A cidade mais sustentável da América do Sul perdeu o posto?

Do original em inglês: “Has South America’s Most Sustainable City Lost Its Edge?”

Mathieu Struck / Flickr

Mathieu Struck / Flickr

A metrópole do sul do Brasil, Curitiba, construiu sua reputação como um modelo de planejamento urbano, graças, em grande parte, ao seu sistema inovador de transporte. Mas, nos últimos anos, o sistema tornou-se superlotado e caro, levando as pessoas a usarem seus carros.

Curitiba é, hoje, a capital do estado brasileiro com o maior índice de automóveis por habitante e as suas ciclovias permanecem largamente sub-aproveitadas. No início de junho, reportagens revelaram que o uso de seu famoso sistema de Bus Rapid Transit diminuiu 14 milhões de viagens nos últimos quatro anos, ou 4,3 %. A isto seguiu-se uma série de acidentes envolvendo excesso de velocidade dos ônibus, e queixas sobre os preços cada vez maiores das tarifas.

O BRT, cortesia: whltravel / flickr .

O BRT, cortesia: whltravel / flickr .

A cultura do automóvel está crescendo em todas as principais cidades do Brasil, pois a emergente e feliz classe média desiste do transporte público ineficiente. Mas o BRT, muito elogiado, que inspirou sistemas como o TransMilenio, de Bogotá , não estava contando com seu declínio de popularidade. A culpa, segundo os críticos, está com a URBS, a agência da cidade responsável pela gestão do sistema, que não conseguiu se adaptar às mudanças dos padrões de uso e com o aumento da população.

O infortúnio do BRT se refere às principais falhas da governança da cidade de Curitiba. Depois de elogiada por seu planejamento urbano impecável e intervenções inovadoras – a cidade praticamente inventou o termo “acupuntura urbana” – Curitiba agora parece estar sofrendo de uma certa inércia.

Ônibus de Curitiba sistema Rapid Transit vem sofrendo superlotação nos últimos anos. Cortesia: Elias Dias

Ônibus de Curitiba sistema Rapid Transit vem sofrendo superlotação nos últimos anos. Cortesia: Elias Dias

“Nos últimos 15 anos Curitiba tem descansado sobre as suas glórias”, diz Clara Irazabal, professora assistente de planejamento urbano na Universidade de Columbia, que escreveu longamente sobre a metrópole brasileira.

A cidade não foi capaz de integrar seus crescentes subúrbios em um plano regional coerente. Como resultado, a maioria das intervenções de planejamento pelas quais  Curitiba é conhecida – parques públicos e espaços verdes, ruas pedonais, a preservação da área histórica – não são acessíveis a centenas de milhares de residentes suburbanos (e geralmente de baixa renda).

O método de planejamento de Curitiba também se concentra na cidade “formal”, deixando milhares de moradores de baixa renda sem escolha, mas para estabelecer assentamentos ilegais devido à falta de habitação a preços acessíveis, diz José Ricardo Vargas de Faria, um engenheiro que trabalhava na Ambiens – o órgão de planejamento urbano de Curitiba que opera como uma cooperativa. “O discurso sobre Curitiba deixa de fora deliberadamente certas coisas, e contribui para construir uma imagem de uma cidade que resolveu todos os seus problemas através de um planejamento”, diz ele.

Graffiti onde se lê "2,20 reais já é um roubo", pode ser visto em torno da cidade de Curitiba. Usuários de BRT têm se queixado sobre as tarifas elevadas. (Crédito: Movimento Passe Livre)

Graffiti onde se lê “2,20 reais já é um roubo”, pode ser visto em torno da cidade de Curitiba. Usuários de BRT têm se queixado sobre as tarifas elevadas. (Crédito: Movimento Passe Livre)

Uma estimativa de 10 a 15 % da população ainda vive em moradias precárias, e 83 % da população na área metropolitana ganha uma renda baixa a moderada (inferior a cinco salários mínimos mensais) (ler documento aqui, em inglês – PDF). A criminalidade é alta, com 4,7 assassinatos a cada dia na média. Isso é 56,8 assassinatos por 100.000 habitantes (ler documento PDF aqui), uma taxa quase tão elevada como New Orleans (58 assassinatos por 100.000 habitantes em 2011.) Estes números não são ruins para os padrões brasileiros. Mas Curitiba era para ser diferente de uma típica cidade do BRIC.

A imagem de Curitiba foi em grande parte construída em torno de Jaime Lerner, prefeito três vezes entre 1971 e 1992 e mais tarde governador do estado do Paraná. Ele ficou famoso com o lançamento do BRT, bem como de muitas outras medidas inovadoras. Como arquiteto e urbanista, ele contribuiu para a criação, em 1965, da agência de planejamento da cidade, o IPPUC.

Mas a sua prefeitura de alto perfil, por vezes, ofuscou o trabalho do departamento. Como governador, ele adotou uma postura conservadora em relação a várias questões sociais, e foi responsável por uma dura repressão do movimento sem-terra.

