O ônibus é tão bom quanto o metrô

Maria Fernanda Cavalcanti

Estação BRT de Curitiba. (Foto: Mariana Gil / EMBARQ Brasil)

Estação BRT de Curitiba. (Foto: Mariana Gil / EMBARQ Brasil)

O professor universitário Luis Antonio Lindau conseguiu uma façanha. Ele reuniu no final de 2012, em Brasília, prefeitos, secretários de Trânsito e técnicos de 39 municípios brasileiros para discutir um tema comum a todos – motivo de dores de cabeça e discussões infindáveis: o esgotamento do trânsito nas cidades. O workshop, que procurou orientar os gestores e trazer referências nacionais e internacionais para as administrações municipais na área de mobilidade urbana, foi promovido pela Embarq Brasil, organização especializada em auxiliar governos e empresas no desenvolvimento e implantação de soluções sustentáveis para os problemas de transporte. Durante o evento, Lindau, que é diretor-presidente da Embarq no Brasil e PhD em Transportes, falou com a Gazeta do Povo sobre as principais dificuldades enfrentadas pelos municípios brasileiros na área de mobilidade e as alternativas que devem ser buscadas por Curitiba para atrair mais passageiros para o transporte coletivo.

Curitiba foi pioneira na instalação do sistema BRT (sistema de transporte rápido) com a criação dos corredores exclusivos de ônibus, em 1974. Nos últimos anos, o número de passageiros estagnou e, hoje, o sistema é deficitário. Como reverter esse quadro?

Está faltando Curitiba fazer uma pesquisa de origem e destino [dos deslocamentos dos passageiros], que Porto Alegre, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro fazem. Todas essas cidades preparam uma pesquisa dessas no mínimo a cada dez anos e aí se revela um padrão de mobilidade. Eu adoraria saber se o curitibano usa ou não o BRT, qual a taxa de motorização das famílias, por exemplo. Mas não há essas informações.

Esse tipo de informação poderia qualificar as ações do poder público voltadas à melhoria do transporte coletivo?

Curitiba é uma das poucas capitais, entre cidades do mesmo porte, que não tem essa pesquisa, estranhamente. Uma das contribuições da Embarq para Curitiba foi a elaboração de um termo de referência para a cidade fazer sua pesquisa de origem e destino. Entregamos o documento em 2005 para o Ippuc. Isto tem que ser colocado em campo.

Falando em BRT, pesquisas da própria Embarq mostram que houve uma explosão do uso desta alternativa de transporte em todo o mundo na última década. Os prefeitos brasileiros estão atentos a essa tendência?

O grande diferencial agora é que o governo federal está liberando recursos, colocando para os gestores a exata dimensão do que é um corredor de ônibus, o que é um BRT. Em muitos municípios, sempre havia aquele sonho do prefeito de fazer um VLT [veículo leve sobre trilhos] ou um metrô, sem ter a noção da dimensão do que estava falando. O importante é que esses gestores entendam que o BRT é tão bom quanto o VLT ou o metrô.

Os municípios estão preparados tecnicamente para fazer projetos nessa área? Como a histórica falta de um corpo técnico qualificado afeta esse planejamento?

É um impedimento. E isso é resultado dos 30 anos de falta de investimentos públicos nesse setor. Imagine toda a geração de pessoas formadas nesse período. O que atrairia esses profissionais a trabalhar nessas cidades, se elas não tinham acesso a nenhum recurso pra investir em transporte? Hoje, ainda é absolutamente incomum encontrar um corpo técnico qualificado mesmo nas cidades de médio porte no Brasil.

Qual o futuro do carro nas cidades? No exterior, principalmente na Europa, já se fala em um movimento de derrocada dos automóveis, que estariam sendo deixados de lado pelos jovens.

Estive em 2011 na Europa em um encontro da indústria automobilística e a discussão é essa: é o carro que vai marcar o desenvolvimento das cidades ou é o desenvolvimento das cidades que vai afetar o mercado do carro? A grande preocupação para a indústria de lá é que o jovem europeu quer morar no centro das cidades, caminhar pelas ruas, circular com os amigos, voltar a pé ou de bicicleta para casa. Esses jovens estão se livrando de um custo brutal que é o carro. Se colocar na ponta do papel, o carro te custa uma fortuna por ano. Em vez de gastar nele, você poderia educar melhor o seu filho, contratar um plano de saúde… Quem está fazendo as contas já percebeu isso.

Por Rafael Waltrick. Publicado na Gazeta do Povo em 13/01/2013.

O repórter viajou a convite da organização do evento.

THECITYFIXBRASIL

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Me parece que esta reportagem meio que se coloca oposta a matéria publicada aqui no Blog no dia 6 de janeiro último.

A cidade mais sustentável da América do Sul perdeu o posto?



Categorias:BRT, Meios de Transporte / Trânsito, mobilidade urbana

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37 respostas

  1. um sintoma da situação atual é gente dizendo que o BRT, corredor de ônibus ou afins “não atrapalha”. Deveríamos pensar quem está atrapalhando quem: aquele ônibus lotado de gente que passa pelo corredor, ou os 40 carros na avenida?

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    • Atrapalha todo mundo:
      – os carros, por tirar uma pista e por criar sinaleiras pros pedestres que precisam atravessar pros corredores
      – os próprios ônibus, por muitas vezes precisarem sair do corredor, pois as linhas não ficam exclusivamente nos corredores, ou esperar cruzamentos trancados, justo por não ser segregado
      – o comércio local: estude sobre a degradação das avenidas com corredor de ônibus, especialmente a Farrapos, e verás que o corredor ajudou muito na decadência.
      – os pedestres que precisam atravessar as avenidas pra ir ao corredor, enquanto um metrô é subterrâneo, tu desce a calçada e tá dentro da estação.

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  2. Todos os meios de transporte coletivos, sejam BRT, VLT ou metrô são excelentes, mas depende da aplicação. Pelo traçado das ruas de Curitiba, por exemplo, o BRT se mostrou nota 10 e lá não atrapalha em nada, sendo a marca registrada em beleza, limpeza, rapidez e eficiencia. Em Bogotá também funciona (tive o privilégio de usá-lo) da mesma forma. Em Porto Alegre, que tem ruas com traçado irregular já não seria bem assim, mas trará muitos benefícios. Talvez nem em Paris seria adequado.
    O VLT já esperimentei em muitas cidades como Roma, Porto (PT), Nice e Marseille – lá funciona bem, compartilhando ruas com carros, mas o trânsito é calmo. Mesmo assim achei-os lentos, com excessão do sistema do porto, que na verdade é meioo VLT meio metrô. Em POA, São Paulo e muitas outras cidades seria um transtorno se usados na área central, como é nesses locais citados, mas se aplicaria bem locais adequados.

    O ideal seria o metrô subterrâneo, mas o altíssimo custo de implantação tem que ser justificado por uma alta demanda.Temo que o traçado escolhido para o de POA não seja o melhor, ficando às moscas em alguns horários e lotado nos horários de pico. Mas que venha!

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