Artigo: Fortunati e as desventuras de governar Porto Alegre, por Augusto Bisson

Foto: Gilberto Simon. Arquivo Porto Imagem

Desde o ano passado, o PT sabia que José Fortunatti (PDT) seria reeleito prefeito de Porto Alegre em 2012. Naquela oportunidade, ouvi gente da máquina do partido conversando num restaurante e foi dito ali que o melhor dos candidatos petistas possíveis – excluídos Olívio Dutra e Tarso Genro – chegaria, no máximo, a 15% dos votos.

O que não se imaginava, naquela época, é que não houvesse segundo turno. Entretanto, Fortunatti fez 65% dos votos válidos, certamente a maior votação já obtida por um candidato a Prefeito de Porto Alegre pós-1985, e, talvez, da história da cidade (desconheço o percentual da vitória de Brizola,PTB, sobre Perachi Barcellos,PSD, em 1955). Antes da eleição, uma pesquisa da Methodus-Correio do Povo – que é mais exitosa no RS do que as do Ibope e do Datafolha – apontou inacreditáveis 30% de rejeição a Manoela D’Ávila( PCdoB) e 25% a Adão Villaverde (PT).

Inacreditáveis porque, há quatro meses, subsistia um certo temor entre alguns pedetistas e antiesquerdistas de que Manoela pudesse conquistar a Prefeitura. Agora, com Fortunatti vencendo a eleição, vejo jornalistas da RBS criticando até, pasmem, a campanha de Manoela na televisão e elogiando a do prefeito reeleito. A verdade é que o programa televisivo dessa menina do PCdoB tinha uma extraordinária qualidade visual.

O problema não estava tanto no conteúdo, mas nas mentiras que foram ditas lá, inclusive uma que foi reproduzida ad nauseum no Facebook como galhofa – a que Manoela tinha estudado em Harvard, quando apenas participou de um seminário nesta universidade – no fato de que a população desconhece qualquer projeto para “gente grande” formulado pela candidata na condição de deputada federal e de outro ponto que vou explicar mais abaixo.

Já Fortunatti fez um programa de TV de qualidade, ao meu ver, apenas média, mas com um jingle de “colar” no ouvido – o “Fortunatti Tchê”.

Este era exibido sobre imagens de gaúchos a cavalo percorrendo campos a perder de vista, carregando bandeiras do PDT e do PMDB. Se você, como eu, não é gaudério e acha que isso parece mais propaganda para prefeito de Bagé ou, na mais generosa das hipóteses, para Governador do RS, está certo.

Contudo, essa imagem “farroupilha” também revela – e falo sério, não com ironia ou sentido crítico – que a vitoriosa coligação PDT-PMDB está plenamente ciente da verdadeira dimensão “mental” da população da capital de duas décadas para cá, no mínimo – a qual é muito mais rural, tacanha e saudosista do que urbana, dinâmica e voltada para o futuro. Num aparente paradoxo, porém,as obras do Prefeito, que foram muitas, falaram mais alto, e estas sim, foram suficientemente mostradas na TV.

Obras que, comprovadamente, dado o resultado eleitoral,ganharam o aplauso da população.

Agora…Excetuando-se o fato de que a Prefeitura de Porto Alegre é um trampolim natural para o Governo do Estado, acho o cargo de prefeito da capital pouco atraente. Para começar, as possibilidades de lucros advindos das propinas, caso você seja um vigarista, são bem menores do que pode obter se estiver ocupando o Palácio Piratini.

A população vive reclamando da iluminação, dos alagamentos,do transporte, do recolhimento do lixo, do diabo a quatro, inclusive da segurança pública, que é da competência do Governo do Estado. E você não tem verbas para atender às necessidades de todos os bairros da cidade, sobretudo dos mais pobres, carentes de quase tudo. Se você for, então, um político do tipo (extinto no RS) que acha que governar é modernizar o espaço urbano e realizar obras de fôlego, está completamente ferrado.

Há uns 25 anos, falava-se muito que dois lobbies governavam a Prefeitura: o dos transportes e o das construtoras. Pois bem, eles não estão mais sós. Nos dias de hoje, qualquer maluco se junta a meia dúzia de insanos e pára Porto Alegre.

É uma das conseqüências do antigo discurso petista de que a “sociedade tem de se organizar” para fazer valer as suas reivindicações. Pois bem, até os antipetistas estão se organizando hoje em defesa de seus interesses – não os da cidade, naturalmente, mas os seus, tolos,particularíssimos, mesquinhos e egoísticos.

São auxiliados nesta tarefa pelos supostos ambientalistas e pela corporação dos arquitetos preservacionistas do “patrimônio histórico arquitetônico”, normalmente reacionários saudosos das aldeias e grotas do interior de onde saíram, cujo formato tentam (com sucesso) impor á capital. Você não pode mais “mexer” na cidade.

