A crônica de Ipanema: como os coliformes viraram meus parceiros de jogging

O leitor ZSJ nos envia esta crônica. Divirtam-se.

Atenção: este texto é irônico, ácido e possivelmente ofensivo. Leia por conta e risco.

orla-zona-sul-gilberto-simon-01Moro na zona Sul de Porto Alegre. No último domingo, às oito da manhã, após mais uma interrupção da eletricidade, o ar condicionado parou. Sem conseguir definir se o calor que me acometia era efeito da ira contra os gestores do setor elétrico ou o resultado da obviedade do nosso clima senegalês ou, ainda, as duas coisas combinadas, lembrei da estória do limão e da limonada e levantei da cama para tentar transformar a incompetência da CEEE em alguma coisa positiva: uma caminhada no calçadão de Ipanema.

Tênis, calção, fone no ouvido e muita atenção para não cair nos buracos, poças d’água a cocôs de cachorro das imediações, me dirigi para a nossa versão sulista da Vieira Souto.

Ao lá chegar, encontro típicos porto-alegrenses com seu não menos típico chimarrão aninhados na areia ao aboletados nos poucos banquinhos da orla, observando um

( ) rio?
( ) lago?
( ) estuário?
( ) NDA?

mesmerizados pela paisagem bucólica.

E qual o problema, perguntará o desavisado leitor? Como o óbvio empenhava-se em demonstrar, entre cada tapa que me acertava, tudo! O entorno fedia, havia lixo até onde a vista alcançava e um esgoto esforçava-se na missão de contribuir para o tom acobreado de nossa principal reserva potável. Porém, nada disso parecia evidente para os presentes, absortos em suas atividades ipanêmicas.

Deus! O que faz essa gente aparentemente normal, que conhece os fundamentos da escova de dentes e troca a roupa de baixo todo o dia, querer disputar um espaço público com os coliformes fecais! Como é possível que pessoas que batem no peito e falam das maravilhas da “Civilização Gaúcha”, considerem lazer a observação de dois urubus disputando a coxa de uma galinha de despacho? Será que alguma coisa na água de Porto Alegre, além dos já familiares coliformes, leva as pessoas a não enxergar que a dita principal atração turística da zona Sul fede e é imunda!

orla-zona-sul-gilberto-simon-02E é imunda, não só por causa do esgoto. É imunda porque quem freqüenta o lugar ao invés de rabiscar em cavernas para posteridade, prefere deixar sua marca na história na forma de uma lata de cerveja ou um pacote vazio de Cheetos.

Mas, principalmente, é imunda por causa de um conceito muito justo, mas que no caso de Porto Alegre, foi transformado em uma justificativa para imundície e maus tratos de animais: liberdade religiosa.

A liberdade religiosa é o direito que qualquer um tem de erguer um altar em sua própria casa, igreja, templo, cafofo e rezar para quem bem entender, seja Madre Tereza ou Paris Hilton. Ninguém tem nada com isso. Ponto.

Agora, emporcalhar áreas públicas obrigando outras pessoas que não tem a mesma fé a conviverem com a sua sujeira deveria ser sumariamente proibido.

Quando foi que, como porto-alegrenses, paramos de reagir contra esse tipo de vandalismo e nos tornamos suficientemente involuídos para conviver com essa sujeira a ponto de dedicarmos nossas poucas horas de laser à contemplação da imundície.

Ao invés de considerarmos aquela região uma atracão turística deveríamos tratá-la como o que realmente é: um lixão!

Não me leve a mal, mas da próxima vez que a incompetência de CEEE me impedir de usar o ar condicionado da minha própria casa, vou para o shopping. De preferência para porta da L’occitane, onde cheira bem.

Ps. O óbvio me acertou mais uma vez, só que desta vez bem no traseiro. Afinal, eu estava distraído e não reparei bem naquelas estacas fincadas no meio da água: aquilo é o píer que vão inaugurar? Resposta do óbvio: só se for piada! E dá-le cacetada.



Categorias:ORLA, Zona Sul

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20 respostas

  1. Praticamente todos sabem, muitos até por visitarem o Uruguai, nosso vizinho, é um país em crise financeira. Dotado de muito menos recursos.
    Montevidéu é uma capital que tem muitas semelhanças com Porto Alegre, desde o volume de pessoas até a geografia: O centro é em uma ponta, onde iniciou a cidade, a beira de um grande curso d´água. Contudo, em obras, não dá para comparar, da mobilidade urbana, à orla.
    Lá, o trânsito flui, em meio a muitas praças ornadas e cuidadas; aqui, não há fluxo, tudo engarrado, em meio a uma insipidez.

    Os cisplatinos mantém, em sua Prefeitura, um mirante com elevador panorâmico, aberto a visitação todos dias úteis. Aqui, quem sobe ao Morro Santa Teresa para observar a cidade corre risco de ser assaltado.

    A orla uruguaia é trabalhada, coberta de granito, com diversas atrações. Aqui, oscila entre o abandono e o lixo.

    Comparar Porto Alegre a Montevidéu demonstra os horrores dessas duas décadas de disfarçado domínio da acultura da superficialidade, egocentrismo e corrupção no Brasil: http://www.padilla.adv.br/processo/pensamento/

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  2. Como todos sabem, muitos até por visitarem o Uruguai, país vizinho, em crise, dizem, com muito menos recursos. Montevideo é uma cidade com similitudes a Porto Alegre, desde o volume de pessoas a situar-se na beira de um grande curso d´água. Contudo, não dá para comparar as orlas. A de lá é lindamente cuidada. Aqui, um abandono. Resultado de duas décadas de acultura da superficialidade, egocentrismo e corrupção: http://www.padilla.adv.br/processo/pensamento/

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