ARTIGO: A cabeçada de Zidane, por Sérgio Furtado

Lance que marcou o final da carreira de Zidane foi eternizado em escultura de cinco metros exposta em Paris. Imagem: AFP

Acaba de ser inaugurado, em Paris, um monumento de cinco metros consagrando a famosa cabeçada do jogador Zidane no peito do zagueiro italiano Materazzi, em plena prorrogação da final da Copa do Mundo de 2006.

O lance inusitado e surpreendente resultou na expulsão de Zidane, e a França acabou perdendo a Copa nos pênaltis. Zidane não participou da cobrança das penalidades e muitos julgam que a sua ausência foi determinante para a derrota do time francês. Ressalte-se ainda que o jogo marcou a despedida de Zidane da seleção após uma carreira vitoriosa em grandes clubes.

Sem dúvida, Zidane foi um dos maiores e mais completos craques que o futebol já produziu, harmonizando técnica refinada, estilo clássico, imposição física, amplo domínio dos fundamentos e uma produtividade confirmada pelos inúmeros títulos que conquistou, incluindo o de campeão do mundo na Copa da França, quando derrotou o Brasil na final com dois gols de cabeça. A mesma cabeça que depois feriu o adversário italiano.

A atitude violenta de Zidane ao reagir a uma provocação verbal do italiano gerou, na época, um grande debate não apenas no mundo do futebol, mas também no universo dos que estudam o comportamento humano.

Abstraindo a reação passional dos franceses que de imediato exaltaram e justificaram a agressão de Zidane, em defesa da honra e do orgulho do povo francês, podemos centrar a análise da atitude agora eternizada em bronze com o seguinte questionamento: por que um atleta experiente e consagrado, reconhecido pelo estilo elegante e pela capacidade técnica e intelectual superior à maioria dos jogadores, deixou-se levar por uma provocação banal, perdendo totalmente o controle e regredindo à condição de um búfalo furioso, partindo para a agressão física mais irracional e primitiva, perante os olhos de milhões de pessoas.

Seria um autoflagelo diante da aposentadoria iminente? Uma recusa em deixar seu território para outros machos? Um ato de exibicionismo egocêntrico? Um gesto inconsequente de um semideus intocável? Por que Zidane agiu como um Materazzi qualquer?

Dou aqui o meu palpite como admirador do futebol, relembrando que Pelé deu cotoveladas e cusparadas na cara dos adversários, que Tostão meteu a sola na canela de zagueiros, que Carlos Alberto levantou atacantes aos pontapés, que Rivelino brigou com nossos “hermanos” e que todos os grandes craques do futebol mundial e de outros esportes reagiram com violência a agressões, provocações, decisões injustas dos árbitros ou diante de adversidades aparentemente corriqueiras.

Nenhum desses incidentes mereceu uma estátua e vale lembrar a máxima de Mário Quintana sobre placas e monumentos – “um engano em bronze é um engano eterno” – mas me atrevo a manifestar a minha percepção sobre a atitude do Zidane: nenhum atleta – e talvez nenhum profissional de qualquer setor produtivo – é capaz de alcançar o sucesso se não carregar o dia inteiro, diante de cada desafio, uma considerável dose de indignação ou mesmo de raiva contida, pronta a explodir a qualquer momento.

A vitória nos cenários competitivos e nas adversidades não brota da passividade ou da indiferença. Zidane só consagrou-se como jogador vitorioso porque atrás de sua técnica superior pulsava um espírito competitivo insaciável.

A cabeça que explodiu no peito do italiano é mesma que desviava sutilmente a bola do goleiro, com destino às redes. Zidane foi um dos maiores não apenas porque saboreava o prazer de ganhar, mas porque não tinha dó dos adversários.

A violência de Zidane é um exemplo condenável mas compreensível e contém um recado didático aos que sonham em ser zidanes: – “não me idolatrem, eu sou humano!”

Para nós, gaúchos, que assistimos o Estado patinando na mesmice, olhando para o passado enquanto outros Estados e mercados nos ultrapassam com ideias novas e iniciativas arrojadas, também cabe uma provocação: não estaria na hora de perder o medo do novo, de correr riscos e de extrair da nossa capacidade produtiva a força para a construção de um Rio Grande diferente, criativo, moderno e muito mais competitivo?

Boas cabeças não faltam por aqui, tanto para vencer desafios como para romper as barreiras que nos impedem de avançar. Chegou a hora de darmos algumas cabeçadas para demonstrar a nossa indignação e impor o nosso talento.

* Sérgio Furtado é publicitário, Planejamento da Agência Matriz Comunicação e Marketing



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6 respostas

  1. Estamos lendo um texto bom e interessante sobre Zidane quando de repente surge o RS estagnado nas ultimas linhas! Do nada tentou-se encaixar o RS num texto completamente fora do escopo com uma analogia fraca, sinceramente. O texto passou 80% do tempo meditando sobre um ótimo jogador que “perdeu a cabeça”, daí vem essa conclusão contraditória de que o RS deve fazer o mesmo pois “Chegou a hora de darmos algumas cabeçadas para impor o nosso talento.” CARAMBA, por acaso o Zidane impôs talento dando cabeçadas? Haha desculpa, mas essa redação não passa nem no ENEM!

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    • OK, a parte do ENEM foi brincadeira, acho mesmo que existem dois textos num só, ambos não conseguem coexistir nesse artigo e podem ser dois ótimos assuntos casos sejam escritos em separado.

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  2. É claro que nós gaúchos precisamos, não de raiva contida, mas de inquietude. De não conformação. De Ambição!
    Aquilo que move o ser humano para frente e não aquilo que os reduz a animais irracionais.
    A ambição e a inquietude só resultam em raiva e destemperança quando paramos de pensar e agimos com nossos instintos mais selvagens. Foi isso que aconteceu com o pseudo ídolo. Ele não conseguiu canalizar sua ambição para algo produtivo e inteligente e em vez de usar a cabeça, perdeu-a no peito do zagueiro.

    A propósito, só mesmo os franceses para erigirem uma estátua sobre isso. Cheios de contradições. Construíram o maior museu de pilhagens do mundo. Exalta, se orgulha e mantém o luxo de uma corte que decepou e queimou. E agora perpetua o destempero e a animalização do homem. Allez les bleus.

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  3. Olá,

    O artigo acima é realmente muito interessante (principalmente os dois últimos parágrafos).

    Entretanto (embora essa não seja a idéia do artigo) tenho que admitir que a idéia dos franceses em inaugurar um monumento consagrando aquela cabeçada mortífera do Zidane no zagueiro italiano foi INFELIZ. Imagina se a moda pega em Porto Alegre. logo alguém iria sugerir que inaugurassem um monumento consagrando uma falta violenta num Gre-Nal passado ou então a destruição do boneco “Tatu-Bola” por alguns vândalos sem cérebro…

    Mas evidente que isso não foi a intenção do autor do artigo (por isso que elogiei os últimos dois páragrafos).

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  4. “Chegou a hora de darmos algumas cabeçadas para demonstrar a nossa indignação e impor o nosso talento.” – como aquilo chegou a isso???

    me desculpe a franqueza, mas que lixo de artigo.

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  5. Achei a construção da estátua para essa burrice do Zidane interessante.

    Concordo que deveríamos ser bem mais enérgicos quanto ao desenvolvimento do estado.

    Agora juntar os dois fatos nesse artigo foi bem infeliz… me desculpe a franqueza, mas o que o encadeamento de ideias não ficou bom.

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