E, com isso, dê-lhe perpetrar ou disseminar a pobreza !

Sim, por que o que é que vocês acham que significa “congelar” áreas residenciais em Porto Alegre, senão impedir que progridam e se valorizem ? Onde moro, por exemplo, o Moinhos de Vento, não se constrói mais nenhum edifício residencial acima de quatro andares sem o aval de um grupo de velhinhos e malucos encastelados numa auto-intitulada “Associação de amigos e simpatizantes” do bairro.

O resultado é que o Moinhos, outrora região de elite, vai apodrecer de velhice e ter seus imóveis desvalorizados ao longo do tempo em função de dois fatores: o comércio que está ocupando as casas antigas – defendidas por todos, mas nas quais ninguém quer morar – e a expansão da criminalidade, que está crescendo ali pela grande circulação de pessoas nos bares e restaurantes e pela elevadíssima faixa etária dos moradores da região (proporcionalmente, a mais alta do Brasil).

Sim, porque não há imóveis disponíveis no Moinhos para a classe média alta, a qual teria cacife para morar ali – e, se vc tem ao redor dos 40 anos e muito dinheiro para investir, um apartamento num edifício construído em 1975 está longe de ser o seu sonho de consumo.

A população residente do Moinhos está caindo desde 2000, aponta o Censo de 2010.Tudo isto pela obstinação de um bando de consorciados de jazigo que querem manter aquele espaço como era no seu tempo de juventude. A cidade é, portanto, absolutamente reacionária, característica que transcende as divisões habituais de direita e esquerda, sendo comum a ambas. SEMPRE FOI ASSIM, provavelmente.

Não há lugar para o novo aqui há muito tempo e, talvez por isso, a juventude de Manoela D’Ávila (da qual não sou eleitor)não seja encarada como virtude. Afinal de contas, quem está interessado em renovação em Porto Alegre ?

Melhor deixar como está, pensa boa parte da população – e Fortunatti não pode ser responsabilizado por essa perspectiva imobilista. Sendo assim,a cidade, como o Estado, não “anda” da forma que poderia andar.Pela vontade de sua população, que tem medo de qualquer projeto ousado e grandioso, frise-se, não da do prefeito, seja ele quem for. Sob estas condições adversas, acho perfeitamente natural que Fortunatti – um bom prefeito, ressalte-se – encerre todos os seus pronunciamentos falando de Deus.

Realmente, ele precisa de um aliado desse porte para governar tamanha “bicheira”…

* Augusto Bisson é escritor, jornalista e funcionário do Estado do RS.

Um dos livros do Augusto Bisson:

Moinhos de Vento – Memórias de Um Bairro de Porto Alegre, de Augusto Bisson



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23 respostas

  1. Não gostei do texto… ele verte desprezo e demonstra até raiva em alguns pontos, sem trazer nenhuma informação nova ou relevante.

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  2. É, mais um fascista que quer viver no Paquistão cimentado, asfaltado e – ao final desse “pogreço” todo – desvalorizado pela sanha das empreiteiras, cujos donos não só não moram como não estarão mais investido numa cidade cuja qualidade de vida foi destruída com os aplausos desse tipo de mentalidade tacanha. Sou mais os “velhinhos” de visão do Moinhos de Vento que esse tipo de lobista freelancer de um “pogreço” dos anos 50.

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  3. Hoje o Moinhos é a regiao mais dinamica da cidade, por isso recebe um afluxo maior de pessoas. Tem vida diurna e noturna, algo que nao existe em nenhum outro lugar de Porto Alegre. No proprio Moinhos algumas construcoes que preservam o patrimonio historico e dao lugar a belos edificios estao saindo, mais do que em qualquer outro lugar da cidade.

    No mais, concordo com o cara que disse preferir morar em apartamento de 1975. A unica coisa que se faz hoje em dia sao apartamentos minusculos com “espaco kids” (que se resume a um tapete de grama sintetica com um brinquedo). A qualidade de vida está caindo fantasticamente.
    É a festa das construtoras que ganham rios de dinheiro em cima das pessoas que compram essas coisas deprimentes (por necessidade ou vontade).

    Concordo também com aqueles que dizem que é necessária uma mudanca. Por um lado, há uma excessiva dificuldade em melhorar e promover o progresso em certas regioes; por outro lado, a prefeitura entrega de bandeja terrenos gigantescos para condominios bizarros (Jardim Europa, Central Park e inumeros na Zona Sul).

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  4. de novo apareceu paris nos comentários. tem milhares de belas capitais com belos edifícios, mas parece que temos 300 paris no mundo e 1 com edificios altos . e paris é linda mas não serve de exemplo pra nós.

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