

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  4. A BM já admitiu a culpa:
    http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=470758#.UHMM-Or33yM.facebook

    Bem que agora eles podiam todos se aposentar e acabar com essa polícia que é resquício da ditadura.

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