Desde os dias Lerner, o IPPUC recuperou a sua autonomia do gabinete do prefeito, mas ainda está operando em círculos fechados. “Curitiba é muito famosa pelo seu planejamento urbano, mas a verdade é que esse planejamento é muito autoritário e tecnocrático”, explica Faria. O exemplo mais recente disso são as agressivas concorrências públicas para sediar quatro jogos da Copa do Mundo de 2014. Elaborado pelo IPPUC, as concorrências envolvem um reordenamento das prioridades do planejamento da cidade, a venda de bens públicos, a remoção dos moradores sem um plano de realojamento e uma série de outras medidas.

Para Clara Irazabal, este tipo de decisão marca a entrada de Curitiba no que é às vezes chamado de “urbanismo neo-liberal”, o que implica tratar a cidade como uma mercadoria, a fim de atrair capitais, por vezes à custa de uma grande parte da população. Nesse sentido, Curitiba só é culpada por fazer parte de uma tendência mundial de governança de cidades.

Enquanto isso, a discrepância entre sua imagem impecável e realidade está crescendo.

“Você tem que lembrar que, no momento, todas essas idéias eram muito inovadoras”, diz Irazabal. “Há uma lógica de aprendizagem das melhores práticas. Você pode ter soluções para problemas que se provou serem eficazes, e isso é prevalente em muitas outras disciplinas. Essas idéias viajam ao redor do mundo.” Ela acrescenta: “Às vezes as idéias continuam viajando, mesmo quando eles estão desatualizadas.”

FLAVIE HALAIS, 06 DE JUNHO DE 2012

Flavie Halais é jornalista e diretora de filmes freelancer. Mora em Montreal, Canadá.

FONTE: ATLANTIC CITIES PLACE MATTERS

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Esta matéria é um pouco antiga (junho/2012), mas achei que valia a pena compartilhar com vocês.



Categorias:Bicicleta, BRT, Sustentabilidade

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43 respostas

  1. O sistema de ônibus de Curitiba é ótimo, o problema é que transporte público em geral não é essa maravilha que todos pensam, a mídia é hipócrita e eu vou dizer porquê. Vc pode morar em qualquer região de Curitiba que vai encontrar paradas de ônibus próximas e o sistema é integrado, vc pode ir pra qualquer lado da cidade pagando apenas uma tarifa e nos corredores o deslocamento é muito rápido. O problema é que o sistema não da conta da quantidade de usuários e mesmo assim, sobrando usuários, o sistema não se paga. O governo tem que subsidiar em grande parte o transporte pra manter a tarifa em R$2,60. A solução seria aumentar a quantidade de ônibus, isso seria possível, mas o governo teria que aumentar e muito o subsídio e isso seria impossível. Então a tarifa teria que aumentar bastante e quando o povo aceitaria isso? Nunca! Que tal algum ‘J’enio da mídia dar uma solução pra isso ao invés de mandar todo mundo usar transporte público? Não é tudo tão simples como a brasileirada pensa. Se o político se tentasse explicar isso pra brasileirada eles não entenderia nada do que foi dito e o cidadão perderia a eleição, por isso da-lhe bla bla bla sustentável na mídia!

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  2. Curitiba buscou alternativas para o transporte público e inovou com o BRT, porém a realidade das grandes cidades exige soluções ainda mais inovadoras. O Sistema AEROMÓVEL precisa ser aperfeiçoado ao máximo e implantado em escala maior. É preciso analisar ambos os sistemas, BRT e Aeromóvel, e ficar com o mais adequado. Será que o BRT será solução para Porto Alegre, ou ainda não acreditamos suficientemente no Aeromóvel?

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  3. Curitiba está tão ruim assim?

    Florianópolis que tem o mar como opção está ruim, como Porto Alegre não aproveita a via natural que tem, e nesta época com chuva nem falo, os turistas sem ter o que fazer, a maioria ao mesmo tempo dirige-se para aos shoppings centers da capital catarinense,

    Sem congestionamentos, cruzamentos e semáfaros, nem pedestres, como todos sabem está localizada numa ilha, porém tem a máfia dentro da prefeitura que diz que é inviável e coloca o assunto fora de questão, sem falar que a capital catarinense só tem duas pontes, a terceira é só para cartão postal, e dá uma fortuna por mês, dinheiro do povo, à alguns “espertos.”

    Transporte público no sul do Brasil é isto que estamos vendo, um trecho de metrô, o resto é o quê vemos, são estradas, que fomenta a indústria de ônibus, automóveis e caminhões.

    Não existe planejamento para construção de linhas férreas para transportar passageiros
    entre as capitais do sul e dentro delas mesmas.

    Vemos, balsas, trens, bondes e VLTs etc. em filmes e documentários rodados na Europa, EUA e até na Ásia, somos o mais progressista país do mundo!

    Resultado? Caos nas ruas e estradas.

    Para ir e vir, na cidade e estradas gasta-se horas em congestionamentos intermináveis.

    É o que estamos vendo na BR 101 não só neste ano, mas já faz anos!

    Quem reside na ilha, com tando mar ao redor, não tem barco nem lancha, ir à praia tem que ser de automóvel, pois aos fins de semana os inteligentes da prefeitura diminuem os horários de ônibus, ou seja, como não fosse um lugar turístico, um absurdo!

    E assim a vida segue com estes incompetentes na administração pública, não é só em Curitiba ou Porto Alegre, em Florianópolis também é esta porcaria!

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